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A tragédia do Navio Paes de Carvalho na Amazônia

De todas as tragédias marítimas, o naufrágio foi a maior já ocorrida na Amazônia. O Comandante era João de Deus Cabral dos Anjos, marítimo bastante conhecido e conceituado da marinha mercante


Em sua residência o encontramos juntamente com sua mãe a senhora Thereza Leonor de Jesus, que estava bastante alegre e sorridente por seu filho ter sobrevivido a catástrofe do Paes de Carvalho. Leonardo Severo de Jesus, 3º maquinista, estava no seu turno de trabalho, como de costume, entre a meia noite e devia largar as 4 horas da manhã.

- Ele está lá dentro, vou chama-lo, - disse a senhora.

Leonardo apareceu e em seu semblante mostrava estampado no seu rosto um largo sorriso de felicidade. O mesmo disse:

- Fui mais uma vez feliz, - disse-nos Leonardo. E digo mais uma vez porque não foi só desta que vi a morte perto. Salvei-me o ano passado do naufrágio da Yaquirana, sossobrada tragicamente no porto de Manacapuru...
Leonardo fala um pouco sobre ele:

- Chamo-me Leonardo Severo de Jesus, tenho 25 anos de idade, nasci na vizinha capital de Belém e sou filho de Thomaz David Ferreira e de dona. Thereza Leonor de Jesus, essa velhinha que lhe abriu a porta; sou casado com Dolores de Jesus natural do Pará, e que conta 26 anos de idade. Adoro a vida de embarcadiço e, graças aos meus esforços por bem servir as casas que me tem dado trabalho, sou hoje 3º maquinista da companhia Amazon River, proprietária da embarcação tão indaustemente sinistrada em frente ao porto de Camará. Era maquinista do Índio do Brasil e na viagem passada, cambei para o Paes de Carvalho.
   
Região do desastre | Foto:Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 


O Paes de Carvalho saiu do porto de Manaus dia 19 a meia noite. A viagem prosseguiu tranquila até que na madrugada do dia 22 por volta de três e trinta da madrugada, até que as três e quarenta foi dado o alarme de fogo no navio. Saindo da casa de máquinas e vi o fogo se alastrar próximo aos lotes de caixas de gasolina que se empilhavam no convés inferior. Já se podia ouvir os gritos dos passageiros e então corri para a sala da caldeira e seguindo os procedimentos autorizado pelo comandante, Cabral dos Anjos, parei o navio. Tentamos apagar o incêndio mas já era tarde demais, pois o fogo já havia se espalhado pelo navio.  O fogo se espalhou pela sala de máquinas e atingiu o gerador de luz e o navio ficou às escuras. 


Encontrei o comandante Cabral na pro do navio, juntamente com o o prático Josino do Carmo Palheta, prático Milton Angelin, o mestre José Ezequiel de Salles e o 1º maquinista. Neste momento ouviam-se os gritos dos passageiros e nesta confusão começou os primeiros trabalhos de salvamento. As canoas foram baixadas nas águas do rio Solimões e os tripulantes e alguns passageiros foram socorridos. Cai na água vestido com uma calça velha e rasgada. Nadando por uns vinte minutos Leonardo Severo juntamente com outro passageiro fomos colocados na canoa. Onde já havias quatorze pessoas. 


Chegamos a margem e onde deixamos onze pessoas e saímos em busca de outros sobreviventes. Ao amanhecer víamos somente uma fumaça densa a sair do Paes de Carvalho.  Em uma canoa encontramos dois foguistas, mulheres e crianças. Fomos recolhendo os sobreviventes que encontrávamos pelo caminho. Deixamos a canoa e fomos a pé, por volta de nove da manhã chegaram em um barracão duas canoas com mais sobreviventes. 


Trazidos pela corrente, viemos descendo o rio, até as 19 horas, quando encontramos o vapor Envira. A bordo dessa embarcação solicitamos auxilio ao caixeiro viajante da casa Nicolaus e Cia senhor Amaral, que nos forneceu um farol e uma peça de ferro para usarmos na canoa. Descia nesse momento o Índio do Brasil que trazia alguns náufragos de Camará. Passamos para bordo desse navio e ancoramos no porto de Manaus, as 15 horas, do dia 22. 1


Esta foi a minha odisseia e o que eu lhe posso descrever, porque o quadro absolutamente exato do naufrágio não há quem lhe descreva.


A sobrevivente senhora Alexandrina Rodrigues Neiva


Alexandrina Rodrigues Neiva, 65 anos, mãe do Dr. Júlio Lima, Procurador Fiscal da Fazenda Estadual, foi uma das sobreviventes do Paes de Carvalho.

Qual nada. O navio era um forno e, como o calor fosse excessivo e o meu camarote muito quente, eu estava na camarinha de dona Joana, uma companheira de bordo, que convidara a fazer-lhe companhia. E assim pela madrugada, não posso precisar a hora, ouvi uma confusão de palavras vindas do convés de terceira classe, onde estavam muitas dezenas de seringueiros que voltavam ao corte. Pensei, a princípio, se tratasse de alguma discussão, tão comum entre eles, mas, pouco depois, argumentou o barulho e consegui ouvir claramente as palavras fogo e incêndio, de mistura com gritos de aflição. Chamei a minha companheira, vesti-me rapidamente, e sai da camarinha. Ao chegar no corredor verifiquei que o navio estava sendo devorado por um violente incêndio. O fogo tomava proporções assustadoras; as labaredas, vindas de baixo, se comunicavam as redes armadas na polpa do convés de cima. A situação era insustentável. Aproximei-me da amurada e olhei para o rio: grande número de passageiros procurava sustentar-se a flor d`agua, lutando, uns com os outros, na anciã de salvação. Mães agarravam-se aos filhos, procurando tê-los junto a si, naquele último instante de vida. Um horror meu filho, um horror!

Deixei-me escorregar pelo costado do navio, apoiada em um cabo. Ao chegar a água encontrei logo um cadáver de criança; impressionada, fiquei algum tempo sem fazer coisa alguma, segura em um portolo que estava aberto. Como ouvisse alguém dizer que a margem estava perto, afastei-me do navio e nadei, em pé, meu filho, com um vigor que eu mesma me admiro. Tinha nadado uns trinta metros quando avistei uma embarcação; viram-me e aproximaram-se para salvar-me. Nessa ocasião vi uma senhora que já se debatia nas vascas da agonia. Como eu ainda pudesse sustentar-me na água por mais algum tempo, pedi ao pessoal do barco que fosse socorrer primeiro aquela senhora que estava em situação mais crítica que a minha. Eles assim fizeram. Mas como me pareceu longo esse tempo que precedeu a minha salvação! ... Senti-me desfalecer muitas vezes, porém ainda tinha vontade de viver... lembrava dos meus filhos e netinhos... Não queria ainda renunciar a vida... E, num último esforço, invoquei a proteção de Deus, senti que uma nova força se insinuava em todo o meu ser, força que fez com que eu, esperançosamente, aguardasse salvação.

Olhamos para dona Alexandrina e observamos que suas feições estavam impressas em todas as cenas horrorosas que nos contava.

A senhora foi uma heroína, D, Alexandrina, praticou uma ação hercúlea...

Qual o que, meu filho. O que eu fiz qualquer um faria pelo seu semelhante. E, quanto ao mais, foi Deus, o grande Deus. Debaixo de sua sombra protetora me coloquei. Ele foi quem me deu as forças precisas para resistir...
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Navio 'Paes de Carvalho' | Foto:Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 


Mário de Assis Costa, o herói da tragédia


Considerado um herói pelos sobreviventes do Paes de Carvalho, o praticante de leme Mário de Assis Costa, lembrou dos momentos de terror que viveu no incêndio no Camará.


Ao irromper o fogo, - disse-nos o praticante- a primeira ideia que me ocorreu foi a de salvar crianças, indistintamente, sem predileção por nenhuma; quis tirar do martírio os mais inocentes, os absolutamente irresponsáveis pelo desastre. Sou amigo sincero das criancinhas. Não pensei na minha vida, não pensei na morte, e todos os atos que pratiquei obedeciam sempre a uma reflexão, nunca fui precipitado numa resolução dona Thereza, a senhora que enlouqueceu de dor por perder o marido e os filhos, descera por um cabo da baleeira; em cima na proa ficava o seu filhinho mais novo. Compreendi a ansiedade com que essa criatura desejava o filho. Entreguei-o em suas mãos. Não sem mágoa. Havia muito perigo para aquela vidazinha, entregue aos fracos cuidados de uma pobre mulher. Mas o filho nos braços de uma mãe, mesmo que morra está salvo. Há lá melhor do que abandonar a vida estremecido nos braços de uma santa criatura que arrisca a sua vida, quando nos dá a nossa. Procurou salvar, pondo fora de perigo, um empregado menor do coronel Armindo de Rezende. Esse menino desapareceu. A custa de muito trabalho conseguiu alguns coletes salva-vidas, entregando-os imediatamente a quantos os solicitavam. Lembra-se de ter nesse momento cedido um a uma senhora idosa, que mais tarde socorreu novamente, junto a margem. Um passageiro de 3ª classe, de que não sabe o nome, e que ficou no Camará, num momento de desespero, tentou jogar-se nas chamas que partiam de um dos porões laterais. Obstou esse intento e teve o prazer de ver salvo esse tresloucado que quase se suicidava. Passando pelo local onde eram conduzidos os bois, amarrados, deu-lhes liberdade, desembaraçando-os.

Apreciou com absoluta calma o gesto brilhante do comandante que até os últimos momentos na manivela do telégrafo.

A bordo - cinco pessoas; o comandante, o prático Palheta, o mestre Salles, o despenseiro Garcia e ele. De repente o comandante sai olhando-o e desaparece, por traz da caixa de sinais; dir-se-ia que ia ao encontro da morte, nas chamas. Por ser impossível a passagem para a proa, julga que se tenha jogado na água. Seguiu-o com o olhar, e quando voltou a indagar dos companheiros, viu-se só, completamente soo, o mestre cairá na água, o prático Palheta desaparecera do local onde estava, isto é, da ancora contraria a que lhe servia de apoio.

O vapor num último alquebramento, num derradeiro arquejar levanta-se para baquear; a proa ergue-se. Quando atingiu o máximo de elevação, no momento exato em que ia baixando para sempre, Mário de Assis, que estava no propósito de só deixar o vapor, no último momento, jogou-se ao rio, lançando, ao mais longe possível, o seu colete de salvação, e nadando-lhe no encalço.  

Após alguns minutos de luta nas águas do rio, reparou que, na sua frente, a alguns metros, nadava também uma outra criatura que reconheceu imediatamente, tratar-se do passageiro de 3ª classe que ele evitara de se jogar ao braseiro.

Ao passar por ele condoeu-se das suas súplicas. Amparou-o como pode, até encontrar um pedaço de tábua, que cedeu ao naufrágio. Este agradeceu-lhe, disse: “Obrigado amigo, se bicho não me pegar estou salvo”.

Depois de passar nunca menos de duas horas na água, verificando perigos constantes, próximo a margem, uma canoa, que passava, colheu-o.

Tomando conta de um dos remos da canoa, foi em auxílio do passageiro a quem dera a tábua de salvação.

Completamente molhado, já despreocupado novamente do valor de sua vida, saiu com os náufragos recolhidos em busca de outros que necessitassem de seu auxílio.

E foi assim que pude socorrer ainda a dona. Thereza Tapajós, já nessa ocasião sem o filho Alfredo, e a quem perguntou: - O seu filho dona? dona Thereza, que já nesse momento se apresentava fora do natural, respondeu-lhe que o perdera na longa travessia. Ainda na sua rota gloriosa de recolher náufragos pode embarcar no bojo da embarcação que conduzia uma senhora de idade que parece tratar-se de uma senhora que veio de Manaus, dona Francisca Florinda Ribeiro, a quem distribuíra um salva-vidas a bordo.

De volta a margem, com todas as pessoas a quem dera o seu auxílio, encontrou boiando sobre as águas o cadáver do pequeno Alfredo.

De toda a trágica madrugada – disse-nos Mário Costa – o encontro de dona Thereza com o filho morto foi a cena que mais me impressionou.

