Cidades

Manaus: a capital dos refugiados na Amazônia brasileira

Só nos últimos meses, a capital amazonense recebeu mais de 2.600 venezuelanos que procuram na capital dias melhores


O ano de 2017 não foi um ano fácil para os venezuelanos que se viram obrigados a deixar o país de origem e buscar refúgio em outras nações, e uma delas: o Brasil.


Fugindo da fome, em meio à crise socioeconômica que a Venezuela vive, desde que o país se viu em meio a instabilidade política, violência, baixos índices econômicos, crise de abastecimento, escassez de produtos de necessidade básica, aumento da violência, além do número de mortos subindo, a busca por sobrevivência foi a saída encontrada.


Pela proximidade, as primeiras localidades em que os venezuelanos chegaram foram ao norte de Roraima, e aos poucos, alguns seguiam para outras cidades, dentre elas: Manaus. A capital amazonense recebeu, pelo menos 2.600 venezuelanos, de outubro de 2016 a outubro de 2017, segundo dados da Arquidiocese de Manaus.
  

 

 

Foto: Diego Oliveira / Portal Amazônia

 

 

Entre os venezuelanos que chegam estão os índios warao, que estão deixando as aldeias do Delta do Orinoco, no estado Delta Amacuro, nordeste da Venezuela, e seguindo por um percurso de quase mil quilômetros até chegar ao Brasil, entrando pelo estado de Roraima, e seguindo viagem para outros Estados, de acordo com o que lhes seja possível ter alimento, moradia e uma fonte mínima de renda.


Muitos deles, saindo de Roraima, pela grande quantidade dos que já se encontram instalados por lá, seguem para Manaus (AM) e encontram uma nova possibilidade de refúgio, ao passo que conquistam a documentação exigida pelo governo, como passaporte, CPF, carteira de trabalho, decidem se ficam na cidade ou continuam a jornada desbravando o Brasil, e muitos seguem, como se percebe mais recente, a chegada deles em Belém (PA).


Segundo a irmã Valdiza Carvalho, da Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Manaus, ainda é grande a demanda de venezuelanos chegando à cidade, "Neste ano de 2017, a nossa maior demanda tem sido dos venezuelanos. Desde 2015 eles começaram a vir para Manaus, devido à crise que está passando a Venezuela, em 2015, atendemos no Centro Pastoral na Igreja dos Remédios cerca de 150 venezuelanos, já em 2016, este numero passou para 481 venezuelanos. E este ano, a demanda foi bem maior, de Janeiro a Julho, já atendemos cerca de 890 venezuelanos, sem contar que em Agosto, Setembro e Outubro estamos atendendo em média de 30 pessoas por dia. Estes dados se referem apenas aos venezuelanos não indígenas", disse.
  

 

 

Foto: Diego Oliveira / Portal Amazônia

 

 

 

Para a recepção e acolhida dos warao, segundo a irmã Valdiza, além das ONGs parceiras, foi preciso o Ministério Público Federal determinar ao governo do Estado e prefeitura que se mobilizassem em prol do refugiados. "Quanto aos indígenas recebemos muito apoio da Caritas Arquidiocesana de Manaus, desde o acompanhamento de saúde, alimentação, roupas, gás e ventiladores, quando os venezuelanos ainda estavam acampados pelo Centro da cidade", relata.


Ainda segundo a irmã, mesmo depois de tantas reuniões com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) e Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), por determinação do Ministério Publico Federal, assumiram o compromisso de disponibilizar alojamentos para os indígenas.


"Isso foi feito em julho de 2017, quando o governo do Estado disponibilizou um abrigo no bairro do Coroado, zona Leste de Manaus, para 300 indígenas warao, e a prefeitura, com repasses do governo federal, abrigou mais 300 indígenas em 05 casas alugadas pelas cidade. Mas hoje a realidade dos indígenas é bem diferente, muitos forma embora, pelos últimos dados ainda tinham 281 alojados pelo Estado e Município", relatou.


Perguntada sobre as ações da pastoral e como está a aceitação dos indigenas pelos amazonenses, a irmã Valdiza afirma que "Mesmo com as dificuldades, ainda estamos ajudando muitas pessoas, e eles querem mesmo é trabalhar no Brasil e ajudar seus familiares. Hoje não percebemos a sociedade manauara receptiva com os venezuelanos, como foi com os haitianos, eles encontram muita xenofobia, muitos não querem ajudar, recebemos pouquíssimas doações. Não sei se foi pelo fato da mídia ter focado muito no negativo, mostrando os indígenas warao nas ruas, hoje eles não estão mais nas ruas, e muitos deles já estão produzindo artesanatos lindíssimos para comercializarem, e terem suas rendas", concluiu.
  

