Manaus 30º • Nublado
Quinta, 01 Dezembro 2022

A cidade escolhida pelo patriarca José da Silva Azevedo e Maria Ferreira Bernardes

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Se a arquitetura é o símbolo mais visível de uma sociedade, a fisionomia urbana de Manaus reflete bem o espírito da sociedade que aqui floresceu em fins de 1800 e início de 1900. Na verdade, a arquitetura de Manaus, a arquitetura mais antiga exprime uma atitude emocional e estética do apogeu de um período do látex e da burguesia enriquecida pelo processo produtivo.

A cidade, que despertou a admiração de tantos estrangeiros, imigrantes ou visitantes, nas primeiras décadas de 1900, surgiu como por encantamento.
De uma aldeia dos índios Manaus, o antigo Lugar da Barra se transformara num dos mais importantes centros do mundo tropical, graças à vitalidade econômica da borracha, que lhe deu vida, riqueza e encantos, como na Antiguidade o comércio intenso no Mediterrâneo e no Adriático possibilitou a Roma, Florença e Veneza papel preponderante na economia, nas artes, nas letras e na arquitetura da velha Europa.

Tal como Veneza, por meio de seu comércio de longo alcance com povos europeus e extras europeus, Manaus veio conhecer o gosto e a experiência de países extras americanos onde sua burguesia procurava inspirações de vida e de ação. O passeio de férias à Europa era a ocorrência de rotina para a família de Manaus que, por sua vez, de lá traziam ideias e sugestões transformados em valores culturais, às vezes um tanto invulgar de uma sociedade desejosa de crescer e firmar-se como força civilizadora.

José da Silva Azevedo (pai), Maria Ferreira Bernardes (mãe) e José da Silva Azevedo (filho) aos 10 anos de idade. Foto: Acervo familiar

Cidade de suaves colinas, Manaus desdobra-se em vistas múltiplas para quem a cruze nas avenidas e ruas de um lúcido urbanismo. E não deixa de impressionar a obra urbanizadora da Capital, creditada ao governador Eduardo Ribeiro, a topografia da cidade, antes do governo dele, vislumbrava-se em cortes hidrográficos: era o igarapé do Salgado, o igarapé Castelhana, o igarapé da Bica, o igarapé do Espírito Santo, o igarapé de Manaus, o igarapé da Cachoeirinha, o igarapé de São Raimundo, o igarapé de Educandos, etc.

Eduardo Ribeiro aterrou os caudais em benefício de um urbanismo funcional, que lutou conta a natureza até fazer secar os pequenos cursos d'água, transformados em amplas avenidas.

A Avenida Eduardo Ribeiro, com sua imponência, resultado do aterro do igarapé do Espírito Santo. Outros tantos igarapés atravessados por sólidas pontes de ferro, em disposições geométricas artisticamente apresentadas. O Teatro Amazonas, erigido no topo de uma colina, como se fosse a Acrópole dos Deuses da floresta, marca a Capital no espaço e no tempo, inaugurado em 1896.¹

(À esquerda) José da Silva Azevedo (patriarca) aos dois anos de idade./ (À direita) José da Silva Azevedo e sua mãe Maria Ferreira. Fotos: Acervo familiar

Cidade rica, progressista e alegre, calçadas com granito e pedra de liós trazidas de Portugal, sombreadas por frondosas mangueiras, e de praças e jardins bem cuidados, com belas fontes e monumentos, tinha todos os requisitos de uma grande urbe moderna: água encanada e telefonias; energia elétrica, rede de esgoto e bondes elétricos deslizando em linhas de aço espalhadas por toda a malha urbana e penetrando na floresta até os arredores mais distantes do bairro de Flores. O seu porto flutuante, obra-prima de engenharia inglesa, construído a partir de 1900, o qual recebia navios de todos os calados e das mais diversas bandeiras.

O movimentado centro comercial regurgitando de gente de todas as raças, nordestinos, ingleses, peruanos, franceses, judeus, norte-africanos, norte-americanos, alemães, italianos, libaneses, portugueses, caboclos e índios.

A Avenida Eduardo Ribeiro concentrava um número expressivo de casas comerciais. Nas proximidades do Mercado Municipal, ruas Marcílio Dias, Guilherme Moreira, Quintino Bocaiúva, Sete de Setembro, Henrique Martins, Instalação, Praça XV de Novembro. Tudo o que o comércio internacional oferecia à época poderia ser encontrado nesta longínqua cidade, plantada a milhares de quilômetros dos principais centros capitalistas.

