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Flávio Lauria

O namoro

“Para início de conversa, convém dizer que não existe uma teoria sobre o amor. Defini-lo, nem pensar, fazê-lo caber dentro de um conceito, não tem como”


Caríssimos leitores e leitoras, hoje Dia dos Namorados, poderia escrever uma crônica dedicada aos namorados, sobre o amor, para início de conversa, convém dizer que não existe uma teoria sobre o amor. Defini-lo, nem pensar, fazê-lo caber dentro de um conceito, não tem como. 

 

Os poetas usam a linguagem figurada, plena de metáforas para representar o amor. Tentam encontrar o seu significado através de comparações e imagens, aliás amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC, ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível. Mas hoje resolvi repetir um artigo que fiz algum tempo atrás, sobre o namoro de dois pássaros. 

 

Uma megaoperação doméstica tirou-me da varanda onde escrevo, todas as manhãs, estas mal traçadas impressões (literalmente digitais) de vida. Nesta época do ano, o sol invade a maior parte dos cômodos virados para a nascente e, segundo a meteorologia da casa, os efeitos são irreparáveis sobre o tecido das poltronas e a superfície dos móveis. 

 

Em resumo, a esta hora do dia, não se pode abrir as janelas. E, no calor, confesso que não funciono. Exilado na varanda dos fundos, tento reunir as ideias que sobram desse meu pobre e inevitável solstício. Além das ideias que se negam a comparecer ao novo local de trabalho, sou forçado a registrar também uma outra ausência. 

 

Na varanda lá da frente, sempre a esta hora da manhã, recebo a visita de um bem-te-vi, que deixa suas três notinhas no parapeito da varanda, depois, acumpliciado com uma samambaia alcoviteira que se enrosca de parede abaixo, assume um dos ramos mais altos e fica esperando a namorada, que não tarda a chegar. 

 

Os dois se bicam, porque não conseguem se beijar. Mas é a única forma que conhecem de dizer que se amam. Enquanto eles se bicam de amor, fico eu catando o grãozinho das ideias que servirão para a próxima crônica. Só não são personagens dos textos que mando diariamente para os jornais porque já trazem a assinatura de Deus, que não é autor de aceitar parceria com ninguém. São uns exibicionistas esses namorados. 

 

Ela, mais afoita e mais ousada, esvoaça por sobre a paixão do outro, que fica saltitando de lá para cá, soletrando suas emoções, já que cantar não sabe direito. Esse, aliás, é o problema dos bem-te-vis. Incapazes de flautear seus amores como os sabiás e os curiós em longas partituras, contentam-se com essas três notinhas que só aos bem-te-vis apaixonados conseguem encantar. Mesmo assim, fazem falta a esta varanda protegida do sol. 

 

A bem da verdade, todas as formas de amor fazem falta. Na vida, como na varanda. No texto, como no canto. Muito mais na terra do que no céu. Como este lado da casa, mergulhado na sombra, parece deserto de ideias, acudiu-me a estratégia de transplantar a samambaia de lá para cá. Quem sabe, a presença da alcoviteira não seria capaz de atrair o casal de namorados? Faço isso e me ponho a esperar. Deu certo. Ela apareceu primeiro. Ele em seguida, com o seu adágio: “Bem-te-vi!” Como todas as fêmeas da Criação, ela era a coqueteria em pessoa. 

 

Ou melhor, em plumas. Fingia ignorar a performance do solista apaixonado. Mantinha o olhar perdido na vastidão do céu confinando com os prédios, destino primeiro e último de todas as aves, perdição de todos poetas e de todos os amantes. De repente, o trovador das notas plurais e da paixão singular interrompe o seu gran finale e empreende um voo circular pela orla da floresta atlântica que ainda resta por aqui. 

 

Estaria abandonando a cena idílica? Desistira do amor? Não, de jeito nenhum. Era a apoteose. Eis que ela também se alça em movimento gracioso de luxúria e graça, atraída pelo desenho do mesmo voo riscado pelo namorado no azul do céu. E como nada mais vi, posto que se perderam os dois no verde alcoviteiro da floresta silenciosa, voltei à minha crônica desamada. Muito tempo depois, ouvi ecoar bem longe daqui o adágio triunfal: “Bem-te-vi. Bem-te-vi!” Daí porque quase não há crônica hoje, meus caros namorados e namoradas. Não por falta de paixão nesta vida. Mas por falta de namoro na varanda.