 

 

Abrigo para acolhimento aos índios warao.  (Foto: Diego Oliveira / Portal Amazônia)

 

 


Haitianos

Nos últimos anos, Manaus também recebeu muitos haitianos, desde que o país foi afetado por um terremoto em 2010. E sobre a atual situação deles, o padre Valdecir Mayes Molinari, da Pastoral relata que já não há um grande fluxo migratório deles vindo à Manaus, mas há um busca por um reencontro familiar.

 

  

 

Foto: Reprodução / Rede Amazônica

 



"De 2016 pra cá, a realidade dos haitianos se dá quando muitos deles estão vindo, provenientes de grupos que buscam por um reencontro familiar. Os que já estão instalados na cidade há algum tempo, agora recebem seus familiares, ou seja, estão vindo para um reencontro. Muitos conseguem o visto ainda no Haiti e já vem sabendo onde se instalar. O grande problema é que muitos chegam em Manaus e aqui lhes faltam o recurso para seguir à outros Estados e ficam por aqui, até que consiga o recurso e possa seguir a viagem, ou seja, com a perspectiva de uma migração direta para o grupamento familiar", disse.


Mesmo com um número menor de haitianos na cidade, a Pastoral continua fazendo a acolhida aos que chegam, " nosso primeiro trabalho é a acolhida, desses que buscam local para se estabelecerem por um período. Além de ajudarmos com a documentação deles, fornecemos aulas de Português, e através de parceiros os engajamos no mercado de trabalho local. Hoje, por exemplo, na nossa paróquia tem uma fábrica de picolés, e muitos deles estão empenhados em desenvolver um trabalho lá. Outros vendem banana, água e verduras, dentre outras coisas. Penso que temos pelo menos, 250 haitianos trabalhando de forma informal em Manaus", completou.
 

Notas

Por telefone, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) da Prefeitura de Manaus informa que continua atendendo aos indigenas em um dos 5 abrigos que mantém, prestando o atendimento médico, alimentação e higiene.


E após inúmeras tentativas de contato, por e-mail e telefone, a Secretaria de Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc) do governo do Estado, não respondeu as solicitações.


Cidades

Manaus: a capital dos refugiados na Amazônia brasileira

Só nos últimos meses, a capital amazonense recebeu mais de 2.600 venezuelanos que procuram na capital dias melhores

William Costa

william.costa@portalamazonia.com


O ano de 2017 não foi um ano fácil para os venezuelanos que se viram obrigados a deixar o país de origem e buscar refúgio em outras nações, e uma delas: o Brasil.


Fugindo da fome, em meio à crise socioeconômica que a Venezuela vive, desde que o país se viu em meio a instabilidade política, violência, baixos índices econômicos, crise de abastecimento, escassez de produtos de necessidade básica, aumento da violência, além do número de mortos subindo, a busca por sobrevivência foi a saída encontrada.


Pela proximidade, as primeiras localidades em que os venezuelanos chegaram foram ao norte de Roraima, e aos poucos, alguns seguiam para outras cidades, dentre elas: Manaus. A capital amazonense recebeu, pelo menos 2.600 venezuelanos, de outubro de 2016 a outubro de 2017, segundo dados da Arquidiocese de Manaus.
  

 

 

Foto: Diego Oliveira / Portal Amazônia

 

 

Entre os venezuelanos que chegam estão os índios warao, que estão deixando as aldeias do Delta do Orinoco, no estado Delta Amacuro, nordeste da Venezuela, e seguindo por um percurso de quase mil quilômetros até chegar ao Brasil, entrando pelo estado de Roraima, e seguindo viagem para outros Estados, de acordo com o que lhes seja possível ter alimento, moradia e uma fonte mínima de renda.


Muitos deles, saindo de Roraima, pela grande quantidade dos que já se encontram instalados por lá, seguem para Manaus (AM) e encontram uma nova possibilidade de refúgio, ao passo que conquistam a documentação exigida pelo governo, como passaporte, CPF, carteira de trabalho, decidem se ficam na cidade ou continuam a jornada desbravando o Brasil, e muitos seguem, como se percebe mais recente, a chegada deles em Belém (PA).