Dos seus olhos de herói, talvez pela primeira vez, deslizou a primeira lágrima.
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Sebastião de Lima, perdeu sua família no sinistro


O senhor Sebastião Gomes Lima, passageiro do navio Paes de Carvalho, dá seu depoimento sobre o que se passou na hora do incêndio e sobre os tripulantes do navio que foram “acusados de covardes” por abandonarem o navio e não auxiliarem os passageiros e sua perda irreparável de sua esposa e filha. 

Com os olhos marejados de lágrimas, envolto numa grande e comovedora emoção, narrou a luta formidável e adônica, que empreendeu para salvar das chamas aniquiladoras e das ondas satanicamente rebeldes, a sua esposa, dona Philomena Gomes da Silva, paraense, de vinte e três anos, e sua única filha Dulcinéia, de oito anos, amazonense, que o acompanhavam para aquela mesma localidade. Disse-nos dos seus esforços inúteis para salvar a sua esposa, que não sabia nadar, e sua idolatrada filhinha, que desapareceu nas ondas, a gritar: “Papai, socorra-me”.

Falou-nos da bravura do comandante Cabral do Anjos, que, segundo o nosso informante, não se salvou, salvando o navio com seus tripulantes e passageiros, em virtude da falta de coragem, disciplina e de respeito ao cumprimento dos deveres, que a tripulação do Paes de Carvalho demonstrou.

Ao indagarmos se ele tinha toda a tripulação como culpada, contestou-nos, com entusiasmo: “Não! Houve um menino, que, mais tarde, soube chamar Mário de Assis, que se portou como um herói. Vi-o distribuir, entre chamas, com uma calma assombrosa, muitos coletes salva-vidas”.
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Informes completos sobre a tragédia



O Paes de Carvalho que fora construído nos estaleiros de Glasgow, na Inglaterra, registrava 657 toneladas brutas e tinha 390 H.P. de força.

Sua tripulação era composta de 38 homens. Estava segurado na seção de seguros da própria companhia.

Comportava 9.000 volumes, sendo o seu carregamento, na ocasião do sinistro, 5.800, calculados na importância de 1.500 contos.

Levava também 129 caixas de gasolina, 332 de querosene, 63 de pólvora e 23 de balas. A carga encontrava-se segurada em diversas companhias, sendo as maiores seguradoras a Aliança da Bahia e Commércio do Pará.


Lista das cargas que o vapor “Paes de Carvalho”, tinha em seu porão

Carga de: - Martins Pinheiro, 1.600 volumes de farinha; J.G. Araújo & Cia. Ltda., 400 volumes de farinha; a ordem R.M. 566 volumes de farinha; M.A. Pinheiro, 100 volumes de farinha; Lima Castro, 50 volumes de farinha; a ordem R.R. C., 80 volumes de farinha; F.C. Marques, 2 caixas de tecidos e 1 dita de cobertores; Mauricio Samuel, 3 caixas de tecidos; M. Reslim, 1 caixa de tecido; Aucar Irmão, 7 volumes de linha; M.A. Gomes, 1 caixa de linha; A. Barroco; 1 caixa de linha; a ordem Miroma, 50sacos de arroz; a ordem de Clérigo, 30 sacos de arroz; a ordem de Abrahim, 30 sacos de arroz; a ordem Fortuna, 20 sacos de arroz; a ordem Nogueira, 10 sacos de arroz; M.C.M. Mesquita, 30 sacos de arroz; J.R. Cunha, 1 caixa de doce; Lima Castro, 3 caixas de bolacha e 1 dita de chocolate; J.G. Araújo & Cia Ltda., 5 caixas de doces; Higson Jones & Cia, 1 caixa de papel para cigarros; a ordem Miroma, 3 caixas de roupas; A.L. Figueiredo, 20 sacos de arroz; Lima Castro, 20 sacos de arroz; Simões & Cia, 20 sacos de arroz; A. Dias Pereira, 10 sacos de arroz; Pires Irmão, 10sacos de arroz; Semper & Cia, 10 volumes de paneiros, 100 garrafas vazias e 1 fardo de papel; Leite & Cia, 2 caixas de chocolate e dita de farinha; M. Carbacho & Cia, 61 animais.

Carga de Santarém: - H. Machado, 8 canoas.
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Tripulantes do vapor “Paes de Carvalho”.


(*) João de Deus Cabral dos Anjos, comandante; (*) Guilherme Muller, imediato; José Ezequiel de Salles, mestre; (*) Américo Cabral Marques, escrivão; (*) Jovino do Carmo Palheta, prático; Milton V. Angelim, prático; (*) Manoel A. Mello Delgado, 1º maquinista; Pedro Augusto de Macedo, 2º maquinista; Leonardo Severo de Jesus, 3º maquinista; Amaro Nelson de Mello, (*) Raymundo S. Corrêa, Henrique Bastos da Silva, Sebastião José Rodrigues, Orlando Caldas, foguista; (*) José Luiz do Nascimento, Edgard Costa, carvoeiros; (*)  Oswaldo Leoncio Santos, carvoeiro; Luiz Gomes da Vera Cruz, carvoeiro; Manoel R. Gama Filho, marinheiro; Agostinho G. de Almeida, Isidro Santos, Jesuíno Diogo da Silva, Pedro Lopes Galvão, Antonio Queiroz Teixeira, Manoel Aquino Gomes, José de Freitas, Raymundo Nonato Reis, Serafim Syrino da Silva, marinheiros; (*)  Manoel de Souza Lima, (*)  João dos Santos, marinheiros; Ignácio Garcia da Silva, despenseiro; (*) Pedro Francisco Oliveira, 1º cozinheiro; (*) Pedro Alexandrino, 2º cozinheiro; Hermínio Nascimento, copeiro; José Marques do Amaral, padeiro; Franklin G. Silva, Francisco A. Pereira, Antonio Farias Lopes, Dionísio F. Cunha, taifeiros; (*) Martinho Pereira, (*) João Ribeiro, taifeiros; Mário de Assis Costa e Octavio Padilha, praticantes. 6
Dos 42 tripulantes, 14 morreram na catástrofe: são os assinalados com asterisco (*).  


Sobreviventes do vapor “Paes de Carvalho”, que permaneceram em Camará


Leôncio de Salignac e Souza, Mathias Vieira de Aguiar, Francisco Bernardo de Souza, Philomena de Albuquerque Barata, José Arraes, Joanna de Oliveira Barata, José Vasconcelos de Souza, Maria da Silva Lima, Josina de Lima, Bernardo Porphirio Falcão, José Porphirio Falcão, Francisco Porphirio Falcão, Manoel Thomaz, Pedro Goncalves de Oliveira, José Joaquim Nunes, Manoel Baptista Nery, Luiz Gonzaga d`Almeida, Maria Antonia de Jesus, José Artelino Filho, José Esperidião Barbosa, Francisco Alves de Lima, Antonio Simões de Oliveira, Júlio Barroso de Souza, Maria da Silva Mello e Thereza Porphirio Falcão.
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Passageiros que retornaram para Manaus no vapor “Índio do Brasil”


Dr. João Brígido, Thereza Tapajós, Alfredo José da Silva e família, José Augusto Branco, Armando Rezende, José Antonio, Mansour Chernen, Raymundo Rufino de Oliveira, Sebastião Gomes de Lima, Manoel Antonio Cabral, Francisco Borges de Aquino, José Paula Barros, Manoel Raymundo de Souza, Ernestino Paulo da Costa, Bertina da Costa, que perdeu o marido e 4 filhos, Petronilla de Oliveira e um menos, Francisca Florinda Ribeiro, Antonio Ribeiro, e Durvina Calixto dos Santos. 8


Relação dos passageiros conduzidos pelo “Paes de Carvalho” para os portos do Solimões e Juruá, embarcados em Manaus


Joanna de Oliveira Barata, Filomena Barata, José Augusto Branco, José Antonio, Mansour Chernen, Maria Octaviana de Lima, F. Borges de Aquino, Alfredo José da Silva, Sebastião Gomes de Lima, Florença Cunha da Silva, João do Rego Barros Brigido, Alexandrina Neiva, Leoncio de Salignac e Souza, tenente Manoel Antonio Cabral, José Vasconcellos de Souza, dois trabalhadores da Inspetoria de Índios, Petronilla Xavier e um menor, Mathias Vieira de Alencar, Manoel P. Barbosa, José P. de Barros, Bernardo falcão, Francisco Falcão, José Falcão, Thereza falcão, Francisco B. de Souza, Manoel Thomaz, José Artilino Filho, Thereza Tapajós, (*) Aniceto de Almeida, (*) Alfredo Tapajós e 4 filhos, (*) Filomena de Lemos Lira, (*) José Ribeiro da Silva, (*) Alfredo Nunes Pereira, (*) José de Magalhães Cordeiro, (*) Lydia Nogueira Pessoa, (*)Antonio B. Santiago, (*) Pedro, (*) Maria do Carmo Araújo, (*) Judith P. Barbosa, (*) Ritta P. de Jesus e 2 menores, (*) Francisca Souza e uma menor, (*) Manoel Ventura, (*) Dois filhos de Florença Cunha da Silva.

Os assinalados com asterisco (*), até o presente momento estão considerados falecidos.

Dos cinquentas embarcados, neste porto, 23 pereceram no sinistro.
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Lista de passageiros em trânsito de Belém para o Rio Juruá


Armindo Rezende, Lindolpho Oliveira, Joaquim Ignácio Ribeiro, (*) esposa de Armindo Rezende, (*) Silvestre Miranda, (*) Rufino Alves.


Dos seis passageiros que seguiam em trânsito para o Rio Juruá, três faleceram.
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Tripulante salvo por cavalo


Havia no vapor Paes de Carvalho, 61 animais, segundo a listagem do navio. Um tripulante, que não se sabe o nome, se salvou graças a um cavalo. No momento do incêndio, procurando por algo para se salvar, o tal tripulante, encontrou o animal amarrado e num momento de desespero saltou com ele nas águas do Rio Solimões. Com esta atitude conseguiu chegar a terra e salvar-se das chamas que engoliam o vapor.


***

Das notas colhidas pela nossa reportagem verifica-se que perderam a vida 40 pessoas sendo: 14 tripulantes e 26 passageiros.

Todavia esse não é o número verdadeiro dos que pereceram, há a registrar os passageiros que, por qualquer razão, não constam das listas fornecidas pela Companhia “Amazon River”. Haja vista o caso de dona Francisca Florinda Ribeiro que, oficialmente só apareceu depois de salva. Salvou-se sem saber nadar, por auxilio do praticante Mário A. Costa, que, a bordo, lhe deu um colete, e, mais tarde, tirou-a da água.

O traçado do croqui demonstrativo do incidente, publicado a página três, devemo-lo as informações dos práticos senhores Raymundo Baptista da Silva e Milton Angelim, respectivamente de quarto no Índio do Brasil e no vapor sinistrado. Foi desenhado por um dos nossos redatores, no momento das informações.

De Camará ao local do desastre eram aproximadamente 50 minutos de viagem. O Paes de Carvalho passará por Cametá as 2 horas e 50 minutos.

Alguns sobreviventes do naufrágio estranham o gesto do comandante do Índio do Brasil, senhor João de Jesus Pimenta, não deixando em Camará uma embarcação tripulada para serviço de prováveis salvamentos e recolhimento de cadáveres, mesmo porque a sua demora naquela povoação foi de pouco mais de cinco horas.

O senhor Rubens Dário Lisboa, professor público de Camará, declarou-nos que, entre os moradores daquela povoação, o sinistro no seu início, foi considerado como fenômeno marítimo inédito.

Este cavalheiro informou-nos ter salvo o tenente de polícia Manoel Antonio Cabral, o comerciante de Tefé José Antonio e o senhor Raymundo Oliveira de que damos um clichê noutro local. Vários naufrágios foram socorridos pelo senhor Anísio Lima, sócio da Firma Ataliba & Irmão, que lhes prodigalizou os primeiros confortos.

O comerciante turco José Antonio foi, conforme declarou-nos o mesmo senhor Rubem Dário, o menos infeliz de quantos a catástrofe surpreendeu; salvou a vida, a mala com roupas e quatro contos de réis em dinheiro e tinha as mercadorias, no valor de setenta e tantos contos, seguradas.

Sabemos que ao, verificar-se o início do incêndio, o marinheiro de quarto não estava em seu posto, isto é, na malagueta.
 
Ao que para fora destacado pelo prático Milton Angelim para avisar o quarto ao seu substituto, o prático Palheta, não obstante serem 3 horas e 40 minutos.

