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Manaus 30º • Nublado
Sexta, 23 Outubro 2020

Antifábula

Era uma vez uma cidade sorriso. Ali, os bairros com suas características próprias de tranquilidade, com seus moradores conversando na porta das casas, encantavam os meninos de Manaus, a desfilar sua beleza pelas ruas que davam geralmente em igarapés. Ah, os igarapés, do Quarenta, do Crespo, do Parque 10, da Ponte da Bolivia, do Tarumã. Pobres e ricos súditos do mesmo rei, o Estado Oficial, embora mínima fosse a presença do poder público. Lentamente, em 30 anos, as ruas incharam. No vácuo do poder, a partir dos anos 80, surgiram os estados paralelos, lobos alimentados pelo tráfico de drogas. Estruturados e profissionais, assimilaram a organização no contato com os presos que foram soltos. Criaram facções, que se detestam, numa guerra econômica que movimenta cerca de R$ 30 milhões mensais, mas têm um inimigo comum, o Estado oficial. Eles prendem e julgam segundo as próprias leis, exercendo os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. E como esses Estados paralelos são administrados? Vale o exercício de imaginação. Tem o Ministério das Comunicações, responsável pelas centrais telefônicas clandestinas e pelos celulares distribuídos nas prisões. Providencia fogos de artifícios, balões e pipas que dão o alerta quando o inimigo tenta chegar. Há o Ministério da Infância e Cultura, importantíssimo, pois organiza os bailes funks, tão a gosto dos locais, que cantam "tá dominado, tá tudo dominado". Existe o Ministério da Economia e Comércio, um dos principais. O produto interno é bruto (crack) ou refinado (cocaína). Lida com os pontos de venda e chega ao requinte mercadológico de fornecer grátis a droga para os curiosos. Depois de viciados, bem, depois é outra coisa. Afinal, a economia é auto-sustentável. Já o Ministério da Agricultura adota a terceirização, sinal do mundo globalizado. A coca vem de plantações na Colômbia. A maconha é paraguaia ou cultivada no Nordeste e no Centro-Oeste brasileiros. O Ministério do Trabalho emprega menores e jovens adultos, garantindo um ganho médio de 500 reais por semana nos escalões mais baixos, equivalentes a dois meses e meio de serviço no Estado oficial. Já o Ministério dos Transportes impulsiona os "bondes", comboios de carros roubados que atacam postos inimigos, tais como prédios da prefeitura, delegacias e fóruns. Cuida também dos barcos que avançam pela orla do Rio Negro conduzindo fuzis AK 47, AR 15 e Fal, além de granadas. O da Justiça, Saúde e Previdência Social administra cemitérios clandestinos e garante tratamento médico e subsistência para os presos e familiares. Faz o trabalho social, determina a "lei do silêncio", o funcionamento do comércio e as penas aplicadas aos delatores e inimigos, desde o banimento até a morte. Enfim, qual é a moral dessa antifábula? Nenhuma. É da natureza da antifábula não possuir qualquer espécie de moral. Ademais, a história não terminou. Talvez, amanhã alguém conte uma outra: "Era uma vez uma cidade nordestina..." Essa é a Manaus de hoje.

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