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Bruno Ferreira

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Pirarucu, o bacalhau amazônida é o rei dos rios

Para a Gastronomia, o pirarucu pode ser consumido fresco ou ainda seco, é salgado e organizado em mantas, para que exsude a água livre existente na carne e assim possa conservar-se por mais tempo


Nos rios da Amazônia, entre sua abundante fauna ictiológica, reside um dos maiores peixes de águas doces do país. O pirarucu (Arapaima gigas) é um portento animal que pode chegar a 3 metros de comprimento e até 200kg. Ele possui uma característica física peculiar: sua cauda possui tons de cores avermelhados, o que lhe garante o nome que vem do tupi – pirá (peixe) e urucum (vermelho), um corante natural muito comum em nossa região.

 

Na mitologia indígena, a lenda em torno do pirarucu mostra que este era um índio muito poderoso e forte, mas que era extremamente violento e também irreverente diante dos deuses. Em uma de suas investidas guerreiras, em que dizimava tribos vizinhas, foi castigado a mando de Tupã, para que pedisse perdão por seus atos maldosos. Inflexível, recebeu um relâmpago mandado por Xandoré, deus da Ira e do Ódio, matando o guerreiro, que posteriormente teve seu corpo transportando para as profundezas do rio Tocantins e transformado em um peixe de grande porte.

 

Foto: Aline Fidelix/Instituto Mamirauá

A realidade atual é um quadro mais dramático, em que o pirarucu corre riscos de extinção por conta de sua pesca predatória. As experiências de produção em cativeiro são bastante exitosas, por conta de peculiaridades do animal que favorecem criá-lo em condições controladas. O pirarucu vive em águas chamadas lênticas, ou seja, rios e lagos sem correntezas, com maior calmaria, claras e transparentes (sem muitos sedimentos). Por esta razão, é possível criar o peixe dentro de condições específicas de temperatura e turbidez da água, de sua alimentação, entre outros elementos importantes também para seu manejo.

 

Para a Gastronomia, o pirarucu pode ser consumido fresco ou ainda seco, quando depois de filetado, é salgado e organizado em mantas, para que exsude a água livre existente na carne e assim possa conservar-se por mais tempo. O uso da salga é uma prática ancestral na Amazônia, como forma de conservação de alimentos. O “bacalhau da Amazônia” possui carne de apreciado sabor, que permite utilizações diversas. A pele do peixe, com largo uso no artesanato, visto que deste couro se fazem bolsas, sapatos e outros acessórios, pode ser frita por imersão em óleo quente, tornando-se um saboroso “torresmo”.

 

O pirarucu fresco, menos comum, possui carne de sabor suave e sem características de odor e cor marcantes. Pratos que a utilizam crua como o ceviche, podem ser adaptadas para o uso do peixe. A propósito, a preparação do ceviche tipicamente peruano, com ingredientes amazônicos, como chicória e alfavaca picadas, pimenta cumari, tucupi, cebola e alho, resultam em um prato bonito, extremamente saboroso e elegante.

 

A dessalga da carne, na versão do peixe seco, também nos permite cozê-lo com leite de castanha-do-Pará, numa versão da moqueca nordestina, ainda mais se a carne do peixe for defumada, o que torna este prato uma iguaria de nível internacional.

 

Nossos rios são impressionantes por sua vastidão de tambaquis, tucunarés, filhotes, pescadas, gurijuba, curimatã, dentre muitos outros. A herança indígena também nos lega o gosto por peixes e diferentes formas de preparo. Assim, nós, amazônidas e seus visitantes têm à disposição uma variedade inimaginável de opções deliciosas, dentre eles o rei dos rios, o pirarucu.

 


Pirarucu, o bacalhau amazônida é o rei dos rios

Para a Gastronomia, o pirarucu pode ser consumido fresco ou ainda seco, é salgado e organizado em mantas, para que exsude a água livre existente na carne e assim possa conservar-se por mais tempo

Bruno Ferreira

brunoferreira493@gmail.com


Nos rios da Amazônia, entre sua abundante fauna ictiológica, reside um dos maiores peixes de águas doces do país. O pirarucu (Arapaima gigas) é um portento animal que pode chegar a 3 metros de comprimento e até 200kg. Ele possui uma característica física peculiar: sua cauda possui tons de cores avermelhados, o que lhe garante o nome que vem do tupi – pirá (peixe) e urucum (vermelho), um corante natural muito comum em nossa região.

 

Na mitologia indígena, a lenda em torno do pirarucu mostra que este era um índio muito poderoso e forte, mas que era extremamente violento e também irreverente diante dos deuses. Em uma de suas investidas guerreiras, em que dizimava tribos vizinhas, foi castigado a mando de Tupã, para que pedisse perdão por seus atos maldosos. Inflexível, recebeu um relâmpago mandado por Xandoré, deus da Ira e do Ódio, matando o guerreiro, que posteriormente teve seu corpo transportando para as profundezas do rio Tocantins e transformado em um peixe de grande porte.

 

Foto: Aline Fidelix/Instituto Mamirauá

A realidade atual é um quadro mais dramático, em que o pirarucu corre riscos de extinção por conta de sua pesca predatória. As experiências de produção em cativeiro são bastante exitosas, por conta de peculiaridades do animal que favorecem criá-lo em condições controladas. O pirarucu vive em águas chamadas lênticas, ou seja, rios e lagos sem correntezas, com maior calmaria, claras e transparentes (sem muitos sedimentos). Por esta razão, é possível criar o peixe dentro de condições específicas de temperatura e turbidez da água, de sua alimentação, entre outros elementos importantes também para seu manejo.

 

Para a Gastronomia, o pirarucu pode ser consumido fresco ou ainda seco, quando depois de filetado, é salgado e organizado em mantas, para que exsude a água livre existente na carne e assim possa conservar-se por mais tempo. O uso da salga é uma prática ancestral na Amazônia, como forma de conservação de alimentos. O “bacalhau da Amazônia” possui carne de apreciado sabor, que permite utilizações diversas. A pele do peixe, com largo uso no artesanato, visto que deste couro se fazem bolsas, sapatos e outros acessórios, pode ser frita por imersão em óleo quente, tornando-se um saboroso “torresmo”.

 

O pirarucu fresco, menos comum, possui carne de sabor suave e sem características de odor e cor marcantes. Pratos que a utilizam crua como o ceviche, podem ser adaptadas para o uso do peixe. A propósito, a preparação do ceviche tipicamente peruano, com ingredientes amazônicos, como chicória e alfavaca picadas, pimenta cumari, tucupi, cebola e alho, resultam em um prato bonito, extremamente saboroso e elegante.

 

A dessalga da carne, na versão do peixe seco, também nos permite cozê-lo com leite de castanha-do-Pará, numa versão da moqueca nordestina, ainda mais se a carne do peixe for defumada, o que torna este prato uma iguaria de nível internacional.

 

Nossos rios são impressionantes por sua vastidão de tambaquis, tucunarés, filhotes, pescadas, gurijuba, curimatã, dentre muitos outros. A herança indígena também nos lega o gosto por peixes e diferentes formas de preparo. Assim, nós, amazônidas e seus visitantes têm à disposição uma variedade inimaginável de opções deliciosas, dentre eles o rei dos rios, o pirarucu.

 

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