Meio Ambiente

Segundo ONG, turismo com animais silvestres pode contribuir para extinção de espécies

Aves, jacarés e macacos estão entre essas espécies, assim como os botos


Faça o exercício: abra uma rede social em um sábado, domingo ou feriado e tente contar quantas pessoas vão postar uma foto alimentando um boto vermelho ou carregando um bicho-preguiça. A prática é comum para quem mora ou visita o Amazonas, mas ela não é tão inofensiva quanto parece. É o que garantem especialistas, que ainda alertam que o contato do turista com animais silvestres pode ser ruim para o animal, e até, a longo prazo, contribuir para a extinção de algumas espécies.

De acordo com o G1 Amazonas, existente há mais de 30 anos, a ONG World Animal Protection que atua em todo o mundo para erradicar a crueldade contra os animais. No Brasil, um dos focos do grupo é justamente a Amazônia e o risco do turismo com animais silvestres.

Segundo o gerente de vida silvestre da ONG, João Almeida, há o risco de que esse tipo de turismo seja, para a Amazônia, o que o de tigres e elefantes é para a Ásia, que tem registros de maus tratos em vários países.

“No primeiro momento, a gente observa uma extração com impactos individuais, mas é uma indústria massiva de turismo que depende de um fluxo bastante alto. Com essa [extração], a mortandade das espécies exploradas em um ritmo acelerado e de escala, isso vai ter um impacto de escala, efeitos mais deletérios das espécies exploradas nas regiões próximas a Manaus”, aponta.


   
Foto: Camila Henriques/Rede Amazônica
 

Ao G1, ele cita o exemplo das preguiças, cuja média de vida teve queda vertiginosa com a exposição pela indústria turística. “Elas têm sobrevivido, em média, de seis meses a um ano, enquanto que, em ambiente natural, elas vivem de 20 a 30 anos”, cita João.

Segundo João, outras espécies estão em risco, e em áreas além da região do Parque Ecológico de Janauari, onde a ONG tem visto com preocupação o turismo com animais silvestres. Aves, jacarés e macacos estão entre essas espécies, assim como os botos.

"Há o caso emblemático dos botos, que [estão naquela] oferta que, na nossa visão, é bastante predatória. Os bichos ficam expostos constantemente e alimentados artificialmente, com a aproximação de embarcações muito grandes, às vezes com 90 turistas de uma vez só. Os turistas entra, 5 a 10 pessoas de uma vez, na água. Temos também alguns registros de mordedura pelos animais nos turistas, porque os bichos ficam estressados", explica.

"Turismo responsável"

Na semana passada, a World Animal Protection reuniu com algumas empresas que operam na Amazônia para a assinatura de uma carta de compromisso. Com o documento, os grupos se comprometeram a oferecer ao público exclusivamente o que a ONG chama de turismo responsável com silvestres.

Esse turismo consiste na observação das espécies no habitat delas, segundo João. "A gente precisa aceitar o fato de que, para ver animal silvestre, a gente tem que ir para o ambiente dele, com uma postura responsável fazer o turismo silencioso em trilha, em pequenos grupos. É importante que o visitante [participe de uma] atividade de educação ambiental para aprender um pouco sobre o comportamento das espécies, inclusive, quando a atividade de observação estiver ocorrendo no ambiente do bicho, [se comportar] de maneira respeitosa, com o menor impacto possível na conservação dessas espécies", aponta.

João frisa, no entanto, que a preocupação com o turismo de exploração não pretende responsabilizar as comunidades ribeirinhas, já que muitas dependem desse trabalho para garantir seu sustento. Ele pontua que as ações têm se concentrado mais na mobilização dos turistas e da população, além de firmar diálogo com as empresas.

"Nosso trabalho jamais tem intenção de expor quem está na ponta do turismo, operando a atividade, porque são comunidades vulneráveis e que [dependem dessa] demanda para o ganha-pão, então é muito mais uma questão de trabalhar a demanda do público. O problema essencial é porque isso envolve a extração ilegal de animais da natureza, envolve a questão de tráfico - os animais são mantidos em cativeiro, em condições completamente ingratas e desumanizadas -, eles têm pouco acesso à alimentação adequada, pouco acesso a água, muitas vezes estão acorrentados, confinados em espaços completamente absurdos", enumera.