Na margem fronteira a que os náufragos alcançaram somente foi encontrado um cavalo, parecendo ser esse o único ser vivo que nadou para a margem.

Está fora de dúvidas que o comandante Cabral dos Anjos se jogou no rio, sendo improcedente a notícia de que ele tenha sido devorado pelas chamas.

Causaram ótima impressão as medidas humanitárias e eficientes tomadas por S. Exa. O senhor Dr. Efigênio de Salles, Presidente do estado, com a chegada a Manaus dos náufragos do “Paes de Carvalho” esse timbre sincero e iluminado de democracia, que caracteriza o seu fecundo governo, foi posto à prova, nesta dorida catástrofe, obtendo eloquência singular. Visitou, frequentemente, todas as famílias vitimadas. Tomou providencias urgentes para que os feridos que não tinham residência nesta capital fossem internados, com o máximo conforto, na Santa Casa. Abriu, com cinco contos de réis, verba socorros públicos, a subscrição, que atinge avultada soma, instituída, em benefício das vítimas, pelo nosso brilhante confrade “Estado do Amazonas”. 
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João de Deis Cabral dos Anjos | Foto: Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 

Bordo, em 17 de março de 1926.
João de Deus Cabral dos Anjos
Comandante





A CATASTROFE DE CAMARÁ


O “Paes de Carvalho”, em chamas, nas águas do Solimões, mutilando e retalhando com o golpear da hélice dezenas de náufragos.



INFORMES COMPLETOS SOBRE A TRAGÉDIA


Como já é de domínio público, pelas notícias que todos os jornais desta capital editaram, a madrugada de 22 do corrente mês veio trazer a nossa população a emoção mais profunda que temos sentido nestes últimos tempos: o horrível sinistro do vapor fluvial Paes de Carvalho, da frota da “Amazon River”.

Ainda todos os corações pulsam no mesmo sentimento de piedade e horror, de tristeza e comoção, ao evocar essa tremenda catástrofe, que supera outras desgraças análogas, tal a amplitude de consequências trágicas e inesperadas, com o séquito extenso de luto, a trazer inúmeros lares presos de magoa infinita causada pelas irreparáveis perdas.

A meia noite de 19 do corrente mês, o Paes de Carvalho deixava o roadway da “Manaus Harbour”, continuando assim, a viagem da linha do Juruá, empreendida de Belém, porto inicial.
Comandado pelo piloto João de Deus Cabral dos Anjos, marítimo bastante conhecido e conceituado na nossa marinha mercante, o Paes de Carvalho conduzia elevado número de passageiros e avultada quantidade de carga, como, aliás, o fazem todos os gaiolas empregados na navegação do Amazonas. 

O percurso Paes de Carvalho ia sendo feito sem novidade, quando, ao chegar ao porto da Vila de Codajás, o comandante notou que dois reboques de pescadores portugueses atrasavam a marcha da embarcação.
Verificando esse fato, que, realmente, já vinha retardando em quatro horas a viagem, aquele oficial deliberou propor aos pescadores largarem o reboque, transmitindo-lhes essa resolução, por intermédio do praticante Mário de Assis Costa, que se tornou, mais tarde, um verdadeiro herói.

Atendendo as ponderações do comandante, um dos pescadores obedeceu logo a resolução tomada, desamarrando a canoa do navio, enquanto seu colega de oficio se obstinava em continuar a viagem, já tendo, a seu tempo, o Paes de Carvalho deixado o porto de Codajás. Diante da desobediência as suas ordens, o comandante Cabral dos Anjos renovou o aviso de que não podia continuar a conduzir o reboque, até que, sendo a insistência do pescador, mandou um marinheiro desatar os nós, das cordas. Esse fato, ao contrário do que se diz, não enfureceu o mariscador lusitano.

Aliviado desse reboque, o navio prosseguiu a rota, costeando o Camará, a margem esquerda do Solimões. Nesse percurso, o Paes de Carvalho defrontou a ilha de Ajurá, situada na foz do Paraná do Mamiá, conseguindo atingir a ponta da ilha da Botija, que, digamos de passagem, é circundada por barrancos intransponíveis. Essa ilha, que fica localizada a dez metros do canal de navegação. É o ponto que, nessa altura da viagem, todas as embarcações costeiam, não chegando, porém, o Paes de Carvalho a costear, porque, exatamente nessa travessia, se verificou o início do incêndio, três horas e quarenta minutos da madrugada.

É de notar que a ilha da Botija, situada, como fica, no rio Solimões, divide esse rio em dois braços: um que segue para a esquerda – denominado Paraná do Mamiá, - e outro que se estende a direita o Solimões propriamente dito, e onde fica situada a ilha do Trocary, pouco abaixo do porto do mesmo nome, para onde se destinava a embarcação sinistrada, afim de desembarcar mercadorias.

Uma vez no Trocary, Paes de Carvalho devia voltar ao local onde se deu o sinistro, entrando no Paraná do Mamiá, e seguindo o seu rumo.

Nesse momento, isto é, as três horas e quarenta minutos da madrugada, o Vapor Índio do Brasil, que fazia a viagem inversa ao Paes de Carvalho, apitava para o porto de Mamiá, situado no Paraná do mesmo nome, afim de tomar lenha.

O prático Índio do Brasil, senhor Raymundo Baptista Silva, que fez a atracação em Mamiá diz que realmente observou, na direção da ponta extrema da ilha da Botija, um clarão e um fumo intenso. Acreditou que se tratasse de uma queimada na ponta da referida ilha. Não ouviu os apitos soltados do Paes de Carvalho, que a menos de trinta minutos, servia de pasto ao mais pavoroso incêndio em águas amazônicas. Explicou-nos este profissional que não se admira de não ouvir o pedido de socorro do Paes de Carvalho, pois o vento soprava em sentido contrário e, portanto, levava o som noutra direção.

A profundidade do Rio Solimões, no local onde o Paes de Carvalho afundou é, mais ou menos, de doze braças.

De outras particularidades do sinistro serão cientificados os leitores nas páginas a seguir, bem assim no croqui elucidativo.
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Como se deu a catástrofe


Conforme relatos, o incêndio pode ter tido início quando uma passageira que fumava seu cachimbo, o sacudiu e as cinzas caíram próximo as caixas de gasolina.
Depois deste episódio, os acontecimentos seguintes foram narrados pelo 3º maquinista que estava de plantão, Leonardo Severo de Jesus. O mesmo foi primeiro a avisar os tripulantes e passageiros sobre o incêndio.



ANICETO ALMEIDA


Entre as vítimas do Paes de Carvalho conta-se Aniceto Almeida, agente embarcado da Administração dos correios do Amazonas e Acre.

Moço ainda, pois contava somente 31 anos, o inditoso Aniceto pode ser copiado como modelo aquém queira resumir numa existência abnegação e trabalho.

Era funcionário de nossa posta desde 11 de setembro de 1918, quando foi nomeado auxiliar pro-rata daquela Repartição.

Os seus serviços tornaram-se imprescindíveis, e quem com ele privou nos afazeres postais não pode negar a prodigiosa disposição para o trabalho, que animava aquela existência fecunda de vigilante incansável dos interesses da União.

Durante os sete anos, quatro meses e onze dias que teve os seus serviços aproveitados pelo Correios do Amazonas, não deu uma única falta ao serviço, sendo digno de registro esta particularidade porque em tão longo espaço de tempo não há, naquela Repartição, quem tenha sido tão assíduo.

Era um funcionário corretíssimo não tendo na sua folha de assentamentos uma única nota que lhe desabonasse a conduta.

Em 23 de outubro de 1924 era Aniceto Almeida investido das funções de agente embarcado, sob gerais aplausos de todos os seus colegas de repartição.

Para esse cargo já fora o inditoso moço preterido por três ou quatro vezes.

A 4 do corrente mês, contraiu matrimonio com a senhora dona Denise Corrêa de Almeida.

Era sobrinho e filho de criação do major Stanislao Mirailles, proprietário residente a rua de S. Vicente nº 6.

Era amazonense, filho de Manaus.

Antes de seguir viagem para o Rio Juruá, no Paes de Carvalho, Aniceto Almeida, ao receber ordens da Administração Postal, participou ao Administrador dos Correios o seu consórcio.

O coronel Raul de Azevedo ponderou-lhe que se disso soubesse antes, teria providenciado sobre a sua substituição por outro agente.

Aniceto retorquiu: - “Sou homem de serviço. Se não fosse hoje, iria amanhã ou depois, por isso vou hoje mesmo”.  

Esta frase de Aniceto define lhe bem o temperamento e se por uma ação se pode analisar da capacidade de trabalho de um indivíduo, pranteado moço fechou admiravelmente a sua vida de irrepreensível conduta moral e acendrado amor ao trabalho.

A notícia de sua morte, em pleno cumprimento do dever, consternou não só os seus colegas de Repartição, mas quantos o conheciam.
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OS QUE MORRERAM NO POSTO



As quatro vítimas de maior realce da guarnição do PAES DE CARVALHO


João de Deus Cabral dos Anjos nasceu em Alhandra, Portugal, no dia 14 de setembro de 1883.

Era filho do comendador João Ozorio Cabral dos Anjos e dona Gertrudes Cabral dos Anjos, já falecidos.

Veio para Manaus aos 8 anos de idade. Aos 11, empregou-se a bordo, como praticante, depois de se ter submetido ao respectivo exame, no Pará.

Empregou a sua atividade sempre na “The Amazon River Steam Navigation Company (1911) Limited”, tendo comandado os seguintes vapores dessa companhia: Índio do Brasil, Madeira Mamoré, Tefé e Paes de Carvalho.  

Contraiu casamento nesta capital, no dia 5 de junho de 1909, com dona Helena Guedes Cabral dos Anjos, filha do senhor Joaquim Antonio Guedes, já falecido, e de dona Maria Rebello Guedes.

Deixou além da viúva, 9 filhos: Nilce, com 15 anos de idade, Elmizia, com 13, Almério com 11, Célia, com 8, Homero, com 5, Jorge, com 4, Ivanisei, com 3, Alfredo Augusto, com 1, Denise, com 5 meses.

Era naturalmente brasileiro. 
   
Casamento de João de Deus Cabral dos Anjos e Helena Guedes Cabral dos Anjos | Foto:Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 

Guilherme Muller, imediato, era natural do Estado do Pará, tinha 45 anos de idade, viúvo e deixou uma filhinha de 10 anos. Era irmão do comerciante Pedro Muller, sócio e gerente da firma Manoel, Pedro e& Cia., estabelecidos com serraria e construção em Belém.


Américo Cabral Marques, escrivão, era filho do antigo industrial Serafim Cabral Marques, natural da cidade do Porto, Portugal. Nasceu em 30 de outubro de 1891. Veio para o Amazonas em novembro de 1905, empregando aqui a sua atividade até 1916, em casa do seu irmão, o comerciante Rodrigo Cabral Marques. Em 1917, empregou-se como escrivão na companhia “Amazon River”, até ao momento do desastre. Casou-se em primeiras núpcias, a 10 de setembro de 1921, com dona Carlota de Freitas Pinto Marques, irmã do nosso distinto amigo Dr. Freitas Pinto, e dos senhores Augusto e Luiz Freitas Pinto. A 15 de janeiro de 1925, perdeu sua esposa dona Carlota, ficando desse consórcio a menina Maria Leonor, de 2 anos, 3 meses e 16 dias. Casou-se pela segunda vez, por procuração, a 6 do corrente mês, e, onze dias após, homologou-se esse ato com cerimônia religiosa, isto é, quatro dias antes de ser vitimado pelo sinistro, com a professora normalista dona Elvira Monteiro Cabral Marques.     


Josino do Carmo Palheta, prático do Paes de Carvalho, era natural deste Estado, tinha 45 anos de idade, casado com a senhora dona Maria do Carmo Palheta. Era piloto da “Amazon River” e primeiro prático do Rio Juruá.

Deixou do seu consórcio um filho, Orivam, de 5 anos, tendo perdido no dia 14 do corrente mês um outro de nome Thomises, vitimado pela varíola.

Era cunhado do 1º tenente da milícia estadual, Tristão Cavalcante Neto, em casa de quem residia.


