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Bruno Ferreira

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Bruno Ferreira

Água, um relevante ingrediente amazônico

"Se tratando de gastronomia na Amazônia, a água reveste-se de dupla importância: como fonte de alimento e como ingrediente"


Comecemos com uma obviedade: a água é um elemento fundamental para a vida no planeta. 71% de toda superfície da Terra é composta por água em estado líquido. Além disso, em torno de 60% a 65% da massa corpórea do ser humano é água. Por isso, dizem (obviamente como uma piada) que somos, em última análise, grandes melancias ambulantes com sentimentos.

Mas, brincadeiras à parte, devemos saber que a água boa, limpa e em quantidade suficiente para aplacar necessidades, sejam quais forem, é antes de tudo, um direito de todas as pessoas. Mas isso nem sempre se materializa em uma realidade cotidiana. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que até 2050, a demanda por água aumentará entre 20% a 30% em relação aos números atuais. Esta elevação no consumo se dá pelo crescimento populacional, mas principalmente ao nosso estilo de vida e de produção.

Rio Hamza, o rio subterrâneo de 6 mil quilômetros de extensão embaixo da Amazônia

A pergunta é: haverá água suficiente? A mesma ONU já prevê que em 2025 mais de 1 bilhão de pessoas enfrentarão problemas de acesso à água potável. Estes dados são alarmantes, se não pensarmos que quaisquer medidas tomadas AGORA já estarão atrasadas em função da escassez real. Mas não é a redução das fontes de água limpa o principal problema. Lidamos com atividades produtivas primárias, como a pecuária, que lidam intensivamente com o uso da água. Além disso, a poluição de fontes e mananciais reduz a oferta e prejudica o abastecimento em áreas urbanas.
 
   
Foto: Reprodução 
 
Em 1997, o Brasil instituiu sua Política Nacional de Recursos Hídricos, por meio da lei n° 9.433, ainda sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso. Entre os fundamentos com os quais este dispositivo se orienta (art. 1º) estão o de que a água é um bem de domínio público (inciso I), além de ser um recurso natural limitado e com valor econômico (inciso II). Possuímos no país um dos maiores reservatórios do planeta: o Aquífero Alter-do-Chão. Situado entre os estados do Pará, Amazonas e Amapá, estima-se que seu volume de água abasteceria a população mundial 100 vezes. É um patrimônio hídrico inestimável abaixo dos nossos pés em plena Amazônia!

Do ponto de vista da Gastronomia e mais especificamente, em se tratando de gastronomia na Amazônia, a água reveste-se de dupla importância:

1) A água como fonte de alimento: possuímos uma extensa rede hidrográfica ao longo de toda nossa região. Só a bacia do Rio Amazonas possui 7.050.00 km2 de área, ao longo dos 6.400km pelos quais o rio se estende. Vivemos na região que é o maior banco de biodiversidade do planeta. Nossa fauna ictiológica fornece uma infinidade de peixes que compõem a dieta dos povos amazônicos durante séculos. E não somente isso: somem-se se as costas marítimas, lagos, bem como áreas de cheias intermitentes (formando grandes extensões de manguezais) e teremos a pequena medida da riqueza imensurável de todos os demais ingredientes seja de água doce, seja de água salgada os quis dispomos. Um exemplo: as ostras cultivadas na Amazônia estão ganhando destaque nacional, entre outras vantagens, por estarem adaptadas a diversos ambientes, independente do nível de salinidade, o que torna seu sabor único;

2) A água como ingrediente: Este talvez seja o elemento mais abundante em nossa região. E muito de nossa cultura alimentar gira em torno dela. Nossa cozinha, com forte influência indígena, conta com pratos bastante caudalosos e suculentos. Uma caldeirada de filhote ou um belo tamuatá no tucupi são exemplos (dentre muitos outros) de preparações regionais que utilizam processos de cocção que chamamos na técnica gastronômica de “meio líquido”. Mesmo a farinha de mandioca, seca e granulada, aderida a um bom caldo de peixe e uma pimenta-de-cheiro esmagada ao lado do prato, resultam num pirão quente e perfumado, que nos fazem agradecer aos céus por sermos amazônidas. Não esqueçamos de nossas frutas que, à primeira mordida, soltam seus sucos doces ou azedos, mas sempre saborosos e cheios de generosidade.

Uýra Sodoma: drag queen da Amazônia luta pela preservação dos igarapés

Aprendemos, portanto, a lidar com a água da maneira como ela se apresentar a nós. Ainda que seja como uma bela chuva que cria uma sinfonia musical, que combinada a uma rede após o almoço, compondo um quadro cultural singelo e representativo. A vida na e da Amazônia depende da água e é a partir dela que construímos nossa própria identidade.
 

