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Flávio Lauria

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A greve dos professores

Sou professor pra começar e sinto como o educador de hoje é maltratado em suas reinvindicações, mas tenho uma opinião contra a greve

Flávio Lauria

jornalismo@portalamazonia.com


Caros leitores e leitoras, sou professor pra começar e sinto como o educador de hoje é maltratado em suas reinvindicações, mas tenho uma opinião contra a greve.


Em todo país civilizado, como se sabe, o direito de greve é garantido por lei, inclusive na Constituição brasileira. Entretanto, na prática, ou por culpa da legislação ordinária incompleta, ou da falta de autoridade do Judiciário, a greve, direito em si mesmo saudável e tipicamente democrático, costuma degenerar, entre nós, em abusos revoltantes, como se acabou de ver, na recente greve dos professores. Os abusos não são punidos nunca e, em consequência, são reiterados, cinicamente, ao arrepio do mais elementar senso de justiça, de humanidade e de respeito ao próximo. Não obstante, o que se põe em causa no presente artigo não é a greve enquanto abuso, e sim a greve simplesmente, como uso, ainda que consagrado em lei.

 

               
Foto: Reprodução/Shutterstock
 

 



A cada dia a paralisação coerciva do trabalho revela tudo o que tem de obsoleto como recurso de pressão social. Já é tempo de pensar em outras formas de reivindicação menos toscas, que não corram o risco de sacrificar a população, sobrecarregando-a com sofrimentos e desconfortos que ela não merece suportar, transformada, arbitrariamente, em refém do confronto entre trabalhadores e empregadores.



Por mais justa que for a causa dos grevistas, não lhes cabe o direito de imolar todos os estudantes da cidade, já normalmente sacrificada, à pressão cega de seus interesses corporativos. A greve constitui um desses casos em que o simples uso já se configura como abuso. Afinal, mesmo a greve menos abusiva constitui uma prática de coerção bronca e incivilizada, só compatível com os primórdios da luta entre o capital e o trabalho, ao tempo em que os proletários eram tratados como bestas de carga. 



 

As greves dos transportes, da saúde públic da segurança e da educação, provocam, fatalmente, a hostilidade cerrada da população que não pode passar nem um só dia sem ônibus, metrô, trem e postos de saúde, hospitais e proteção policial. O povo indispõe-se contra os grevistas e lhes nega qualquer apoio. Que tal pensar em outro tipo de protesto, que atraísse a simpatia e o apoio moral de toda a sociedade? Em nossos dias tudo passa pela mídia. Esta tornou-se o foro informal das questões de toda natureza, das dúvidas e dos conflitos mais diversos de interesse, inclusive e principalmente das polêmicas sociais. Se não é possível eliminar de todo a paralisação do trabalho, que esta se reduza ao mínimo, respeitando as cotas de serviço previstas em lei, que não são nunca respeitadas.



 

 Onde se deve investir maciçamente não é nos piquetes, na destruição da propriedade e no vandalismo generalizado, e sim, primordialmente, na campanha publicitária da greve, em jornais, na televisão, no rádio, mediante debates, entrevistas, matérias autorizadas, reportagens exibindo abertamente as chagas da desigualdade e dos desajustes sociais e econômicos, numa militância incansável pela conquista da opinião pública. Para tanto, os sindicatos reservariam um fundo destinado, exclusivamente, à ampla campanha publicitária. Se os trabalhadores tiverem a habilidade de fazer acontecer a greve na mídia, o resultado será muito melhor e mais rápido. 



A greve é prática ultrapassada, inscrita no tempo do Ford de bigode, que andava a 60 km/h, do cinema mudo, das mulheres fatais com suas olheiras enormes, dos cavalheiros que dormiam com freio nos bigodes, e dos espartilhos que torturavam a silhueta feminina. Já é tempo de estudar outras opções mais inteligentes, modernas e eficazes para essa prática primitiva que são as paralisações do trabalho, recurso cru com laivos de brutalidade, que lembra as amputações a frio, sem assepsia e sem anestesia, efetuadas pelos cirurgiões do tempo, provocando, quase sempre, a morte do paciente.

Em suma, a greve, tal como é concebida e executada até hoje, não passa de uma atitude de resistência passiva, marcada pelo ressentimento da luta de classes, e pesando, cegamente, sobre a sociedade inteira. Está na hora de a greve evoluir da resistência passiva para uma forma de decisão pró-ativa, capaz de mobilizar a sociedade em seu favor, sem ferir os direitos desta última. 