José de Magalhães Cordeiro. Há criaturas que, pelo modo como se conduzem na visa, pela exatidão matemática com que pautam os seus atos e pelos sentimentos de humanidade que lhe ornam o coração, deixam, quando morrem, no regaço da família e no seio dos amigos, a mais saudosa lembrança, a mais lembrada saudade.

No número destes que em vida somente pensaram e praticaram o bem, estava incluído José Magalhães Cordeiro, pai amantíssimo, chefe de família exemplar e dedicado amigo.

Fazendo do trabalho uma religião, Magalhães Cordeiro há mais de um decênio vinha empregando a sua atividade no ingrato comércio do inóspito interior.

A golpes de verdadeiro heroísmo, o pranteado Cordeiro conseguiria firmar-se no alto comércio desta capital, captando a simpatia de quantos com ele tinham a oportunidade de transacionar.

Vieram em janeiro último a esta capital a pretexto de ser operado, trazendo em sua companhia toda a família, isto porque Magalhães Cordeiro não suportava uma ausência demorada da família.  

Resolveu posteriormente submeter-se a intervenção cirúrgica que o trouxera a Manaus, na vizinha Belém. Neste interim, como adoecesse o caixeiro viajante da casa J. G. Araújo & Cia. Ltda., atendeu a um apelo do chefe dessa firma, e seguira a viagem comercial dessa casa, no Rio Juruá, a bordo do Paes de Carvalho.

O senhor José de Magalhães Cordeiro, nasceu em Quixadá, no Estado do Ceará, e contava 38 anos de idade. Era casado com dona Etelvina Barbosa Cordeiro, de cujo consorcio deixou quatro filhos: Neusa, de 13 anos; Romulo, de 10; Romelia, de 8 e Djanira, de 1 ano e 7 meses. Era filho de Francisco Felix Barbosa Cordeiro e dona Maria Manoela de Magalhães Cordeiro. Deixa os seguintes irmãos: Dona Joanna Baptista de Magalhães Cordeiro, Francisco de Magalhães Cordeiro, comerciante e proprietário do Rio Juruá, dona Maria Emerentina Barbosa, Raymundo de Magalhães Cordeiro, leiloeiro nesta capital e Thomaz de Magalhães Cordeiro, proprietário em Canindé Estado do Ceará.

É elogiável o procedimento correto do senhor comendador Joaquim Gonçalves de Araújo que, logo ao saber da lamentável catástrofe e ao circular a notícia de que no desastre perecera o senhor José de Magalhães Cordeiro, fora visitar a Exma. Viúva, e oferecer-lhe os seus préstimos no que desejasse.


É mais um nobre gesto do reconhecido altruísmo do senhor comendador, alma afeita a prática do bem e estancador do pranto de centenas de infelizes.


Capitão José Ribeiro da Silva, entre as pessoas sucumbidas a catástrofe do Paes de Carvalho, consta-se o senhor capitão José Ribeiro da Silva, proprietário e político em Coari onde gozava de largas simpatias pelo seu insinuante cavalheirismo. Era cearense, mas residia já há muitos anos no Amazonas, aqui tendo constituído família e dispendido uma constante e proveitosa atividade. Faz poucos dias, estivera nesta capital onde contava um grande número de amigos. Tomara passagem neste porto, no Paes de Carvalho, com destino a Coari, sua residência atual e de sua família da qual era extremoso chefe.
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Família de João de Deus Cabral dos Anjos | Foto: Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 

O DOLOROSO EPISÓDIO DO PAES DE CARVALHO


Há, nesse honroso quadro de angústias, como só as concebera um dia a imaginação delirante do bardo florentino, um traço formidável a que nenhum engenho humano dará nunca um exato e fiel relevo o da esposa do senhor Alfredo Tapajóz.

Esta infeliz senhora, mal conheceu o perigo que lhe ameaçava os filhinhos, confiou dois deles ao marido – Maria, de sete anos e Alfredo, de um – e corajosamente, com a confiança da mulher que sabe os prodígios que opera o amor materno, e a crença da cristã que acredita na misericórdia divina, tomou para si os outros dois – Célia, de cinco anos, e Alfredo, o último, de um, tentando assim a salvação num arranco de desespero. O choque contra a água do rio revolto, se a ela se atirasse com o seu fardo precioso, pareceu aquela pobre mãe que magoaria os pequeninos. E deliberou então, na terrível conjuntura, apertar contra o seio, com a mão esquerda, as aterradas criaturinhas, e agarrar-se a um cabo da amurada com a direita, afim de, por ele, escorregar a voragem.

Imita-se nesse gesto aflitivo o desfortunoso marido... Mal, porém, se apoderam dos cabos que já ardiam, os dois esposos se precipitam na água desamparadamente, e ele, apanhado em cheio pelos borbotões da hélice, que violentamente girava, passa pela desgraçada companheira com os pequeninos, como numa despedida suprema, e num turbilhão medonho para sempre desaparece.

Multiplicam-se as forças da senhora Tapajóz, luta durante muito tempo com o rio em fúria, agarra-se com heroísmo de mãe as duas queridas partículas de sua alma. Cansada, extenuada, quase dementada pela dor, luta desesperadamente até o último instante mas por fim sucumbe, e o sinistro remoinho rouba-lhe dos braços a inocente Célia.

Resta Alfredo, o remanescente daquela prole desditosa. Segurando-o com os dentes e reunindo todas as forças, estimuladas pelo instinto de salvação, a alucinada mãe, dentro de alguns minutos, vê-se enfim fora daquele horror, e antes de tudo tenta reanimar aquele derradeiro penhor das suas afeições, que ali tem enregelado junto ao amoroso seio. Chama, porém, em vão, grita e sacode inutilmente Alfredo, sua última esperança, jaz imóvel, sem vida.

Ilumina esta cena indescritível a doce claridade das estrelas dum céu impassível, enquanto lá, ao longe, parando súbito de rodopiar numa dança macabra de labaredas, imerge o navio por sua vez no vértice, saudado pela pólvora que estronda no deposito da proa e aumenta singularmente o belo horrível daquela orgia de água e fogo...
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O comandante João de Deus Cabral dos Anjos foi iniciado maçonicamente na Loja Esperança e Porvir nº 1 no Oriente de Manaus, no dia 31 de maio de 1911 | Foto:Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 


O HERÓI DO INCÊNDIO DO NAVIO PAES DE CARVALHO


De todas as expressões de tragédias, terrestres ou marítimas, já memoradas na Amazônia, nenhuma tão patética, tão horrível, tão funesto, tão profunda, quanto a do Paes de Carvalho, verificada a vinte e dois da corrente, e ainda a galvanizar, inédita e intensamente, as correntes chocantes de nossa sensibilidade. Foi um quadro de flagícios supremos, em que o Gênio do mal, na áspide dos seus caprichos macabros, utilizando-se da tolerância irrefletida de um e do descuido inconsciente de outros, arquitetou mais uma dolente rediosa, mais uma luta desigual e furioso, entre o Homem e o Mar, os dois irmãos inexoráveis, que, em decantados e duradoiros versos Baldelaire assinalou, através de reflexos convergentes e isócronos, numa lida selvagem e sequente pela destruição, pela morte, pela carnificina...



No azar daquele diabril momento de apoteose ao pavor, estavam de amores os mais hórridos elementos da anihilação. Espalhando, por todos os hemisférios da aflição humana, as nuvens de fumo de sua eructação de vitória, a crase sacrílega das invulneráveis e fulminantes línguas de fogo e dos canhoneios das ondas, petrificava, cadaverizava e reduzia a frangalhos aquela humanidade dolorosa e malsorteada. Via-se com, os ouvidos, numa sucessão constante e caótica, que lanceava, as crepitações ensurdecedoras dos inflamáveis. Ao instante conturbado, fragoso e inenarrável do esgarrar, do alquebrar, do esbocinar do Paes de Carvalho, sinalava-se, de onde a onde, naqueles espectros alucinados, a renúncia de sua própria vontade, do seu eu, dentro do cipoal de inercia, das aguas dormentes do desalento, dos golfos da lesa-serenidade.  



Era o espasmo arrepiante das trevas.   


Mas, nem tudo, no crepúsculo daquela entrosado espetáculo, empastou-se de esgazeamento submisso ante o formidável sacrifício. Daquele cárcere improvisado e hediondo, que se abismara, abismando um mundo de experiências, de felicidades, de carinhos, de amores divinos e de santos anseios, de vidas preciosas, queridas, insubstituíveis e fecundas, tingaram-se, salvando-se, muitos, a maior parte dos passageiros e tripulantes do barco sinistrado, na evidencia altíssima e absolutamente legal do instinto de conservação, conforme as diversas manifestações do caráter, da energia, da bondade.


Alguns desceram a noite eterna, nimbados pela imortalidade da bravura.


Na hora mais dolorida da região do Camará, pesaram-se, ouro-fio, os alpanagios alcanorados e fascinante de heroísmo. E entre todos os bravos, salientou-se, tecendo o íris intátil de sua indumentária de herói, a individualidade icônica e modesta, consciente e resoluta do jovem Mário de Assis Costa, praticante de leme. Assim, todo molhado de simplicidade, como soem ser os veros sentinelas do espírito do bem, desnoitou, muitas vezes, a abulia, a incoerência, a imoderação, os apertos, as debilidades, as imprevisões, que asfixiavam aqueles mal-aventurados mareantes, mostrando-lhes a réstea de luz da porta que dava para a vida... Assim, ora semeando, coado pela peneira de seda da reflexão, a cúspide do altruísmo no distribuir salva-vidas, por entre as labaredas, na ordem das necessidades, e com ensinamentos para, com menos dificuldades, rumar-se ao salvamento ora desenvolvendo, na ocasião mais oportuna, através da hóstia mística da energia, o plenilúnio eficiente da ação disciplinada; ora entranhando-se, enclausurado pelas bênçãos da fé, nas águas negras e densas e infindáveis e tortuosas e empoladas do estreito entre a vida e a morte, no error das pontas de fogo dos cabos novos sacrifícios, por desempecer, após o sepultar-se do seu barco tormentoso, com as vantagens promanadas do seu nadar exímio, companheiros daquela viagem inopinada e forçada de mil tropeços agônicos, Mario de Assis Costa refletiu, naquela eternidade de trituração, o parêntese luminoso de um eufemismo consolador!


O cirineu iluminado, tu, que de cimo a cimo, asselaste, com atitudes intocáveis e corajosa, o galardão de herói, tu, ó mirifico condor da serenidade, que em epitase, viste a tua existência oscilar, tu, ó magnificente garimpeiro da bondade, que te fascinara pelo mar, desconhecendo a amplitude convulsiva e frenética de sua ira, tu, ó Mario de Assis Costa, porque ignoras a ausência de serenidade, és maior, muito maior, que o mar! És transcendente como a verdade, es sugestivo como a beleza, na tua ascensão para os iminentes intermundos da Glória!
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Clóvis Barbosa.
 
Referências


1 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Entrevista do senhor Leonardo Severo de Jesus, 3º maquinista do navio Paes de Carvalho. 

2 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Entrevista da senhora Alexandrina Rodrigues Neiva.

3 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Entrevista do Mário de Assis Costa, praticante de leme do navio Paes de Carvalho.

4 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Entrevista do senhor Sebastião Gomes lima.

5 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Manifesto do vapor Paes de Carvalho contendo a descrição de sua carga e seus respectivos proprietários.

6 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Lista Nominal dos tripulantes do vapor Paes de Carvalho.

7  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Relação dos passageiros sobreviventes do naufrágio do vapor “Paes de Carvalho”, que ficaram em Camará.

8  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Relação dos passageiros sobreviventes que voltaram para Manaus no vapor “Índio do Brasil”.

9  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Relação dos passageiros conduzidos pelo “Paes de Carvalho” para os portos do Solimões e Juruá, embarcados em Manaus.

10  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Lista de passageiros em trânsito de Belém para o Rio Juruá.

11 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Notas dos repórteres que cobriram o incêndio do navio Paes de Carvalho.

12  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Informes completos sobre a tragédia.

13 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Aniceto Almeida, vítima do dever.

14 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. As quatro vítimas de maior realce da guarnição do Paes de Carvalho.

15 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. O doloroso episódio do Paes de Carvalho.

16 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Considerações do senhor Clóvis Barbosa sobre o sinistro do vapor Paes de Carvalho.     



