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Luciana Frazão

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Luciana Frazão

Conheça o kambô, uma das maiores pererecas da Região Amazônica

A Phyllomedusa bicolor, também conhecida como perereca-macaco, pode chegar até 12 centímetros de comprimento e possui propriedades antimicrobianas

Luciana Frazão

luca.frazao@gmail.com


O kambô é um anfíbio pertencente a família Phyllomedusidae. Essa espécie ocorre na Amazônia brasileira e também nas Guianas, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e, possivelmente, na região leste do Equador. São caracterizadas pela coloração verde-escura da região dorsal (a parte de cima do corpo do animal) e ventre branco ou creme. Esses animais são noturnos e arborícolas, utilizando os grandes discos adesivos presentes nas pontas dos dedos para escalar a vegetação.

 

O kambô (ou perereca-macaco), Phyllomedusa bicolor, em vista frontal. Foto: Luciana Frazão

É uma espécie de floresta e, durante o período de reprodução, os machos vocalizam no alto das árvores “empoleirados nos galhos” para atrair as fêmeas (vocês sabiam que as fêmeas dos anuros - sapos, pererecas e rãs - escolhem os parceiros pela qualidade do “canto”??). Os ovos são depositados em folhas acima de corpos d’água, onde os girinos caem logo após a eclosão.

 

Casal de Phyllomedusa bicolor em amplexo, posição reprodutiva em que o macho “abraça” a fêmea em preparação para a deposição dos ovos. Foto: Luciana Frazão

Esses animais apresentam veneno na pele, que é utilizado para a defesa contra predadores. Além disso, o veneno protege a pele de patógenos, como fungos e bactérias, e tem papel na aceleração da cicatrização de feridas e na proteção contra irradiação UV, funcionando como um protetor solar natural. Isso porque o veneno dessas pererecas é rico em compostos químicos, principalmente peptídeos, que apresentam grande potencial medicinal, sendo inclusive utilizado tradicionalmente em ritual por alguns povos indígenas, sendo esse ritual chamado de “vacina-do-sapo”.

 

 

Macho de kambô em poleiro onde fica vocalizando para atrair a fêmea. Foto: Luciana Frazão

Índios de algumas etnias, como Kaxinawá, utilizam o veneno dessa espécie na medicina tradicional. Durante séculos, os indígenas têm usado o Kambô como uma forma de medicina para “fortalecer as defesas naturais do corpo”, para afastar a “panema” (má sorte) e para aumentar o sucesso da caça, porém essa prática tradicional tem sido replicada fora do contexto cultural, por pessoas não indígenas e em grandes centros urbanos. Não existem, até o momento, estudos suficientes que comprovem os benefícios da vacina-do-sapo e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ordenou a suspensão de todos os tipos de publicidade para essa terapia alternativa, com penalidades previstas em lei, dado os efeitos colaterais que essa prática pode levar, causando diversos riscos para saúde, inclusive casos de morte.

 

O que se tem de estudos até o momento tratam do efeito dos peptídeos isolados a partir do veneno do kambô. Esses compostos isolados, e em teste in vitro, exibem propriedades antimicrobianas (por exemplo, contra Pseudomonas aeruginosas, uma bactéria que pode causar pneumonia) e também inibem protozoários (por exemplo, Trypanosoma cruzi, agente da doença de chagas). 

 

Porém, são necessários mais estudos sobre o potencial farmacológico do veneno desses animais e, sobretudo, é preciso reforçar a fiscalização devido ao risco de biopirataria/tráfico desses animais e de seu veneno, o que pode gerar grande impacto sobre a espécie, como o declínio das populações e risco de extinção. E se essa espécie for extinta, como vamos descobrir todo o potencial farmacológico que o kambô pode ter? A resposta é: não saberemos!

 

Detalhes da coloração da espécie Phyllomedusa bicolor, o kambô. Foto: Luciana Frazão

Portanto, são necessárias medidas efetivas para a conservação da espécie, que, além do tráfico, sofre principalmente devido à perda de habitat pelo desmatamento desenfreado da Amazônia. Para saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura das seguintes referências que também serviram como base para esse texto: 

 

- “Kambô” frog (Phyllomedusa bicolor): use in folk medicine and potential health risks - Artigo científico em inglês sobre o tema.

- Kambô (Phylomedusa bicolor) e a “vacina-do-sapo” – Texto de autoria do Prof. Dr. Paulo Bernarde, herpetólogo com ampla experiência no grupo. 

 

Espero que tenham gostado do texto de hoje e até a próximo animal incrível da nossa fauna! Abraços de sucuri pra vocês!