Flávio Lauria

A greve dos professores

Sou professor pra começar e sinto como o educador de hoje é maltratado em suas reinvindicações, mas tenho uma opinião contra a greve


Caros leitores e leitoras, sou professor pra começar e sinto como o educador de hoje é maltratado em suas reinvindicações, mas tenho uma opinião contra a greve.


Em todo país civilizado, como se sabe, o direito de greve é garantido por lei, inclusive na Constituição brasileira. Entretanto, na prática, ou por culpa da legislação ordinária incompleta, ou da falta de autoridade do Judiciário, a greve, direito em si mesmo saudável e tipicamente democrático, costuma degenerar, entre nós, em abusos revoltantes, como se acabou de ver, na recente greve dos professores. Os abusos não são punidos nunca e, em consequência, são reiterados, cinicamente, ao arrepio do mais elementar senso de justiça, de humanidade e de respeito ao próximo. Não obstante, o que se põe em causa no presente artigo não é a greve enquanto abuso, e sim a greve simplesmente, como uso, ainda que consagrado em lei.

 

               
Foto: Reprodução/Shutterstock
 

 



A cada dia a paralisação coerciva do trabalho revela tudo o que tem de obsoleto como recurso de pressão social. Já é tempo de pensar em outras formas de reivindicação menos toscas, que não corram o risco de sacrificar a população, sobrecarregando-a com sofrimentos e desconfortos que ela não merece suportar, transformada, arbitrariamente, em refém do confronto entre trabalhadores e empregadores.



Por mais justa que for a causa dos grevistas, não lhes cabe o direito de imolar todos os estudantes da cidade, já normalmente sacrificada, à pressão cega de seus interesses corporativos. A greve constitui um desses casos em que o simples uso já se configura como abuso. Afinal, mesmo a greve menos abusiva constitui uma prática de coerção bronca e incivilizada, só compatível com os primórdios da luta entre o capital e o trabalho, ao tempo em que os proletários eram tratados como bestas de carga. 



 

As greves dos transportes, da saúde públic da segurança e da educação, provocam, fatalmente, a hostilidade cerrada da população que não pode passar nem um só dia sem ônibus, metrô, trem e postos de saúde, hospitais e proteção policial. O povo indispõe-se contra os grevistas e lhes nega qualquer apoio. Que tal pensar em outro tipo de protesto, que atraísse a simpatia e o apoio moral de toda a sociedade? Em nossos dias tudo passa pela mídia. Esta tornou-se o foro informal das questões de toda natureza, das dúvidas e dos conflitos mais diversos de interesse, inclusive e principalmente das polêmicas sociais. Se não é possível eliminar de todo a paralisação do trabalho, que esta se reduza ao mínimo, respeitando as cotas de serviço previstas em lei, que não são nunca respeitadas.



 

 Onde se deve investir maciçamente não é nos piquetes, na destruição da propriedade e no vandalismo generalizado, e sim, primordialmente, na campanha publicitária da greve, em jornais, na televisão, no rádio, mediante debates, entrevistas, matérias autorizadas, reportagens exibindo abertamente as chagas da desigualdade e dos desajustes sociais e econômicos, numa militância incansável pela conquista da opinião pública. Para tanto, os sindicatos reservariam um fundo destinado, exclusivamente, à ampla campanha publicitária. Se os trabalhadores tiverem a habilidade de fazer acontecer a greve na mídia, o resultado será muito melhor e mais rápido. 



A greve é prática ultrapassada, inscrita no tempo do Ford de bigode, que andava a 60 km/h, do cinema mudo, das mulheres fatais com suas olheiras enormes, dos cavalheiros que dormiam com freio nos bigodes, e dos espartilhos que torturavam a silhueta feminina. Já é tempo de estudar outras opções mais inteligentes, modernas e eficazes para essa prática primitiva que são as paralisações do trabalho, recurso cru com laivos de brutalidade, que lembra as amputações a frio, sem assepsia e sem anestesia, efetuadas pelos cirurgiões do tempo, provocando, quase sempre, a morte do paciente.

Em suma, a greve, tal como é concebida e executada até hoje, não passa de uma atitude de resistência passiva, marcada pelo ressentimento da luta de classes, e pesando, cegamente, sobre a sociedade inteira. Está na hora de a greve evoluir da resistência passiva para uma forma de decisão pró-ativa, capaz de mobilizar a sociedade em seu favor, sem ferir os direitos desta última. 


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