   

A tragédia do Navio Paes de Carvalho na Amazônia

De todas as tragédias marítimas, o naufrágio foi a maior já ocorrida na Amazônia. O Comandante era João de Deus Cabral dos Anjos, marítimo bastante conhecido e conceituado da marinha mercante

Abrahim Baze

literatura@amazonsat.com.br


Em sua residência o encontramos juntamente com sua mãe a senhora Thereza Leonor de Jesus, que estava bastante alegre e sorridente por seu filho ter sobrevivido a catástrofe do Paes de Carvalho. Leonardo Severo de Jesus, 3º maquinista, estava no seu turno de trabalho, como de costume, entre a meia noite e devia largar as 4 horas da manhã.

- Ele está lá dentro, vou chama-lo, - disse a senhora.

Leonardo apareceu e em seu semblante mostrava estampado no seu rosto um largo sorriso de felicidade. O mesmo disse:

- Fui mais uma vez feliz, - disse-nos Leonardo. E digo mais uma vez porque não foi só desta que vi a morte perto. Salvei-me o ano passado do naufrágio da Yaquirana, sossobrada tragicamente no porto de Manacapuru...
Leonardo fala um pouco sobre ele:

- Chamo-me Leonardo Severo de Jesus, tenho 25 anos de idade, nasci na vizinha capital de Belém e sou filho de Thomaz David Ferreira e de dona. Thereza Leonor de Jesus, essa velhinha que lhe abriu a porta; sou casado com Dolores de Jesus natural do Pará, e que conta 26 anos de idade. Adoro a vida de embarcadiço e, graças aos meus esforços por bem servir as casas que me tem dado trabalho, sou hoje 3º maquinista da companhia Amazon River, proprietária da embarcação tão indaustemente sinistrada em frente ao porto de Camará. Era maquinista do Índio do Brasil e na viagem passada, cambei para o Paes de Carvalho.
   
Região do desastre | Foto:Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 


O Paes de Carvalho saiu do porto de Manaus dia 19 a meia noite. A viagem prosseguiu tranquila até que na madrugada do dia 22 por volta de três e trinta da madrugada, até que as três e quarenta foi dado o alarme de fogo no navio. Saindo da casa de máquinas e vi o fogo se alastrar próximo aos lotes de caixas de gasolina que se empilhavam no convés inferior. Já se podia ouvir os gritos dos passageiros e então corri para a sala da caldeira e seguindo os procedimentos autorizado pelo comandante, Cabral dos Anjos, parei o navio. Tentamos apagar o incêndio mas já era tarde demais, pois o fogo já havia se espalhado pelo navio.  O fogo se espalhou pela sala de máquinas e atingiu o gerador de luz e o navio ficou às escuras. 


Encontrei o comandante Cabral na pro do navio, juntamente com o o prático Josino do Carmo Palheta, prático Milton Angelin, o mestre José Ezequiel de Salles e o 1º maquinista. Neste momento ouviam-se os gritos dos passageiros e nesta confusão começou os primeiros trabalhos de salvamento. As canoas foram baixadas nas águas do rio Solimões e os tripulantes e alguns passageiros foram socorridos. Cai na água vestido com uma calça velha e rasgada. Nadando por uns vinte minutos Leonardo Severo juntamente com outro passageiro fomos colocados na canoa. Onde já havias quatorze pessoas. 


Chegamos a margem e onde deixamos onze pessoas e saímos em busca de outros sobreviventes. Ao amanhecer víamos somente uma fumaça densa a sair do Paes de Carvalho.  Em uma canoa encontramos dois foguistas, mulheres e crianças. Fomos recolhendo os sobreviventes que encontrávamos pelo caminho. Deixamos a canoa e fomos a pé, por volta de nove da manhã chegaram em um barracão duas canoas com mais sobreviventes. 


Trazidos pela corrente, viemos descendo o rio, até as 19 horas, quando encontramos o vapor Envira. A bordo dessa embarcação solicitamos auxilio ao caixeiro viajante da casa Nicolaus e Cia senhor Amaral, que nos forneceu um farol e uma peça de ferro para usarmos na canoa. Descia nesse momento o Índio do Brasil que trazia alguns náufragos de Camará. Passamos para bordo desse navio e ancoramos no porto de Manaus, as 15 horas, do dia 22. 1


Esta foi a minha odisseia e o que eu lhe posso descrever, porque o quadro absolutamente exato do naufrágio não há quem lhe descreva.


A sobrevivente senhora Alexandrina Rodrigues Neiva


Alexandrina Rodrigues Neiva, 65 anos, mãe do Dr. Júlio Lima, Procurador Fiscal da Fazenda Estadual, foi uma das sobreviventes do Paes de Carvalho.

Qual nada. O navio era um forno e, como o calor fosse excessivo e o meu camarote muito quente, eu estava na camarinha de dona Joana, uma companheira de bordo, que convidara a fazer-lhe companhia. E assim pela madrugada, não posso precisar a hora, ouvi uma confusão de palavras vindas do convés de terceira classe, onde estavam muitas dezenas de seringueiros que voltavam ao corte. Pensei, a princípio, se tratasse de alguma discussão, tão comum entre eles, mas, pouco depois, argumentou o barulho e consegui ouvir claramente as palavras fogo e incêndio, de mistura com gritos de aflição. Chamei a minha companheira, vesti-me rapidamente, e sai da camarinha. Ao chegar no corredor verifiquei que o navio estava sendo devorado por um violente incêndio. O fogo tomava proporções assustadoras; as labaredas, vindas de baixo, se comunicavam as redes armadas na polpa do convés de cima. A situação era insustentável. Aproximei-me da amurada e olhei para o rio: grande número de passageiros procurava sustentar-se a flor d`agua, lutando, uns com os outros, na anciã de salvação. Mães agarravam-se aos filhos, procurando tê-los junto a si, naquele último instante de vida. Um horror meu filho, um horror!

Deixei-me escorregar pelo costado do navio, apoiada em um cabo. Ao chegar a água encontrei logo um cadáver de criança; impressionada, fiquei algum tempo sem fazer coisa alguma, segura em um portolo que estava aberto. Como ouvisse alguém dizer que a margem estava perto, afastei-me do navio e nadei, em pé, meu filho, com um vigor que eu mesma me admiro. Tinha nadado uns trinta metros quando avistei uma embarcação; viram-me e aproximaram-se para salvar-me. Nessa ocasião vi uma senhora que já se debatia nas vascas da agonia. Como eu ainda pudesse sustentar-me na água por mais algum tempo, pedi ao pessoal do barco que fosse socorrer primeiro aquela senhora que estava em situação mais crítica que a minha. Eles assim fizeram. Mas como me pareceu longo esse tempo que precedeu a minha salvação! ... Senti-me desfalecer muitas vezes, porém ainda tinha vontade de viver... lembrava dos meus filhos e netinhos... Não queria ainda renunciar a vida... E, num último esforço, invoquei a proteção de Deus, senti que uma nova força se insinuava em todo o meu ser, força que fez com que eu, esperançosamente, aguardasse salvação.

Olhamos para dona Alexandrina e observamos que suas feições estavam impressas em todas as cenas horrorosas que nos contava.

A senhora foi uma heroína, D, Alexandrina, praticou uma ação hercúlea...

Qual o que, meu filho. O que eu fiz qualquer um faria pelo seu semelhante. E, quanto ao mais, foi Deus, o grande Deus. Debaixo de sua sombra protetora me coloquei. Ele foi quem me deu as forças precisas para resistir...
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Navio 'Paes de Carvalho' | Foto:Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 


Mário de Assis Costa, o herói da tragédia


Considerado um herói pelos sobreviventes do Paes de Carvalho, o praticante de leme Mário de Assis Costa, lembrou dos momentos de terror que viveu no incêndio no Camará.


Ao irromper o fogo, - disse-nos o praticante- a primeira ideia que me ocorreu foi a de salvar crianças, indistintamente, sem predileção por nenhuma; quis tirar do martírio os mais inocentes, os absolutamente irresponsáveis pelo desastre. Sou amigo sincero das criancinhas. Não pensei na minha vida, não pensei na morte, e todos os atos que pratiquei obedeciam sempre a uma reflexão, nunca fui precipitado numa resolução dona Thereza, a senhora que enlouqueceu de dor por perder o marido e os filhos, descera por um cabo da baleeira; em cima na proa ficava o seu filhinho mais novo. Compreendi a ansiedade com que essa criatura desejava o filho. Entreguei-o em suas mãos. Não sem mágoa. Havia muito perigo para aquela vidazinha, entregue aos fracos cuidados de uma pobre mulher. Mas o filho nos braços de uma mãe, mesmo que morra está salvo. Há lá melhor do que abandonar a vida estremecido nos braços de uma santa criatura que arrisca a sua vida, quando nos dá a nossa. Procurou salvar, pondo fora de perigo, um empregado menor do coronel Armindo de Rezende. Esse menino desapareceu. A custa de muito trabalho conseguiu alguns coletes salva-vidas, entregando-os imediatamente a quantos os solicitavam. Lembra-se de ter nesse momento cedido um a uma senhora idosa, que mais tarde socorreu novamente, junto a margem. Um passageiro de 3ª classe, de que não sabe o nome, e que ficou no Camará, num momento de desespero, tentou jogar-se nas chamas que partiam de um dos porões laterais. Obstou esse intento e teve o prazer de ver salvo esse tresloucado que quase se suicidava. Passando pelo local onde eram conduzidos os bois, amarrados, deu-lhes liberdade, desembaraçando-os.

Apreciou com absoluta calma o gesto brilhante do comandante que até os últimos momentos na manivela do telégrafo.

A bordo - cinco pessoas; o comandante, o prático Palheta, o mestre Salles, o despenseiro Garcia e ele. De repente o comandante sai olhando-o e desaparece, por traz da caixa de sinais; dir-se-ia que ia ao encontro da morte, nas chamas. Por ser impossível a passagem para a proa, julga que se tenha jogado na água. Seguiu-o com o olhar, e quando voltou a indagar dos companheiros, viu-se só, completamente soo, o mestre cairá na água, o prático Palheta desaparecera do local onde estava, isto é, da ancora contraria a que lhe servia de apoio.

O vapor num último alquebramento, num derradeiro arquejar levanta-se para baquear; a proa ergue-se. Quando atingiu o máximo de elevação, no momento exato em que ia baixando para sempre, Mário de Assis, que estava no propósito de só deixar o vapor, no último momento, jogou-se ao rio, lançando, ao mais longe possível, o seu colete de salvação, e nadando-lhe no encalço.  

Após alguns minutos de luta nas águas do rio, reparou que, na sua frente, a alguns metros, nadava também uma outra criatura que reconheceu imediatamente, tratar-se do passageiro de 3ª classe que ele evitara de se jogar ao braseiro.

Ao passar por ele condoeu-se das suas súplicas. Amparou-o como pode, até encontrar um pedaço de tábua, que cedeu ao naufrágio. Este agradeceu-lhe, disse: “Obrigado amigo, se bicho não me pegar estou salvo”.

Depois de passar nunca menos de duas horas na água, verificando perigos constantes, próximo a margem, uma canoa, que passava, colheu-o.

Tomando conta de um dos remos da canoa, foi em auxílio do passageiro a quem dera a tábua de salvação.

Completamente molhado, já despreocupado novamente do valor de sua vida, saiu com os náufragos recolhidos em busca de outros que necessitassem de seu auxílio.

E foi assim que pude socorrer ainda a dona. Thereza Tapajós, já nessa ocasião sem o filho Alfredo, e a quem perguntou: - O seu filho dona? dona Thereza, que já nesse momento se apresentava fora do natural, respondeu-lhe que o perdera na longa travessia. Ainda na sua rota gloriosa de recolher náufragos pode embarcar no bojo da embarcação que conduzia uma senhora de idade que parece tratar-se de uma senhora que veio de Manaus, dona Francisca Florinda Ribeiro, a quem distribuíra um salva-vidas a bordo.

De volta a margem, com todas as pessoas a quem dera o seu auxílio, encontrou boiando sobre as águas o cadáver do pequeno Alfredo.

De toda a trágica madrugada – disse-nos Mário Costa – o encontro de dona Thereza com o filho morto foi a cena que mais me impressionou.