Segundo a irmã Valdiza Carvalho, da Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Manaus, ainda é grande a demanda de venezuelanos chegando à cidade, "Neste ano de 2017, a nossa maior demanda tem sido dos venezuelanos. Desde 2015 eles começaram a vir para Manaus, devido à crise que está passando a Venezuela, em 2015, atendemos no Centro Pastoral na Igreja dos Remédios cerca de 150 venezuelanos, já em 2016, este numero passou para 481 venezuelanos. E este ano, a demanda foi bem maior, de Janeiro a Julho, já atendemos cerca de 890 venezuelanos, sem contar que em Agosto, Setembro e Outubro estamos atendendo em média de 30 pessoas por dia. Estes dados se referem apenas aos venezuelanos não indígenas", disse.
  

 

 

Foto: Diego Oliveira / Portal Amazônia

 

 

 

Para a recepção e acolhida dos warao, segundo a irmã Valdiza, além das ONGs parceiras, foi preciso o Ministério Público Federal determinar ao governo do Estado e prefeitura que se mobilizassem em prol do refugiados. "Quanto aos indígenas recebemos muito apoio da Caritas Arquidiocesana de Manaus, desde o acompanhamento de saúde, alimentação, roupas, gás e ventiladores, quando os venezuelanos ainda estavam acampados pelo Centro da cidade", relata.


Ainda segundo a irmã, mesmo depois de tantas reuniões com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) e Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), por determinação do Ministério Publico Federal, assumiram o compromisso de disponibilizar alojamentos para os indígenas.


"Isso foi feito em julho de 2017, quando o governo do Estado disponibilizou um abrigo no bairro do Coroado, zona Leste de Manaus, para 300 indígenas warao, e a prefeitura, com repasses do governo federal, abrigou mais 300 indígenas em 05 casas alugadas pelas cidade. Mas hoje a realidade dos indígenas é bem diferente, muitos forma embora, pelos últimos dados ainda tinham 281 alojados pelo Estado e Município", relatou.


Perguntada sobre as ações da pastoral e como está a aceitação dos indigenas pelos amazonenses, a irmã Valdiza afirma que "Mesmo com as dificuldades, ainda estamos ajudando muitas pessoas, e eles querem mesmo é trabalhar no Brasil e ajudar seus familiares. Hoje não percebemos a sociedade manauara receptiva com os venezuelanos, como foi com os haitianos, eles encontram muita xenofobia, muitos não querem ajudar, recebemos pouquíssimas doações. Não sei se foi pelo fato da mídia ter focado muito no negativo, mostrando os indígenas warao nas ruas, hoje eles não estão mais nas ruas, e muitos deles já estão produzindo artesanatos lindíssimos para comercializarem, e terem suas rendas", concluiu.
  

 

 

Abrigo para acolhimento aos índios warao.  (Foto: Diego Oliveira / Portal Amazônia)

 

 


Haitianos

Nos últimos anos, Manaus também recebeu muitos haitianos, desde que o país foi afetado por um terremoto em 2010. E sobre a atual situação deles, o padre Valdecir Mayes Molinari, da Pastoral relata que já não há um grande fluxo migratório deles vindo à Manaus, mas há um busca por um reencontro familiar.

 

  

 

Foto: Reprodução / Rede Amazônica

 



"De 2016 pra cá, a realidade dos haitianos se dá quando muitos deles estão vindo, provenientes de grupos que buscam por um reencontro familiar. Os que já estão instalados na cidade há algum tempo, agora recebem seus familiares, ou seja, estão vindo para um reencontro. Muitos conseguem o visto ainda no Haiti e já vem sabendo onde se instalar. O grande problema é que muitos chegam em Manaus e aqui lhes faltam o recurso para seguir à outros Estados e ficam por aqui, até que consiga o recurso e possa seguir a viagem, ou seja, com a perspectiva de uma migração direta para o grupamento familiar", disse.


Mesmo com um número menor de haitianos na cidade, a Pastoral continua fazendo a acolhida aos que chegam, " nosso primeiro trabalho é a acolhida, desses que buscam local para se estabelecerem por um período. Além de ajudarmos com a documentação deles, fornecemos aulas de Português, e através de parceiros os engajamos no mercado de trabalho local. Hoje, por exemplo, na nossa paróquia tem uma fábrica de picolés, e muitos deles estão empenhados em desenvolver um trabalho lá. Outros vendem banana, água e verduras, dentre outras coisas. Penso que temos pelo menos, 250 haitianos trabalhando de forma informal em Manaus", completou.
 

Notas

Por telefone, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) da Prefeitura de Manaus informa que continua atendendo aos indigenas em um dos 5 abrigos que mantém, prestando o atendimento médico, alimentação e higiene.


E após inúmeras tentativas de contato, por e-mail e telefone, a Secretaria de Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc) do governo do Estado, não respondeu as solicitações.

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