Atividades comerciais bem constituídas abrigavam, no andar inferior, o comércio e no andar superior a residência do proprietário, instalado próximo ao seu trabalho, era razão para uma dedicação de maior tempo ao trabalho, o que ocorria normalmente das 7 às 21 horas.

Rua Henrique Martins, décadas de 1900. Foto: Domínio público

Esse espaço residencial era o que predominava em nosso centro comercial. Mais afastadas como a Praça dos Remédios, ao longo da Joaquim Nabuco, Praça de São Sebastião, Sete de Setembro, Barroso, 24 de Maio, Saldanha Marinho e outras ruas circunvizinhas, dispunham-se as residências mais ricas, magníficos palacetes construídos no melhor estilo da época, assoalhos de acapu e pau-amarelo, e pinho de riga, onde o sol vazava as janelas e vitrais europeus. As salas normalmente iluminadas de belíssimos lustres europeus, paredes e tetos decorados de pinturas em telas ou de afrescos.

Seus salões amplos exibiam luxuosíssimos móveis, porcelanas, cristais e pratarias, e que permaneciam sempre abertos para receber visitas e festas de aniversários, banquetes e saraus, as diversões familiares da belle époque.

Casas de alvenaria com porões habitáveis, com fachada de painéis de azulejos europeus, com suas entradas de escadas em degraus de pedra de liós ou madeira, sala de visita, alcova, sala de jantar, o grande corredor ladeado de dois ou três quartos, cozinha e demais dependências.

As famílias de menores recursos habitavam as extensas vilas de casas populares, o que ainda encontramos hoje nas ruas 24 de Maio, Lauro Cavalcante e Joaquim Nabuco e as chamadas estâncias, extensas construções de meia-água, divididas em pequenos quartos para aluguel. Entre os hotéis destacavam-se o Cassina, na Praça Dom Pedro II e, o Grand Hotel, na rua Municipal, 70, belíssimo edifício de dois andares, com quarenta e dois quartos, cujos, cômodos eram decentemente mobiliados.²

José da Silva Azevedo, pai de José dos Santos da Silva Azevedo. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

A primeira geração Silva Azevedo

José da Silva Azevedo, imigrante português nascido em Albergaria-a-Velha, era casado com a também imigrante portuguesa Maria Ferreira Bernardes, nascida em Coimbra. Moravam na Rua Barão de São Domingos:

Rua Barão de São Domingos- Perímetro urbano. Bairro da Calábria. Começava na Travessa do Tabelião Lessa. Terminava no litoral do Rio Negro. Ex- Rua de Ramalho Júnior. Atual Rua Barão de São Domingos. ³

Quando meditamos na grandeza da obra humana, estruturada na honestidade e no trabalho, figura-se sempre o velho imigrante, dentre eles o português é e será sempre destaque. Nomes importantes do comércio local, deixaram seus legados, outros não menos importante no contexto da História, figuram-se no templário do heroísmo, como forte lembrança do velho Portugal, de forma de vida simples e muitas vezes heroica, pois quando começamos a levantar sua vida, nos mostra quão importante contribuição que deixaram. Uma espécie de "Rei Lear" da nossa História. Para a família e seus descendentes, este legado não fica só na memória, mas estimula a falar quanto foi difícil a permanência de seus entes queridos, porém quanto orgulho lhes dão.

Maria Ferreira Bernardes. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

José da Silva Azevedo foi um desses heróis anônimos, que com a simplicidade deixou esse legado. Como é possível permitir o esquecimento do homem que acreditou que poderia ser feliz em Manaus? Mas, então inquirir-se-ia ao sábio, que um verdureiro, nascido em Portugal em "Albergaria-a-Velha", deixaria seu nome e sobrenome em um varão? Ele sabia que seria possível mostrar para a geração de hoje sua presença em Manaus? Sim, é possível reconstruir sua trajetória de vida, que ele fez imprimir pelo selo da simplicidade de um verdureiro do mercado Adolpho Lisboa tinha dois horários. E o trabalhador percebera com sabedoria que marcaria sua presença, não pela profissão de verdureiro, mas pela força do trabalho honesto, que escolhera para sua sobrevivência.

Maria Ferreira Bernardes, sua esposa, como ele também imigrante portuguesa, dividia a casa que era um sobrado, pois em baixo era alugado para comércio. Vale ressaltar que a residência do casal era alugada. Dona Maria não representava só a esposa, como toda mulher do lar, mantinha seus afazeres domésticos e ao mesmo tempo dava sua contribuição financeira lavando roupa para fora.