Dos seus olhos de herói, talvez pela primeira vez, deslizou a primeira lágrima.
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Sebastião de Lima, perdeu sua família no sinistro


O senhor Sebastião Gomes Lima, passageiro do navio Paes de Carvalho, dá seu depoimento sobre o que se passou na hora do incêndio e sobre os tripulantes do navio que foram “acusados de covardes” por abandonarem o navio e não auxiliarem os passageiros e sua perda irreparável de sua esposa e filha. 

Com os olhos marejados de lágrimas, envolto numa grande e comovedora emoção, narrou a luta formidável e adônica, que empreendeu para salvar das chamas aniquiladoras e das ondas satanicamente rebeldes, a sua esposa, dona Philomena Gomes da Silva, paraense, de vinte e três anos, e sua única filha Dulcinéia, de oito anos, amazonense, que o acompanhavam para aquela mesma localidade. Disse-nos dos seus esforços inúteis para salvar a sua esposa, que não sabia nadar, e sua idolatrada filhinha, que desapareceu nas ondas, a gritar: “Papai, socorra-me”.

Falou-nos da bravura do comandante Cabral do Anjos, que, segundo o nosso informante, não se salvou, salvando o navio com seus tripulantes e passageiros, em virtude da falta de coragem, disciplina e de respeito ao cumprimento dos deveres, que a tripulação do Paes de Carvalho demonstrou.

Ao indagarmos se ele tinha toda a tripulação como culpada, contestou-nos, com entusiasmo: “Não! Houve um menino, que, mais tarde, soube chamar Mário de Assis, que se portou como um herói. Vi-o distribuir, entre chamas, com uma calma assombrosa, muitos coletes salva-vidas”.
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Informes completos sobre a tragédia



O Paes de Carvalho que fora construído nos estaleiros de Glasgow, na Inglaterra, registrava 657 toneladas brutas e tinha 390 H.P. de força.

Sua tripulação era composta de 38 homens. Estava segurado na seção de seguros da própria companhia.

Comportava 9.000 volumes, sendo o seu carregamento, na ocasião do sinistro, 5.800, calculados na importância de 1.500 contos.

Levava também 129 caixas de gasolina, 332 de querosene, 63 de pólvora e 23 de balas. A carga encontrava-se segurada em diversas companhias, sendo as maiores seguradoras a Aliança da Bahia e Commércio do Pará.


Lista das cargas que o vapor “Paes de Carvalho”, tinha em seu porão

Carga de: - Martins Pinheiro, 1.600 volumes de farinha; J.G. Araújo & Cia. Ltda., 400 volumes de farinha; a ordem R.M. 566 volumes de farinha; M.A. Pinheiro, 100 volumes de farinha; Lima Castro, 50 volumes de farinha; a ordem R.R. C., 80 volumes de farinha; F.C. Marques, 2 caixas de tecidos e 1 dita de cobertores; Mauricio Samuel, 3 caixas de tecidos; M. Reslim, 1 caixa de tecido; Aucar Irmão, 7 volumes de linha; M.A. Gomes, 1 caixa de linha; A. Barroco; 1 caixa de linha; a ordem Miroma, 50sacos de arroz; a ordem de Clérigo, 30 sacos de arroz; a ordem de Abrahim, 30 sacos de arroz; a ordem Fortuna, 20 sacos de arroz; a ordem Nogueira, 10 sacos de arroz; M.C.M. Mesquita, 30 sacos de arroz; J.R. Cunha, 1 caixa de doce; Lima Castro, 3 caixas de bolacha e 1 dita de chocolate; J.G. Araújo & Cia Ltda., 5 caixas de doces; Higson Jones & Cia, 1 caixa de papel para cigarros; a ordem Miroma, 3 caixas de roupas; A.L. Figueiredo, 20 sacos de arroz; Lima Castro, 20 sacos de arroz; Simões & Cia, 20 sacos de arroz; A. Dias Pereira, 10 sacos de arroz; Pires Irmão, 10sacos de arroz; Semper & Cia, 10 volumes de paneiros, 100 garrafas vazias e 1 fardo de papel; Leite & Cia, 2 caixas de chocolate e dita de farinha; M. Carbacho & Cia, 61 animais.

Carga de Santarém: - H. Machado, 8 canoas.
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Tripulantes do vapor “Paes de Carvalho”.


(*) João de Deus Cabral dos Anjos, comandante; (*) Guilherme Muller, imediato; José Ezequiel de Salles, mestre; (*) Américo Cabral Marques, escrivão; (*) Jovino do Carmo Palheta, prático; Milton V. Angelim, prático; (*) Manoel A. Mello Delgado, 1º maquinista; Pedro Augusto de Macedo, 2º maquinista; Leonardo Severo de Jesus, 3º maquinista; Amaro Nelson de Mello, (*) Raymundo S. Corrêa, Henrique Bastos da Silva, Sebastião José Rodrigues, Orlando Caldas, foguista; (*) José Luiz do Nascimento, Edgard Costa, carvoeiros; (*)  Oswaldo Leoncio Santos, carvoeiro; Luiz Gomes da Vera Cruz, carvoeiro; Manoel R. Gama Filho, marinheiro; Agostinho G. de Almeida, Isidro Santos, Jesuíno Diogo da Silva, Pedro Lopes Galvão, Antonio Queiroz Teixeira, Manoel Aquino Gomes, José de Freitas, Raymundo Nonato Reis, Serafim Syrino da Silva, marinheiros; (*)  Manoel de Souza Lima, (*)  João dos Santos, marinheiros; Ignácio Garcia da Silva, despenseiro; (*) Pedro Francisco Oliveira, 1º cozinheiro; (*) Pedro Alexandrino, 2º cozinheiro; Hermínio Nascimento, copeiro; José Marques do Amaral, padeiro; Franklin G. Silva, Francisco A. Pereira, Antonio Farias Lopes, Dionísio F. Cunha, taifeiros; (*) Martinho Pereira, (*) João Ribeiro, taifeiros; Mário de Assis Costa e Octavio Padilha, praticantes. 6
Dos 42 tripulantes, 14 morreram na catástrofe: são os assinalados com asterisco (*).  


Sobreviventes do vapor “Paes de Carvalho”, que permaneceram em Camará


Leôncio de Salignac e Souza, Mathias Vieira de Aguiar, Francisco Bernardo de Souza, Philomena de Albuquerque Barata, José Arraes, Joanna de Oliveira Barata, José Vasconcelos de Souza, Maria da Silva Lima, Josina de Lima, Bernardo Porphirio Falcão, José Porphirio Falcão, Francisco Porphirio Falcão, Manoel Thomaz, Pedro Goncalves de Oliveira, José Joaquim Nunes, Manoel Baptista Nery, Luiz Gonzaga d`Almeida, Maria Antonia de Jesus, José Artelino Filho, José Esperidião Barbosa, Francisco Alves de Lima, Antonio Simões de Oliveira, Júlio Barroso de Souza, Maria da Silva Mello e Thereza Porphirio Falcão.
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Passageiros que retornaram para Manaus no vapor “Índio do Brasil”


Dr. João Brígido, Thereza Tapajós, Alfredo José da Silva e família, José Augusto Branco, Armando Rezende, José Antonio, Mansour Chernen, Raymundo Rufino de Oliveira, Sebastião Gomes de Lima, Manoel Antonio Cabral, Francisco Borges de Aquino, José Paula Barros, Manoel Raymundo de Souza, Ernestino Paulo da Costa, Bertina da Costa, que perdeu o marido e 4 filhos, Petronilla de Oliveira e um menos, Francisca Florinda Ribeiro, Antonio Ribeiro, e Durvina Calixto dos Santos. 8


Relação dos passageiros conduzidos pelo “Paes de Carvalho” para os portos do Solimões e Juruá, embarcados em Manaus


Joanna de Oliveira Barata, Filomena Barata, José Augusto Branco, José Antonio, Mansour Chernen, Maria Octaviana de Lima, F. Borges de Aquino, Alfredo José da Silva, Sebastião Gomes de Lima, Florença Cunha da Silva, João do Rego Barros Brigido, Alexandrina Neiva, Leoncio de Salignac e Souza, tenente Manoel Antonio Cabral, José Vasconcellos de Souza, dois trabalhadores da Inspetoria de Índios, Petronilla Xavier e um menor, Mathias Vieira de Alencar, Manoel P. Barbosa, José P. de Barros, Bernardo falcão, Francisco Falcão, José Falcão, Thereza falcão, Francisco B. de Souza, Manoel Thomaz, José Artilino Filho, Thereza Tapajós, (*) Aniceto de Almeida, (*) Alfredo Tapajós e 4 filhos, (*) Filomena de Lemos Lira, (*) José Ribeiro da Silva, (*) Alfredo Nunes Pereira, (*) José de Magalhães Cordeiro, (*) Lydia Nogueira Pessoa, (*)Antonio B. Santiago, (*) Pedro, (*) Maria do Carmo Araújo, (*) Judith P. Barbosa, (*) Ritta P. de Jesus e 2 menores, (*) Francisca Souza e uma menor, (*) Manoel Ventura, (*) Dois filhos de Florença Cunha da Silva.

Os assinalados com asterisco (*), até o presente momento estão considerados falecidos.

Dos cinquentas embarcados, neste porto, 23 pereceram no sinistro.
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Lista de passageiros em trânsito de Belém para o Rio Juruá


Armindo Rezende, Lindolpho Oliveira, Joaquim Ignácio Ribeiro, (*) esposa de Armindo Rezende, (*) Silvestre Miranda, (*) Rufino Alves.


Dos seis passageiros que seguiam em trânsito para o Rio Juruá, três faleceram.
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Tripulante salvo por cavalo


Havia no vapor Paes de Carvalho, 61 animais, segundo a listagem do navio. Um tripulante, que não se sabe o nome, se salvou graças a um cavalo. No momento do incêndio, procurando por algo para se salvar, o tal tripulante, encontrou o animal amarrado e num momento de desespero saltou com ele nas águas do Rio Solimões. Com esta atitude conseguiu chegar a terra e salvar-se das chamas que engoliam o vapor.


***

Das notas colhidas pela nossa reportagem verifica-se que perderam a vida 40 pessoas sendo: 14 tripulantes e 26 passageiros.

Todavia esse não é o número verdadeiro dos que pereceram, há a registrar os passageiros que, por qualquer razão, não constam das listas fornecidas pela Companhia “Amazon River”. Haja vista o caso de dona Francisca Florinda Ribeiro que, oficialmente só apareceu depois de salva. Salvou-se sem saber nadar, por auxilio do praticante Mário A. Costa, que, a bordo, lhe deu um colete, e, mais tarde, tirou-a da água.

O traçado do croqui demonstrativo do incidente, publicado a página três, devemo-lo as informações dos práticos senhores Raymundo Baptista da Silva e Milton Angelim, respectivamente de quarto no Índio do Brasil e no vapor sinistrado. Foi desenhado por um dos nossos redatores, no momento das informações.

De Camará ao local do desastre eram aproximadamente 50 minutos de viagem. O Paes de Carvalho passará por Cametá as 2 horas e 50 minutos.

Alguns sobreviventes do naufrágio estranham o gesto do comandante do Índio do Brasil, senhor João de Jesus Pimenta, não deixando em Camará uma embarcação tripulada para serviço de prováveis salvamentos e recolhimento de cadáveres, mesmo porque a sua demora naquela povoação foi de pouco mais de cinco horas.

O senhor Rubens Dário Lisboa, professor público de Camará, declarou-nos que, entre os moradores daquela povoação, o sinistro no seu início, foi considerado como fenômeno marítimo inédito.

Este cavalheiro informou-nos ter salvo o tenente de polícia Manoel Antonio Cabral, o comerciante de Tefé José Antonio e o senhor Raymundo Oliveira de que damos um clichê noutro local. Vários naufrágios foram socorridos pelo senhor Anísio Lima, sócio da Firma Ataliba & Irmão, que lhes prodigalizou os primeiros confortos.

O comerciante turco José Antonio foi, conforme declarou-nos o mesmo senhor Rubem Dário, o menos infeliz de quantos a catástrofe surpreendeu; salvou a vida, a mala com roupas e quatro contos de réis em dinheiro e tinha as mercadorias, no valor de setenta e tantos contos, seguradas.

Sabemos que ao, verificar-se o início do incêndio, o marinheiro de quarto não estava em seu posto, isto é, na malagueta.
 
Ao que para fora destacado pelo prático Milton Angelim para avisar o quarto ao seu substituto, o prático Palheta, não obstante serem 3 horas e 40 minutos.