Água, um relevante ingrediente amazônico

"Se tratando de gastronomia na Amazônia, a água reveste-se de dupla importância: como fonte de alimento e como ingrediente"

Bruno Ferreira

jornalismo@portalamazonia.com


Comecemos com uma obviedade: a água é um elemento fundamental para a vida no planeta. 71% de toda superfície da Terra é composta por água em estado líquido. Além disso, em torno de 60% a 65% da massa corpórea do ser humano é água. Por isso, dizem (obviamente como uma piada) que somos, em última análise, grandes melancias ambulantes com sentimentos.

Mas, brincadeiras à parte, devemos saber que a água boa, limpa e em quantidade suficiente para aplacar necessidades, sejam quais forem, é antes de tudo, um direito de todas as pessoas. Mas isso nem sempre se materializa em uma realidade cotidiana. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que até 2050, a demanda por água aumentará entre 20% a 30% em relação aos números atuais. Esta elevação no consumo se dá pelo crescimento populacional, mas principalmente ao nosso estilo de vida e de produção.

Rio Hamza, o rio subterrâneo de 6 mil quilômetros de extensão embaixo da Amazônia

A pergunta é: haverá água suficiente? A mesma ONU já prevê que em 2025 mais de 1 bilhão de pessoas enfrentarão problemas de acesso à água potável. Estes dados são alarmantes, se não pensarmos que quaisquer medidas tomadas AGORA já estarão atrasadas em função da escassez real. Mas não é a redução das fontes de água limpa o principal problema. Lidamos com atividades produtivas primárias, como a pecuária, que lidam intensivamente com o uso da água. Além disso, a poluição de fontes e mananciais reduz a oferta e prejudica o abastecimento em áreas urbanas.
 
   
Foto: Reprodução 
 
Em 1997, o Brasil instituiu sua Política Nacional de Recursos Hídricos, por meio da lei n° 9.433, ainda sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso. Entre os fundamentos com os quais este dispositivo se orienta (art. 1º) estão o de que a água é um bem de domínio público (inciso I), além de ser um recurso natural limitado e com valor econômico (inciso II). Possuímos no país um dos maiores reservatórios do planeta: o Aquífero Alter-do-Chão. Situado entre os estados do Pará, Amazonas e Amapá, estima-se que seu volume de água abasteceria a população mundial 100 vezes. É um patrimônio hídrico inestimável abaixo dos nossos pés em plena Amazônia!

Do ponto de vista da Gastronomia e mais especificamente, em se tratando de gastronomia na Amazônia, a água reveste-se de dupla importância:

1) A água como fonte de alimento: possuímos uma extensa rede hidrográfica ao longo de toda nossa região. Só a bacia do Rio Amazonas possui 7.050.00 km2 de área, ao longo dos 6.400km pelos quais o rio se estende. Vivemos na região que é o maior banco de biodiversidade do planeta. Nossa fauna ictiológica fornece uma infinidade de peixes que compõem a dieta dos povos amazônicos durante séculos. E não somente isso: somem-se se as costas marítimas, lagos, bem como áreas de cheias intermitentes (formando grandes extensões de manguezais) e teremos a pequena medida da riqueza imensurável de todos os demais ingredientes seja de água doce, seja de água salgada os quis dispomos. Um exemplo: as ostras cultivadas na Amazônia estão ganhando destaque nacional, entre outras vantagens, por estarem adaptadas a diversos ambientes, independente do nível de salinidade, o que torna seu sabor único;

2) A água como ingrediente: Este talvez seja o elemento mais abundante em nossa região. E muito de nossa cultura alimentar gira em torno dela. Nossa cozinha, com forte influência indígena, conta com pratos bastante caudalosos e suculentos. Uma caldeirada de filhote ou um belo tamuatá no tucupi são exemplos (dentre muitos outros) de preparações regionais que utilizam processos de cocção que chamamos na técnica gastronômica de “meio líquido”. Mesmo a farinha de mandioca, seca e granulada, aderida a um bom caldo de peixe e uma pimenta-de-cheiro esmagada ao lado do prato, resultam num pirão quente e perfumado, que nos fazem agradecer aos céus por sermos amazônidas. Não esqueçamos de nossas frutas que, à primeira mordida, soltam seus sucos doces ou azedos, mas sempre saborosos e cheios de generosidade.

Uýra Sodoma: drag queen da Amazônia luta pela preservação dos igarapés

Aprendemos, portanto, a lidar com a água da maneira como ela se apresentar a nós. Ainda que seja como uma bela chuva que cria uma sinfonia musical, que combinada a uma rede após o almoço, compondo um quadro cultural singelo e representativo. A vida na e da Amazônia depende da água e é a partir dela que construímos nossa própria identidade.
 

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