O habitar da família, como já foi dito, era na rua Barão de Domingos, cujo rio Negro estava na porta da residência, tinha uma pedra enorme, produto da natureza, local onde várias famílias da época usavam para tal fim. A vontade de vencer, fibra da mulher portuguesa, acostumada ao trabalho do campo, se entremeava com a poesia da cidade natal, onde nascera, Erminde. Cidade importante de homens e mulheres que também foi marcada pela geração do trabalho.

Manaus, primeiras décadas de 1900. Foto: Domínio público

A história de vida desse é marcada pelo trabalho, pelo sofrimento, porém, não podemos esquecer que parte da nossa história socioeconômica fora construída pelos dois.

Ele vendedor de frutas e legumes no mercado Adolpho Lisboa. Não creio que para a história nem para a família este local seja despercebido. O tradicional mercado Adolpho Lisboa é o que se pode chamar "casas de duas frentes". O prédio apresenta duas fachadas totalmente distintas, uma voltada para o velho rio Negro e outra para a rua dos Barés. O conjunto é composto por quatro pavilhões.

Rua dos Barés – Perímetro urbano, Bairro dos Remédios, começava no igarapé da Bica de Monte Cristo (ou igarapé da Serraria ou Doca já nos nossos dias). Terminava na rua da Boa Vista (atual rua Marquês de Santa Cruz). Atualmente sua posição é esta: começava no igarapé da Bica de Monte Cristo. Terminava nas imediações do armazém da Manaus Harbour Limited, ao começo da rua do Marquês de Santa Cruz. É uma das artérias mais antigas de Manaus, datando do segundo quartel do século passado e conservado a nomenclatura, sem alteração, até hoje. Não encontramos nos arquivos referências à data de sua predicação. Nela foi construído o atual Mercado de ferro. 4

É composto por um conjunto de construções, erguidas em diferentes épocas e, sua descrição formal facilitada a partir da planta baixa que, fora localizada em 1991, no Instituto Brasileiro de Patrimônio Cultural, na cidade do Rio de Janeiro.

Segundo o autor Otoni Mesquita, as obras do mercado de ferro foram iniciadas em 2 de agosto 1882.

Em 1902, o intendente municipal João C. de Miranda Leão solicitava consertos e ampliações do mercado. 5

Não é possível reconstruir a vida do casal José da Silva Azevedo e Maria Ferreira Bernardes isolando sua passagem histórica pela rua Barão de São Domingos e o Mercado Adolpho Lisboa.

Agir assim seria amputar parte da nossa História escrita por eles. Podemos, ao entrar no local, conduzir pelo nosso pensamento toda a trajetória dos dois, ela lavando roupa para ajudá-lo, ele trabalhando como vendedor de frutas, verduras e legumes.

Comendador José dos Santos da Silva Azevedo. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Tudo isso faz parte de uma viagem que o tempo procurou nos entregar e, nós temos de deixar para a perenidade através de relatos. Temos como verdade a sua história, talvez esquecida para alguns, mas os dois ambientes são e serão sempre repositórios da história de vida deles, marcada pelo trabalho.

Quantos portugueses lá deixaram seus nomes? Resgatar a memória dos fatos é uma forma de preservar a história, apresentá-la para as novas gerações, testemunhando a vida e as realizações das pessoas, como fazemos com a primeira geração da família Silva Azevedo, pontuando os momentos do verdureiro e da lavadeira, traduzidos em viagem ao passado, com fotos originais da época em que eles escreveram, para a humanidade, suas histórias de vida.

Referências

1 TOCANTINS, Leandr. O rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia. Manaus: Valer, 2000. P. 188-189.

2 LOUREIRO, Antônio José Souto. A grande crise. P. 33 – 34. In Abrahim. Luso Sporting Club: a sociedade portuguesa no Amazonas. Manaus: Valer, 2007.

3 MONTEIRO, Mário Ypiranga. Roteiro Histórico de Manaus, Volume I. Manaus: Edua, 1998. p. 61.

4 MONTEIRO, Mário Ypiranga. Roteiro Histórico de Manaus, Volume I. Manaus: Edua, 1998. p. 68.

5 MESQUITA, Otoni, Manaus – História e Arquitetura (1852-1910). Manaus: Valer, 1997. p. 82. 

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista 


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