Na margem fronteira a que os náufragos alcançaram somente foi encontrado um cavalo, parecendo ser esse o único ser vivo que nadou para a margem.

Está fora de dúvidas que o comandante Cabral dos Anjos se jogou no rio, sendo improcedente a notícia de que ele tenha sido devorado pelas chamas.

Causaram ótima impressão as medidas humanitárias e eficientes tomadas por S. Exa. O senhor Dr. Efigênio de Salles, Presidente do estado, com a chegada a Manaus dos náufragos do “Paes de Carvalho” esse timbre sincero e iluminado de democracia, que caracteriza o seu fecundo governo, foi posto à prova, nesta dorida catástrofe, obtendo eloquência singular. Visitou, frequentemente, todas as famílias vitimadas. Tomou providencias urgentes para que os feridos que não tinham residência nesta capital fossem internados, com o máximo conforto, na Santa Casa. Abriu, com cinco contos de réis, verba socorros públicos, a subscrição, que atinge avultada soma, instituída, em benefício das vítimas, pelo nosso brilhante confrade “Estado do Amazonas”. 
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João de Deis Cabral dos Anjos | Foto: Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 

Bordo, em 17 de março de 1926.
João de Deus Cabral dos Anjos
Comandante





A CATASTROFE DE CAMARÁ


O “Paes de Carvalho”, em chamas, nas águas do Solimões, mutilando e retalhando com o golpear da hélice dezenas de náufragos.



INFORMES COMPLETOS SOBRE A TRAGÉDIA


Como já é de domínio público, pelas notícias que todos os jornais desta capital editaram, a madrugada de 22 do corrente mês veio trazer a nossa população a emoção mais profunda que temos sentido nestes últimos tempos: o horrível sinistro do vapor fluvial Paes de Carvalho, da frota da “Amazon River”.

Ainda todos os corações pulsam no mesmo sentimento de piedade e horror, de tristeza e comoção, ao evocar essa tremenda catástrofe, que supera outras desgraças análogas, tal a amplitude de consequências trágicas e inesperadas, com o séquito extenso de luto, a trazer inúmeros lares presos de magoa infinita causada pelas irreparáveis perdas.

A meia noite de 19 do corrente mês, o Paes de Carvalho deixava o roadway da “Manaus Harbour”, continuando assim, a viagem da linha do Juruá, empreendida de Belém, porto inicial.
Comandado pelo piloto João de Deus Cabral dos Anjos, marítimo bastante conhecido e conceituado na nossa marinha mercante, o Paes de Carvalho conduzia elevado número de passageiros e avultada quantidade de carga, como, aliás, o fazem todos os gaiolas empregados na navegação do Amazonas. 

O percurso Paes de Carvalho ia sendo feito sem novidade, quando, ao chegar ao porto da Vila de Codajás, o comandante notou que dois reboques de pescadores portugueses atrasavam a marcha da embarcação.
Verificando esse fato, que, realmente, já vinha retardando em quatro horas a viagem, aquele oficial deliberou propor aos pescadores largarem o reboque, transmitindo-lhes essa resolução, por intermédio do praticante Mário de Assis Costa, que se tornou, mais tarde, um verdadeiro herói.

Atendendo as ponderações do comandante, um dos pescadores obedeceu logo a resolução tomada, desamarrando a canoa do navio, enquanto seu colega de oficio se obstinava em continuar a viagem, já tendo, a seu tempo, o Paes de Carvalho deixado o porto de Codajás. Diante da desobediência as suas ordens, o comandante Cabral dos Anjos renovou o aviso de que não podia continuar a conduzir o reboque, até que, sendo a insistência do pescador, mandou um marinheiro desatar os nós, das cordas. Esse fato, ao contrário do que se diz, não enfureceu o mariscador lusitano.

Aliviado desse reboque, o navio prosseguiu a rota, costeando o Camará, a margem esquerda do Solimões. Nesse percurso, o Paes de Carvalho defrontou a ilha de Ajurá, situada na foz do Paraná do Mamiá, conseguindo atingir a ponta da ilha da Botija, que, digamos de passagem, é circundada por barrancos intransponíveis. Essa ilha, que fica localizada a dez metros do canal de navegação. É o ponto que, nessa altura da viagem, todas as embarcações costeiam, não chegando, porém, o Paes de Carvalho a costear, porque, exatamente nessa travessia, se verificou o início do incêndio, três horas e quarenta minutos da madrugada.

É de notar que a ilha da Botija, situada, como fica, no rio Solimões, divide esse rio em dois braços: um que segue para a esquerda – denominado Paraná do Mamiá, - e outro que se estende a direita o Solimões propriamente dito, e onde fica situada a ilha do Trocary, pouco abaixo do porto do mesmo nome, para onde se destinava a embarcação sinistrada, afim de desembarcar mercadorias.

Uma vez no Trocary, Paes de Carvalho devia voltar ao local onde se deu o sinistro, entrando no Paraná do Mamiá, e seguindo o seu rumo.

Nesse momento, isto é, as três horas e quarenta minutos da madrugada, o Vapor Índio do Brasil, que fazia a viagem inversa ao Paes de Carvalho, apitava para o porto de Mamiá, situado no Paraná do mesmo nome, afim de tomar lenha.

O prático Índio do Brasil, senhor Raymundo Baptista Silva, que fez a atracação em Mamiá diz que realmente observou, na direção da ponta extrema da ilha da Botija, um clarão e um fumo intenso. Acreditou que se tratasse de uma queimada na ponta da referida ilha. Não ouviu os apitos soltados do Paes de Carvalho, que a menos de trinta minutos, servia de pasto ao mais pavoroso incêndio em águas amazônicas. Explicou-nos este profissional que não se admira de não ouvir o pedido de socorro do Paes de Carvalho, pois o vento soprava em sentido contrário e, portanto, levava o som noutra direção.

A profundidade do Rio Solimões, no local onde o Paes de Carvalho afundou é, mais ou menos, de doze braças.

De outras particularidades do sinistro serão cientificados os leitores nas páginas a seguir, bem assim no croqui elucidativo.
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Como se deu a catástrofe


Conforme relatos, o incêndio pode ter tido início quando uma passageira que fumava seu cachimbo, o sacudiu e as cinzas caíram próximo as caixas de gasolina.
Depois deste episódio, os acontecimentos seguintes foram narrados pelo 3º maquinista que estava de plantão, Leonardo Severo de Jesus. O mesmo foi primeiro a avisar os tripulantes e passageiros sobre o incêndio.



ANICETO ALMEIDA


Entre as vítimas do Paes de Carvalho conta-se Aniceto Almeida, agente embarcado da Administração dos correios do Amazonas e Acre.

Moço ainda, pois contava somente 31 anos, o inditoso Aniceto pode ser copiado como modelo aquém queira resumir numa existência abnegação e trabalho.

Era funcionário de nossa posta desde 11 de setembro de 1918, quando foi nomeado auxiliar pro-rata daquela Repartição.

Os seus serviços tornaram-se imprescindíveis, e quem com ele privou nos afazeres postais não pode negar a prodigiosa disposição para o trabalho, que animava aquela existência fecunda de vigilante incansável dos interesses da União.

Durante os sete anos, quatro meses e onze dias que teve os seus serviços aproveitados pelo Correios do Amazonas, não deu uma única falta ao serviço, sendo digno de registro esta particularidade porque em tão longo espaço de tempo não há, naquela Repartição, quem tenha sido tão assíduo.

Era um funcionário corretíssimo não tendo na sua folha de assentamentos uma única nota que lhe desabonasse a conduta.

Em 23 de outubro de 1924 era Aniceto Almeida investido das funções de agente embarcado, sob gerais aplausos de todos os seus colegas de repartição.

Para esse cargo já fora o inditoso moço preterido por três ou quatro vezes.

A 4 do corrente mês, contraiu matrimonio com a senhora dona Denise Corrêa de Almeida.

Era sobrinho e filho de criação do major Stanislao Mirailles, proprietário residente a rua de S. Vicente nº 6.

Era amazonense, filho de Manaus.

Antes de seguir viagem para o Rio Juruá, no Paes de Carvalho, Aniceto Almeida, ao receber ordens da Administração Postal, participou ao Administrador dos Correios o seu consórcio.

O coronel Raul de Azevedo ponderou-lhe que se disso soubesse antes, teria providenciado sobre a sua substituição por outro agente.

Aniceto retorquiu: - “Sou homem de serviço. Se não fosse hoje, iria amanhã ou depois, por isso vou hoje mesmo”.  

Esta frase de Aniceto define lhe bem o temperamento e se por uma ação se pode analisar da capacidade de trabalho de um indivíduo, pranteado moço fechou admiravelmente a sua vida de irrepreensível conduta moral e acendrado amor ao trabalho.

A notícia de sua morte, em pleno cumprimento do dever, consternou não só os seus colegas de Repartição, mas quantos o conheciam.
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OS QUE MORRERAM NO POSTO



As quatro vítimas de maior realce da guarnição do PAES DE CARVALHO


João de Deus Cabral dos Anjos nasceu em Alhandra, Portugal, no dia 14 de setembro de 1883.

Era filho do comendador João Ozorio Cabral dos Anjos e dona Gertrudes Cabral dos Anjos, já falecidos.

Veio para Manaus aos 8 anos de idade. Aos 11, empregou-se a bordo, como praticante, depois de se ter submetido ao respectivo exame, no Pará.

Empregou a sua atividade sempre na “The Amazon River Steam Navigation Company (1911) Limited”, tendo comandado os seguintes vapores dessa companhia: Índio do Brasil, Madeira Mamoré, Tefé e Paes de Carvalho.  

Contraiu casamento nesta capital, no dia 5 de junho de 1909, com dona Helena Guedes Cabral dos Anjos, filha do senhor Joaquim Antonio Guedes, já falecido, e de dona Maria Rebello Guedes.

Deixou além da viúva, 9 filhos: Nilce, com 15 anos de idade, Elmizia, com 13, Almério com 11, Célia, com 8, Homero, com 5, Jorge, com 4, Ivanisei, com 3, Alfredo Augusto, com 1, Denise, com 5 meses.

Era naturalmente brasileiro. 
   
Casamento de João de Deus Cabral dos Anjos e Helena Guedes Cabral dos Anjos | Foto:Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 

Guilherme Muller, imediato, era natural do Estado do Pará, tinha 45 anos de idade, viúvo e deixou uma filhinha de 10 anos. Era irmão do comerciante Pedro Muller, sócio e gerente da firma Manoel, Pedro e& Cia., estabelecidos com serraria e construção em Belém.


Américo Cabral Marques, escrivão, era filho do antigo industrial Serafim Cabral Marques, natural da cidade do Porto, Portugal. Nasceu em 30 de outubro de 1891. Veio para o Amazonas em novembro de 1905, empregando aqui a sua atividade até 1916, em casa do seu irmão, o comerciante Rodrigo Cabral Marques. Em 1917, empregou-se como escrivão na companhia “Amazon River”, até ao momento do desastre. Casou-se em primeiras núpcias, a 10 de setembro de 1921, com dona Carlota de Freitas Pinto Marques, irmã do nosso distinto amigo Dr. Freitas Pinto, e dos senhores Augusto e Luiz Freitas Pinto. A 15 de janeiro de 1925, perdeu sua esposa dona Carlota, ficando desse consórcio a menina Maria Leonor, de 2 anos, 3 meses e 16 dias. Casou-se pela segunda vez, por procuração, a 6 do corrente mês, e, onze dias após, homologou-se esse ato com cerimônia religiosa, isto é, quatro dias antes de ser vitimado pelo sinistro, com a professora normalista dona Elvira Monteiro Cabral Marques.     


Josino do Carmo Palheta, prático do Paes de Carvalho, era natural deste Estado, tinha 45 anos de idade, casado com a senhora dona Maria do Carmo Palheta. Era piloto da “Amazon River” e primeiro prático do Rio Juruá.

Deixou do seu consórcio um filho, Orivam, de 5 anos, tendo perdido no dia 14 do corrente mês um outro de nome Thomises, vitimado pela varíola.

Era cunhado do 1º tenente da milícia estadual, Tristão Cavalcante Neto, em casa de quem residia.