Flávio Lauria

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O namoro

“Para início de conversa, convém dizer que não existe uma teoria sobre o amor. Defini-lo, nem pensar, fazê-lo caber dentro de um conceito, não tem como”

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Caríssimos leitores e leitoras, hoje Dia dos Namorados, poderia escrever uma crônica dedicada aos namorados, sobre o amor, para início de conversa, convém dizer que não existe uma teoria sobre o amor. Defini-lo, nem pensar, fazê-lo caber dentro de um conceito, não tem como. 

 

Os poetas usam a linguagem figurada, plena de metáforas para representar o amor. Tentam encontrar o seu significado através de comparações e imagens, aliás amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC, ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível. Mas hoje resolvi repetir um artigo que fiz algum tempo atrás, sobre o namoro de dois pássaros. 

 

Uma megaoperação doméstica tirou-me da varanda onde escrevo, todas as manhãs, estas mal traçadas impressões (literalmente digitais) de vida. Nesta época do ano, o sol invade a maior parte dos cômodos virados para a nascente e, segundo a meteorologia da casa, os efeitos são irreparáveis sobre o tecido das poltronas e a superfície dos móveis. 

 

Em resumo, a esta hora do dia, não se pode abrir as janelas. E, no calor, confesso que não funciono. Exilado na varanda dos fundos, tento reunir as ideias que sobram desse meu pobre e inevitável solstício. Além das ideias que se negam a comparecer ao novo local de trabalho, sou forçado a registrar também uma outra ausência. 

 

Na varanda lá da frente, sempre a esta hora da manhã, recebo a visita de um bem-te-vi, que deixa suas três notinhas no parapeito da varanda, depois, acumpliciado com uma samambaia alcoviteira que se enrosca de parede abaixo, assume um dos ramos mais altos e fica esperando a namorada, que não tarda a chegar. 

 

Os dois se bicam, porque não conseguem se beijar. Mas é a única forma que conhecem de dizer que se amam. Enquanto eles se bicam de amor, fico eu catando o grãozinho das ideias que servirão para a próxima crônica. Só não são personagens dos textos que mando diariamente para os jornais porque já trazem a assinatura de Deus, que não é autor de aceitar parceria com ninguém. São uns exibicionistas esses namorados. 

 

Ela, mais afoita e mais ousada, esvoaça por sobre a paixão do outro, que fica saltitando de lá para cá, soletrando suas emoções, já que cantar não sabe direito. Esse, aliás, é o problema dos bem-te-vis. Incapazes de flautear seus amores como os sabiás e os curiós em longas partituras, contentam-se com essas três notinhas que só aos bem-te-vis apaixonados conseguem encantar. Mesmo assim, fazem falta a esta varanda protegida do sol. 

 

A bem da verdade, todas as formas de amor fazem falta. Na vida, como na varanda. No texto, como no canto. Muito mais na terra do que no céu. Como este lado da casa, mergulhado na sombra, parece deserto de ideias, acudiu-me a estratégia de transplantar a samambaia de lá para cá. Quem sabe, a presença da alcoviteira não seria capaz de atrair o casal de namorados? Faço isso e me ponho a esperar. Deu certo. Ela apareceu primeiro. Ele em seguida, com o seu adágio: “Bem-te-vi!” Como todas as fêmeas da Criação, ela era a coqueteria em pessoa. 

 

Ou melhor, em plumas. Fingia ignorar a performance do solista apaixonado. Mantinha o olhar perdido na vastidão do céu confinando com os prédios, destino primeiro e último de todas as aves, perdição de todos poetas e de todos os amantes. De repente, o trovador das notas plurais e da paixão singular interrompe o seu gran finale e empreende um voo circular pela orla da floresta atlântica que ainda resta por aqui. 

 

Estaria abandonando a cena idílica? Desistira do amor? Não, de jeito nenhum. Era a apoteose. Eis que ela também se alça em movimento gracioso de luxúria e graça, atraída pelo desenho do mesmo voo riscado pelo namorado no azul do céu. E como nada mais vi, posto que se perderam os dois no verde alcoviteiro da floresta silenciosa, voltei à minha crônica desamada. Muito tempo depois, ouvi ecoar bem longe daqui o adágio triunfal: “Bem-te-vi. Bem-te-vi!” Daí porque quase não há crônica hoje, meus caros namorados e namoradas. Não por falta de paixão nesta vida. Mas por falta de namoro na varanda.

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