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Flávio Lauria

Eufemismo

Poderíamos ficar apavorados com as consequências de podermos conhecer o pensamento real das pessoas na convivência diária

Flávio Lauria


O homem foi dotado de linguagem para revelar ou mascarar seu pensamento? Já pensaram se inventássemos uma máquina capaz de transferir o pensamento do cérebro de um interlocutor para uma tela, tornando-o visível. Poderíamos ficar apavorados com as consequências de podermos conhecer o pensamento real das pessoas na convivência diária, nos debates políticos, encontros de chefes de estado, empresários ou simples festas sociais e reuniões familiares. Na verdade a fala é útil para ocultar a verdade do pensamento humano e favorecer as operações socialmente convenientes da dissimulação, capazes de assegurar o equilíbrio na convivência. Um dos principais recursos de amaciamento da linguagem é o eufemismo. Consiste em dizer uma coisa pelo seu lado contrário. Não é complicado. Em vez de afirmar que seu colega “é burro”, você diz que “ele não é inteligente”. Todo esse preâmbulo é apenas para lembrar que estamos vivendo a época dos grandes eufemismos oficiais, manipulados por governantes e economistas. Tem sido, na verdade, uma espécie de mal do século. Hitler, por exemplo, falava em “solução final do problema judaico”: Queria dizer: extermínio em massa de judeus, ciganos e eslavos, através de fuzilamentos coletivos e câmaras de gás. Na guerra da Sérvia contra Kosovo, a remoção de populações inteiras foi batizada de “limpeza étnica”. No Brasil dos nossos dias, o dialeto, usado pelo governo é um canteiro de eufemismos viçosos. Por exemplo: mandar funcionários públicos para a rua passou a ser “plano de incentivo às demissões voluntárias”. Demissões voluntárias! Como se alguém quisesse perder o emprego numa época de crise e falta de oportunidades. Mas o governo, igualmente, fala com a maior naturalidade em “enxugar a máquina”. Outro eufemismo (que se confunde com cinismo) para “demissões em massa”.Vamos “flexibilizar” as leis trabalhistas – diz o governo, fazendo coro com a ordem mundial “Flexibilizar” é jogar o trabalhador no meio das forças cegas do marcado. Subtrair direitos. E o que dizer da palavra “austeridade” (leia-se “arrocho” contra a sociedade), sempre invocada em momentos de crise aguda? “Austeridade” passa então a ser a exigência de que todos se privem daquilo de que o governo não abre mão: gastar com viagens, comprar, desperdiçar, inverter prioridades, esbanjar. É palavra supressa do dicionário oficial, aplicável apenas aos perdulários do lado de fora do poder. Mas o espaço está acabando, citemos somente mais dois exemplos: velho virou melhor idade, terceira idade, ou turma da dignidade, isso é escamotear a verdade. Melhor seria ser chamado de seminovo. Nessa crise política e econômica que estamos atravessando, o aumento da conta de luz virou “realinhamento do preço da energia com bandeiras coloridas”. 
Mas o pior é o eufemismo da distinção de classes, que permanece ao longo dos séculos, como: Pobre é ladrão, rico é corrupto, pobre é puta, rica é socialite, pobre é viciado, rico é dependente químico.

Flávio Lauria

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Eufemismo

Poderíamos ficar apavorados com as consequências de podermos conhecer o pensamento real das pessoas na convivência diária

Flávio Lauria


O homem foi dotado de linguagem para revelar ou mascarar seu pensamento? Já pensaram se inventássemos uma máquina capaz de transferir o pensamento do cérebro de um interlocutor para uma tela, tornando-o visível. Poderíamos ficar apavorados com as consequências de podermos conhecer o pensamento real das pessoas na convivência diária, nos debates políticos, encontros de chefes de estado, empresários ou simples festas sociais e reuniões familiares. Na verdade a fala é útil para ocultar a verdade do pensamento humano e favorecer as operações socialmente convenientes da dissimulação, capazes de assegurar o equilíbrio na convivência. Um dos principais recursos de amaciamento da linguagem é o eufemismo. Consiste em dizer uma coisa pelo seu lado contrário. Não é complicado. Em vez de afirmar que seu colega “é burro”, você diz que “ele não é inteligente”. Todo esse preâmbulo é apenas para lembrar que estamos vivendo a época dos grandes eufemismos oficiais, manipulados por governantes e economistas. Tem sido, na verdade, uma espécie de mal do século. Hitler, por exemplo, falava em “solução final do problema judaico”: Queria dizer: extermínio em massa de judeus, ciganos e eslavos, através de fuzilamentos coletivos e câmaras de gás. Na guerra da Sérvia contra Kosovo, a remoção de populações inteiras foi batizada de “limpeza étnica”. No Brasil dos nossos dias, o dialeto, usado pelo governo é um canteiro de eufemismos viçosos. Por exemplo: mandar funcionários públicos para a rua passou a ser “plano de incentivo às demissões voluntárias”. Demissões voluntárias! Como se alguém quisesse perder o emprego numa época de crise e falta de oportunidades. Mas o governo, igualmente, fala com a maior naturalidade em “enxugar a máquina”. Outro eufemismo (que se confunde com cinismo) para “demissões em massa”.Vamos “flexibilizar” as leis trabalhistas – diz o governo, fazendo coro com a ordem mundial “Flexibilizar” é jogar o trabalhador no meio das forças cegas do marcado. Subtrair direitos. E o que dizer da palavra “austeridade” (leia-se “arrocho” contra a sociedade), sempre invocada em momentos de crise aguda? “Austeridade” passa então a ser a exigência de que todos se privem daquilo de que o governo não abre mão: gastar com viagens, comprar, desperdiçar, inverter prioridades, esbanjar. É palavra supressa do dicionário oficial, aplicável apenas aos perdulários do lado de fora do poder. Mas o espaço está acabando, citemos somente mais dois exemplos: velho virou melhor idade, terceira idade, ou turma da dignidade, isso é escamotear a verdade. Melhor seria ser chamado de seminovo. Nessa crise política e econômica que estamos atravessando, o aumento da conta de luz virou “realinhamento do preço da energia com bandeiras coloridas”. 
Mas o pior é o eufemismo da distinção de classes, que permanece ao longo dos séculos, como: Pobre é ladrão, rico é corrupto, pobre é puta, rica é socialite, pobre é viciado, rico é dependente químico.

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