José de Magalhães Cordeiro. Há criaturas que, pelo modo como se conduzem na visa, pela exatidão matemática com que pautam os seus atos e pelos sentimentos de humanidade que lhe ornam o coração, deixam, quando morrem, no regaço da família e no seio dos amigos, a mais saudosa lembrança, a mais lembrada saudade.

No número destes que em vida somente pensaram e praticaram o bem, estava incluído José Magalhães Cordeiro, pai amantíssimo, chefe de família exemplar e dedicado amigo.

Fazendo do trabalho uma religião, Magalhães Cordeiro há mais de um decênio vinha empregando a sua atividade no ingrato comércio do inóspito interior.

A golpes de verdadeiro heroísmo, o pranteado Cordeiro conseguiria firmar-se no alto comércio desta capital, captando a simpatia de quantos com ele tinham a oportunidade de transacionar.

Vieram em janeiro último a esta capital a pretexto de ser operado, trazendo em sua companhia toda a família, isto porque Magalhães Cordeiro não suportava uma ausência demorada da família.  

Resolveu posteriormente submeter-se a intervenção cirúrgica que o trouxera a Manaus, na vizinha Belém. Neste interim, como adoecesse o caixeiro viajante da casa J. G. Araújo & Cia. Ltda., atendeu a um apelo do chefe dessa firma, e seguira a viagem comercial dessa casa, no Rio Juruá, a bordo do Paes de Carvalho.

O senhor José de Magalhães Cordeiro, nasceu em Quixadá, no Estado do Ceará, e contava 38 anos de idade. Era casado com dona Etelvina Barbosa Cordeiro, de cujo consorcio deixou quatro filhos: Neusa, de 13 anos; Romulo, de 10; Romelia, de 8 e Djanira, de 1 ano e 7 meses. Era filho de Francisco Felix Barbosa Cordeiro e dona Maria Manoela de Magalhães Cordeiro. Deixa os seguintes irmãos: Dona Joanna Baptista de Magalhães Cordeiro, Francisco de Magalhães Cordeiro, comerciante e proprietário do Rio Juruá, dona Maria Emerentina Barbosa, Raymundo de Magalhães Cordeiro, leiloeiro nesta capital e Thomaz de Magalhães Cordeiro, proprietário em Canindé Estado do Ceará.

É elogiável o procedimento correto do senhor comendador Joaquim Gonçalves de Araújo que, logo ao saber da lamentável catástrofe e ao circular a notícia de que no desastre perecera o senhor José de Magalhães Cordeiro, fora visitar a Exma. Viúva, e oferecer-lhe os seus préstimos no que desejasse.


É mais um nobre gesto do reconhecido altruísmo do senhor comendador, alma afeita a prática do bem e estancador do pranto de centenas de infelizes.


Capitão José Ribeiro da Silva, entre as pessoas sucumbidas a catástrofe do Paes de Carvalho, consta-se o senhor capitão José Ribeiro da Silva, proprietário e político em Coari onde gozava de largas simpatias pelo seu insinuante cavalheirismo. Era cearense, mas residia já há muitos anos no Amazonas, aqui tendo constituído família e dispendido uma constante e proveitosa atividade. Faz poucos dias, estivera nesta capital onde contava um grande número de amigos. Tomara passagem neste porto, no Paes de Carvalho, com destino a Coari, sua residência atual e de sua família da qual era extremoso chefe.
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Família de João de Deus Cabral dos Anjos | Foto: Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 

O DOLOROSO EPISÓDIO DO PAES DE CARVALHO


Há, nesse honroso quadro de angústias, como só as concebera um dia a imaginação delirante do bardo florentino, um traço formidável a que nenhum engenho humano dará nunca um exato e fiel relevo o da esposa do senhor Alfredo Tapajóz.

Esta infeliz senhora, mal conheceu o perigo que lhe ameaçava os filhinhos, confiou dois deles ao marido – Maria, de sete anos e Alfredo, de um – e corajosamente, com a confiança da mulher que sabe os prodígios que opera o amor materno, e a crença da cristã que acredita na misericórdia divina, tomou para si os outros dois – Célia, de cinco anos, e Alfredo, o último, de um, tentando assim a salvação num arranco de desespero. O choque contra a água do rio revolto, se a ela se atirasse com o seu fardo precioso, pareceu aquela pobre mãe que magoaria os pequeninos. E deliberou então, na terrível conjuntura, apertar contra o seio, com a mão esquerda, as aterradas criaturinhas, e agarrar-se a um cabo da amurada com a direita, afim de, por ele, escorregar a voragem.

Imita-se nesse gesto aflitivo o desfortunoso marido... Mal, porém, se apoderam dos cabos que já ardiam, os dois esposos se precipitam na água desamparadamente, e ele, apanhado em cheio pelos borbotões da hélice, que violentamente girava, passa pela desgraçada companheira com os pequeninos, como numa despedida suprema, e num turbilhão medonho para sempre desaparece.

Multiplicam-se as forças da senhora Tapajóz, luta durante muito tempo com o rio em fúria, agarra-se com heroísmo de mãe as duas queridas partículas de sua alma. Cansada, extenuada, quase dementada pela dor, luta desesperadamente até o último instante mas por fim sucumbe, e o sinistro remoinho rouba-lhe dos braços a inocente Célia.

Resta Alfredo, o remanescente daquela prole desditosa. Segurando-o com os dentes e reunindo todas as forças, estimuladas pelo instinto de salvação, a alucinada mãe, dentro de alguns minutos, vê-se enfim fora daquele horror, e antes de tudo tenta reanimar aquele derradeiro penhor das suas afeições, que ali tem enregelado junto ao amoroso seio. Chama, porém, em vão, grita e sacode inutilmente Alfredo, sua última esperança, jaz imóvel, sem vida.

Ilumina esta cena indescritível a doce claridade das estrelas dum céu impassível, enquanto lá, ao longe, parando súbito de rodopiar numa dança macabra de labaredas, imerge o navio por sua vez no vértice, saudado pela pólvora que estronda no deposito da proa e aumenta singularmente o belo horrível daquela orgia de água e fogo...
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O comandante João de Deus Cabral dos Anjos foi iniciado maçonicamente na Loja Esperança e Porvir nº 1 no Oriente de Manaus, no dia 31 de maio de 1911 | Foto:Acervo Pessoal/Abrahim Baze
 


O HERÓI DO INCÊNDIO DO NAVIO PAES DE CARVALHO


De todas as expressões de tragédias, terrestres ou marítimas, já memoradas na Amazônia, nenhuma tão patética, tão horrível, tão funesto, tão profunda, quanto a do Paes de Carvalho, verificada a vinte e dois da corrente, e ainda a galvanizar, inédita e intensamente, as correntes chocantes de nossa sensibilidade. Foi um quadro de flagícios supremos, em que o Gênio do mal, na áspide dos seus caprichos macabros, utilizando-se da tolerância irrefletida de um e do descuido inconsciente de outros, arquitetou mais uma dolente rediosa, mais uma luta desigual e furioso, entre o Homem e o Mar, os dois irmãos inexoráveis, que, em decantados e duradoiros versos Baldelaire assinalou, através de reflexos convergentes e isócronos, numa lida selvagem e sequente pela destruição, pela morte, pela carnificina...



No azar daquele diabril momento de apoteose ao pavor, estavam de amores os mais hórridos elementos da anihilação. Espalhando, por todos os hemisférios da aflição humana, as nuvens de fumo de sua eructação de vitória, a crase sacrílega das invulneráveis e fulminantes línguas de fogo e dos canhoneios das ondas, petrificava, cadaverizava e reduzia a frangalhos aquela humanidade dolorosa e malsorteada. Via-se com, os ouvidos, numa sucessão constante e caótica, que lanceava, as crepitações ensurdecedoras dos inflamáveis. Ao instante conturbado, fragoso e inenarrável do esgarrar, do alquebrar, do esbocinar do Paes de Carvalho, sinalava-se, de onde a onde, naqueles espectros alucinados, a renúncia de sua própria vontade, do seu eu, dentro do cipoal de inercia, das aguas dormentes do desalento, dos golfos da lesa-serenidade.  



Era o espasmo arrepiante das trevas.   


Mas, nem tudo, no crepúsculo daquela entrosado espetáculo, empastou-se de esgazeamento submisso ante o formidável sacrifício. Daquele cárcere improvisado e hediondo, que se abismara, abismando um mundo de experiências, de felicidades, de carinhos, de amores divinos e de santos anseios, de vidas preciosas, queridas, insubstituíveis e fecundas, tingaram-se, salvando-se, muitos, a maior parte dos passageiros e tripulantes do barco sinistrado, na evidencia altíssima e absolutamente legal do instinto de conservação, conforme as diversas manifestações do caráter, da energia, da bondade.


Alguns desceram a noite eterna, nimbados pela imortalidade da bravura.


Na hora mais dolorida da região do Camará, pesaram-se, ouro-fio, os alpanagios alcanorados e fascinante de heroísmo. E entre todos os bravos, salientou-se, tecendo o íris intátil de sua indumentária de herói, a individualidade icônica e modesta, consciente e resoluta do jovem Mário de Assis Costa, praticante de leme. Assim, todo molhado de simplicidade, como soem ser os veros sentinelas do espírito do bem, desnoitou, muitas vezes, a abulia, a incoerência, a imoderação, os apertos, as debilidades, as imprevisões, que asfixiavam aqueles mal-aventurados mareantes, mostrando-lhes a réstea de luz da porta que dava para a vida... Assim, ora semeando, coado pela peneira de seda da reflexão, a cúspide do altruísmo no distribuir salva-vidas, por entre as labaredas, na ordem das necessidades, e com ensinamentos para, com menos dificuldades, rumar-se ao salvamento ora desenvolvendo, na ocasião mais oportuna, através da hóstia mística da energia, o plenilúnio eficiente da ação disciplinada; ora entranhando-se, enclausurado pelas bênçãos da fé, nas águas negras e densas e infindáveis e tortuosas e empoladas do estreito entre a vida e a morte, no error das pontas de fogo dos cabos novos sacrifícios, por desempecer, após o sepultar-se do seu barco tormentoso, com as vantagens promanadas do seu nadar exímio, companheiros daquela viagem inopinada e forçada de mil tropeços agônicos, Mario de Assis Costa refletiu, naquela eternidade de trituração, o parêntese luminoso de um eufemismo consolador!


O cirineu iluminado, tu, que de cimo a cimo, asselaste, com atitudes intocáveis e corajosa, o galardão de herói, tu, ó mirifico condor da serenidade, que em epitase, viste a tua existência oscilar, tu, ó magnificente garimpeiro da bondade, que te fascinara pelo mar, desconhecendo a amplitude convulsiva e frenética de sua ira, tu, ó Mario de Assis Costa, porque ignoras a ausência de serenidade, és maior, muito maior, que o mar! És transcendente como a verdade, es sugestivo como a beleza, na tua ascensão para os iminentes intermundos da Glória!
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Clóvis Barbosa.
 
Referências


1 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Entrevista do senhor Leonardo Severo de Jesus, 3º maquinista do navio Paes de Carvalho. 

2 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Entrevista da senhora Alexandrina Rodrigues Neiva.

3 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Entrevista do Mário de Assis Costa, praticante de leme do navio Paes de Carvalho.

4 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Entrevista do senhor Sebastião Gomes lima.

5 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Manifesto do vapor Paes de Carvalho contendo a descrição de sua carga e seus respectivos proprietários.

6 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Lista Nominal dos tripulantes do vapor Paes de Carvalho.

7  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Relação dos passageiros sobreviventes do naufrágio do vapor “Paes de Carvalho”, que ficaram em Camará.

8  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Relação dos passageiros sobreviventes que voltaram para Manaus no vapor “Índio do Brasil”.

9  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Relação dos passageiros conduzidos pelo “Paes de Carvalho” para os portos do Solimões e Juruá, embarcados em Manaus.

10  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Lista de passageiros em trânsito de Belém para o Rio Juruá.

11 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Notas dos repórteres que cobriram o incêndio do navio Paes de Carvalho.

12  Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Informes completos sobre a tragédia.

13 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Aniceto Almeida, vítima do dever.

14 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. As quatro vítimas de maior realce da guarnição do Paes de Carvalho.

15 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. O doloroso episódio do Paes de Carvalho.

16 Revista Redempção. Edição Especial. Março de 1926. Considerações do senhor Clóvis Barbosa sobre o sinistro do vapor Paes de Carvalho.     



   

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