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Quarta, 18 Mai 2022

Projeto equipa e treina brigadas indígenas para combate ao fogo no sul do Amazonas

A Terra Indígena (TI) Boca do Acre, onde vive o povo Apurinã, fica em uma região do sul do Amazonas que foi duramente atingida pelo fogo em 2020 - ano com o maior número de queimadas em uma década. Naquele território, a principal linha de defesa contra as chamas é a brigada indígena, que foi treinada e equipada graças a um projeto do WWF-Brasil em parceria com o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB).

Em seu território de 26 mil hectares, os Apurinã - cerca de 250 indivíduos -, fazem tradicionalmente o primeiro combate ao fogo. Mas com o aumento das queimadas na região, perceberam que precisavam uma brigada contra incêndios mais estruturada, de acordo com Osvaldo Barassi Gajardo, especialista em conservação do WWF-Brasi

Reprodução: WWF

Em seu território de 26 mil hectares, os Apurinã - cerca de 250 indivíduos -, fazem tradicionalmente o primeiro combate ao fogo. Mas com o aumento das queimadas na região, perceberam que precisavam uma brigada contra incêndios mais estruturada, de acordo com Osvaldo Barassi Gajardo, especialista em conservação do WWF-Brasil.

"O próprio povo Apurinã solicitou apoio para a aquisição de materiais e equipamentos para o combate às queimadas. Como eles não tinham uma associação formalizada que pudesse viabilizar a assinatura de um contrato, o IEB se ofereceu para fazer a gestão do projeto e pudemos estabelecer a parceria", diz Gajardo.

O IEB é amplamente reconhecido por seu trabalho com pautas ligadas a direitos indígenas e proteção territorial na Amazônia. A organização se encarregou de comprar os equipamentos e entregá-los aos Apurinã. "O IEB trabalha conosco há muitos anos na região e, em fevereiro de 2020, assinamos com eles o contrato do projeto de Prevenção e Combate a Queimadas em Terras Indígenas, com foco na TI Boca do Acre", acrescenta.

A parceria também permitiu que a brigada indígena recebesse treinamento para prevenção e combate a incêndios. O WWF-Brasil investiu R$ 67,4 mil no projeto e a entrega dos equipamentos ocorreu em junho de 2021, com apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai).

"Foram doados equipamentos de proteção individual, como capacetes, calças, gandolas, luvas, óculos, balaclavas, botas e outros itens fundamentais para a atuação dos brigadistas. Também foram entregues mochilas, machados, enxadas, foices, bombas costais, um motor de rabeta, radiocomunicadores, abafadores, GPS, uma carreta para transporte de embarcação e lanterna, entre outros itens que permitem fazer gestão do combate a incêndios e manejo do fogo", relata Gajardo.

Os treinamentos dos brigadistas indígenas foram feitos pelo Corpo de Bombeiros de Rio Branco, do Acre, de acordo com Janaina de Oliveira, assistente técnica do IEB para a Região do Purus e Madeira. "Os bombeiros têm bastante proximidade com os indígenas nessa região e foram extremamente competentes para oferecer o treinamento adequado, fundamental para que os brigadistas aprendessem as técnicas de combate ao fogo e de prevenção, além de primeiros socorros", destaca Janaina.

Foto: Brigada de Alter.

Segundo ela, o Ibama já tinha um programa de brigadas indígenas para combate a incêndios florestais na região, mas havia grande limitação de pessoal e recursos. Com os recursos obtidos pelo projeto, foi possível equipar e treinar 12 brigadistas indígenas.

Em junho de 2021, quando os equipamentos foram entregues pela Funai, três bombeiros acompanharam a operação e fizeram mais uma atualização do treinamento. "A temporada seca da Amazônia já começou, há focos de queimadas na região e a brigada indígena já está atuando no combate ao fogo", afirma Janaina.

De acordo com ela, a ameaça de grandes incêndios existe na TI Boca do Acre porque o território é cortado por um trecho de 16 quilômetros da rodovia BR-317, que liga Boca do Acre a Rio Branco. Além de oferecer um acesso para os não indígenas dentro do território, a estrada forma uma espécie de corredor inflamável, já que a ausência de vegetação em suas margens faz com que a matéria orgânica acumulada sobre o substrato fique exposta e ressecada.

"Nessas áreas, o fogo se alastra muito rápido e pode fugir completamente do controle. Por conta do desmatamento e da seca, muitas vezes os igarapés que eram utilizados para apagar esse fogo estão secos. Durante o treinamento, os brigadistas indígenas aprenderam a fazer aceiros e eliminar o material que pode ser queimado. Agora estão equipados e treinados para fazer o manejo do fogo nessas áreas", diz Janaina.

A Covid-19, conta Janaina, causou atrasos na execução do projeto. Quando os recursos estavam disponíveis para a compra dos equipamentos, a pandemia começou e vários fornecedores não puderam entregar os produtos nos valores acordados. Foi preciso fazer um remanejamento dos recursos. "Levamos oito meses para conseguir todos os materiais e, quando chegou o momento da entrega, vieram as enchentes no Acre e os caminhões ficaram impedidos de transitar por dois meses", relata.

Em seguida, veio a terceira onda da pandemia e as autoridades estabeleceram barreiras sanitárias que impediram mais uma vez as entregas. Quando chegou o momento da entrega, os indígenas estavam com uma expectativa tão grande que haviam construído um barracão para armazenar os equipamentos. "Esse apoio foi muito importante para eles. O povo Apurinã tem uma tradição de luta e resistência para a defesa do seu território e agora estão preparados para combater as queimadas", destaca Janaina.

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