   
Foto: Camila Henriques/Rede Amazônica
 

Números da "selfie"

Um relatório da ONG mostra que 94% das excursões turísticas analisadas ofereceram a oportunidade de tocar ou segurar um animal silvestre para fotos, enquanto 77% encorajam ativamente essa experiência. No total, foram analisadas 18 empresas.

Dicas da ONG para quem quer observar animais silvestres:

Não perseguir ou capturar animais para tirar foto;
Não alimentar ou atrair animais silvestres com "iscas" para foto;
Não pagar para tirar foto com animais;

Investigação


O Parque Ecológico de Janauari é alvo de um Inquérito Civil instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF). Segundo o órgão, uma representação dá conta de que esse tipo de turismo "incentiva o tráfico e maus tratos de animais silvestres" e que "os turistas são atraídos para tirar fotos com os mesmos".

No procedimento, o Batalhão de Policiamento Ambiental do Estado do Amazonas informou que "a atividade ilegal ali exercida extrapola o campo penal alcançando a esfera social, vez que é realizada como fonte de renda dos ribeirinhos ali residentes" e que "a propaganda desenvolvida por empresas de turismo" demanda uma ação social planejada de maneira colegiada.

Em maio desse ano, uma audiência pública encaminhou a criação de um Fórum Amazonense de Fauna Silvestre e Ecoturismo. O MPF expediu ainda a Recomendação n. 06, de 01 de junho de 2018, considerando que o turismo deve valorizar a fauna, com observação de aves, turismo científico, programas de conservação e áreas de soltura conservacionista.

Segundo o MPF, a recomendação foi voltada a todas as empresas de turismo (agências) e hotelaria (meios de hospedagem) localizadas no Estado do Amazonas, constantes da lista fornecida pela Amazonastur. "O objetivo da recomendação não é punitivo, e sim de buscar soluções para regularizar o funcionamento dessa prática observando a legislação vigente em relação à proteção dos animais, ao meio ambiente e à atividade econômica do turismo", informa o órgão.

O fórum realizou reunião em agosto desse ano, com a presença de representantes de diversos segmentos envolvidos na causa, coordenada pelo MPF. O órgão explica que, a partir dessa reunião, foram firmados compromissos no sentido de propor sugestões de protocolos de interação com animais, entre outras medidas.

*Matéria de Camila Henriques

Meio Ambiente

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Segundo ONG, turismo com animais silvestres pode contribuir para extinção de espécies

Aves, jacarés e macacos estão entre essas espécies, assim como os botos

Redação

jornalismo@portalamazonia.com


Faça o exercício: abra uma rede social em um sábado, domingo ou feriado e tente contar quantas pessoas vão postar uma foto alimentando um boto vermelho ou carregando um bicho-preguiça. A prática é comum para quem mora ou visita o Amazonas, mas ela não é tão inofensiva quanto parece. É o que garantem especialistas, que ainda alertam que o contato do turista com animais silvestres pode ser ruim para o animal, e até, a longo prazo, contribuir para a extinção de algumas espécies.

De acordo com o G1 Amazonas, existente há mais de 30 anos, a ONG World Animal Protection que atua em todo o mundo para erradicar a crueldade contra os animais. No Brasil, um dos focos do grupo é justamente a Amazônia e o risco do turismo com animais silvestres.

Segundo o gerente de vida silvestre da ONG, João Almeida, há o risco de que esse tipo de turismo seja, para a Amazônia, o que o de tigres e elefantes é para a Ásia, que tem registros de maus tratos em vários países.

“No primeiro momento, a gente observa uma extração com impactos individuais, mas é uma indústria massiva de turismo que depende de um fluxo bastante alto. Com essa [extração], a mortandade das espécies exploradas em um ritmo acelerado e de escala, isso vai ter um impacto de escala, efeitos mais deletérios das espécies exploradas nas regiões próximas a Manaus”, aponta.


   
Foto: Camila Henriques/Rede Amazônica
 

Ao G1, ele cita o exemplo das preguiças, cuja média de vida teve queda vertiginosa com a exposição pela indústria turística. “Elas têm sobrevivido, em média, de seis meses a um ano, enquanto que, em ambiente natural, elas vivem de 20 a 30 anos”, cita João.

Segundo João, outras espécies estão em risco, e em áreas além da região do Parque Ecológico de Janauari, onde a ONG tem visto com preocupação o turismo com animais silvestres. Aves, jacarés e macacos estão entre essas espécies, assim como os botos.