 

     

Conheça o kambô, uma das maiores pererecas da Região Amazônica

A Phyllomedusa bicolor, também conhecida como perereca-macaco, pode chegar até 12 centímetros de comprimento e possui propriedades antimicrobianas

Luciana Frazão

luca.frazao@gmail.com


O kambô é um anfíbio pertencente a família Phyllomedusidae. Essa espécie ocorre na Amazônia brasileira e também nas Guianas, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e, possivelmente, na região leste do Equador. São caracterizadas pela coloração verde-escura da região dorsal (a parte de cima do corpo do animal) e ventre branco ou creme. Esses animais são noturnos e arborícolas, utilizando os grandes discos adesivos presentes nas pontas dos dedos para escalar a vegetação.

 

O kambô (ou perereca-macaco), Phyllomedusa bicolor, em vista frontal. Foto: Luciana Frazão

É uma espécie de floresta e, durante o período de reprodução, os machos vocalizam no alto das árvores “empoleirados nos galhos” para atrair as fêmeas (vocês sabiam que as fêmeas dos anuros - sapos, pererecas e rãs - escolhem os parceiros pela qualidade do “canto”??). Os ovos são depositados em folhas acima de corpos d’água, onde os girinos caem logo após a eclosão.

 

Casal de Phyllomedusa bicolor em amplexo, posição reprodutiva em que o macho “abraça” a fêmea em preparação para a deposição dos ovos. Foto: Luciana Frazão

Esses animais apresentam veneno na pele, que é utilizado para a defesa contra predadores. Além disso, o veneno protege a pele de patógenos, como fungos e bactérias, e tem papel na aceleração da cicatrização de feridas e na proteção contra irradiação UV, funcionando como um protetor solar natural. Isso porque o veneno dessas pererecas é rico em compostos químicos, principalmente peptídeos, que apresentam grande potencial medicinal, sendo inclusive utilizado tradicionalmente em ritual por alguns povos indígenas, sendo esse ritual chamado de “vacina-do-sapo”.

 

 

Macho de kambô em poleiro onde fica vocalizando para atrair a fêmea. Foto: Luciana Frazão

Índios de algumas etnias, como Kaxinawá, utilizam o veneno dessa espécie na medicina tradicional. Durante séculos, os indígenas têm usado o Kambô como uma forma de medicina para “fortalecer as defesas naturais do corpo”, para afastar a “panema” (má sorte) e para aumentar o sucesso da caça, porém essa prática tradicional tem sido replicada fora do contexto cultural, por pessoas não indígenas e em grandes centros urbanos. Não existem, até o momento, estudos suficientes que comprovem os benefícios da vacina-do-sapo e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ordenou a suspensão de todos os tipos de publicidade para essa terapia alternativa, com penalidades previstas em lei, dado os efeitos colaterais que essa prática pode levar, causando diversos riscos para saúde, inclusive casos de morte.

 

O que se tem de estudos até o momento tratam do efeito dos peptídeos isolados a partir do veneno do kambô. Esses compostos isolados, e em teste in vitro, exibem propriedades antimicrobianas (por exemplo, contra Pseudomonas aeruginosas, uma bactéria que pode causar pneumonia) e também inibem protozoários (por exemplo, Trypanosoma cruzi, agente da doença de chagas). 

 

Porém, são necessários mais estudos sobre o potencial farmacológico do veneno desses animais e, sobretudo, é preciso reforçar a fiscalização devido ao risco de biopirataria/tráfico desses animais e de seu veneno, o que pode gerar grande impacto sobre a espécie, como o declínio das populações e risco de extinção. E se essa espécie for extinta, como vamos descobrir todo o potencial farmacológico que o kambô pode ter? A resposta é: não saberemos!

 

Detalhes da coloração da espécie Phyllomedusa bicolor, o kambô. Foto: Luciana Frazão

Portanto, são necessárias medidas efetivas para a conservação da espécie, que, além do tráfico, sofre principalmente devido à perda de habitat pelo desmatamento desenfreado da Amazônia. Para saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura das seguintes referências que também serviram como base para esse texto: 

 

- “Kambô” frog (Phyllomedusa bicolor): use in folk medicine and potential health risks - Artigo científico em inglês sobre o tema.

- Kambô (Phylomedusa bicolor) e a “vacina-do-sapo” – Texto de autoria do Prof. Dr. Paulo Bernarde, herpetólogo com ampla experiência no grupo. 

 

Espero que tenham gostado do texto de hoje e até a próximo animal incrível da nossa fauna! Abraços de sucuri pra vocês!

 

     

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