"Há o caso emblemático dos botos, que [estão naquela] oferta que, na nossa visão, é bastante predatória. Os bichos ficam expostos constantemente e alimentados artificialmente, com a aproximação de embarcações muito grandes, às vezes com 90 turistas de uma vez só. Os turistas entra, 5 a 10 pessoas de uma vez, na água. Temos também alguns registros de mordedura pelos animais nos turistas, porque os bichos ficam estressados", explica.

"Turismo responsável"

Na semana passada, a World Animal Protection reuniu com algumas empresas que operam na Amazônia para a assinatura de uma carta de compromisso. Com o documento, os grupos se comprometeram a oferecer ao público exclusivamente o que a ONG chama de turismo responsável com silvestres.

Esse turismo consiste na observação das espécies no habitat delas, segundo João. "A gente precisa aceitar o fato de que, para ver animal silvestre, a gente tem que ir para o ambiente dele, com uma postura responsável fazer o turismo silencioso em trilha, em pequenos grupos. É importante que o visitante [participe de uma] atividade de educação ambiental para aprender um pouco sobre o comportamento das espécies, inclusive, quando a atividade de observação estiver ocorrendo no ambiente do bicho, [se comportar] de maneira respeitosa, com o menor impacto possível na conservação dessas espécies", aponta.

João frisa, no entanto, que a preocupação com o turismo de exploração não pretende responsabilizar as comunidades ribeirinhas, já que muitas dependem desse trabalho para garantir seu sustento. Ele pontua que as ações têm se concentrado mais na mobilização dos turistas e da população, além de firmar diálogo com as empresas.

"Nosso trabalho jamais tem intenção de expor quem está na ponta do turismo, operando a atividade, porque são comunidades vulneráveis e que [dependem dessa] demanda para o ganha-pão, então é muito mais uma questão de trabalhar a demanda do público. O problema essencial é porque isso envolve a extração ilegal de animais da natureza, envolve a questão de tráfico - os animais são mantidos em cativeiro, em condições completamente ingratas e desumanizadas -, eles têm pouco acesso à alimentação adequada, pouco acesso a água, muitas vezes estão acorrentados, confinados em espaços completamente absurdos", enumera.


   
Foto: Camila Henriques/Rede Amazônica
 

Números da "selfie"

Um relatório da ONG mostra que 94% das excursões turísticas analisadas ofereceram a oportunidade de tocar ou segurar um animal silvestre para fotos, enquanto 77% encorajam ativamente essa experiência. No total, foram analisadas 18 empresas.

Dicas da ONG para quem quer observar animais silvestres:

Não perseguir ou capturar animais para tirar foto;
Não alimentar ou atrair animais silvestres com "iscas" para foto;
Não pagar para tirar foto com animais;

Investigação


O Parque Ecológico de Janauari é alvo de um Inquérito Civil instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF). Segundo o órgão, uma representação dá conta de que esse tipo de turismo "incentiva o tráfico e maus tratos de animais silvestres" e que "os turistas são atraídos para tirar fotos com os mesmos".

No procedimento, o Batalhão de Policiamento Ambiental do Estado do Amazonas informou que "a atividade ilegal ali exercida extrapola o campo penal alcançando a esfera social, vez que é realizada como fonte de renda dos ribeirinhos ali residentes" e que "a propaganda desenvolvida por empresas de turismo" demanda uma ação social planejada de maneira colegiada.

Em maio desse ano, uma audiência pública encaminhou a criação de um Fórum Amazonense de Fauna Silvestre e Ecoturismo. O MPF expediu ainda a Recomendação n. 06, de 01 de junho de 2018, considerando que o turismo deve valorizar a fauna, com observação de aves, turismo científico, programas de conservação e áreas de soltura conservacionista.

Segundo o MPF, a recomendação foi voltada a todas as empresas de turismo (agências) e hotelaria (meios de hospedagem) localizadas no Estado do Amazonas, constantes da lista fornecida pela Amazonastur. "O objetivo da recomendação não é punitivo, e sim de buscar soluções para regularizar o funcionamento dessa prática observando a legislação vigente em relação à proteção dos animais, ao meio ambiente e à atividade econômica do turismo", informa o órgão.

O fórum realizou reunião em agosto desse ano, com a presença de representantes de diversos segmentos envolvidos na causa, coordenada pelo MPF. O órgão explica que, a partir dessa reunião, foram firmados compromissos no sentido de propor sugestões de protocolos de interação com animais, entre outras medidas.

*Matéria de Camila Henriques

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