Mazé Mourão

Recordando o 'Seo' Pires

Mazé Mourão

mazemanaus@gmail.com


Quando cheguei no jornal – é assim em todos os lugares em que as pessoas são novatas -  fui logo avisada: “O seo Pires é fogo na roupa. Tudo tem que falar com ele. Nada aqui pode fazer sem o seu consentimento...”. E por aí foram as recomendações. Claro que, como não seria diferente, fiquei curiosíssima para conhecer o tão famoso Pires que, segundo as línguas experientes, ai de quem ousasse sair do riscado, a reprimenda era para valer, podia acreditar.

Até que uma semana depois surgiu uma viagem e eu teria que solicitar diária. Tinha que ir na sala do seo Pires e solicitar a tal quantia. E veio aquela voz do final da redação: “Coragem. Te benze, colega”.  Respirei fundo e fui enfrentar o responsável por todos aqueles comentários.

Quando entrei, dei de cara com um senhor de estatura mediana, usando uma camisa ‘Polo’ e sorriso tímido. Ele foi dizendo: “Tu sabes com quem eu sou casado?” E, antes que eu respondesse, revelou: “Sou marido da Maria José de Macedo Mendes”. Pronto. A Maria José é irmã da Maria do Perpétuo Socorro de Macedo Mendes, minha primeira professora, quem me alfabetizou no Colégio São Francisco de Assis.

O papo fluiu para idos tempos, entremeado de gargalhadas, boas e inesquecíveis lembranças. E aquele homem, que pintaram o escambau, se tornou um amigo querido, entendendo as necessidades da minha editoria. Fez um jantar em sua residência para que eu pudesse rever a família Macedo Mendes. Foi maravilhoso! Pires passou a conhecer as minhas predileções gastronômicas e, claro, meu gosto por bebidas destiladas. Se tornou meu protetor, também.

Naquele tempo, a redação elegeu a ‘Quinta-Feira do Poste’. Dia de fechamento tarde e era no poste onde que, quem saia daquela parafernália de cadernos, parava para tomar uma bem gelada e, vez por outra, descer a ladeira para o forró.

Abre parêntese: depois conto a história do poste, calma, não vou citar nomes. Fecha parêntese. Em uma dessas noitadas, eu completamente atrasada, não conseguia chegar na reunião jornalística fora do trabalho. Foi quando, na sexta-feira fui chamada na sala do diretor João Bosco Araújo. Lá chegando, encontrei seo Pires.

João Bosco abriu o verbo: “O segurança registrou que subiu uma cerveja para você, Mazé, lá pela meia-noite. Você confirma?”. Antes que eu dissesse um ‘a’, Pires, com sua voz rouca, grave, fez a minha defesa inconteste: “Já falei para o professor! A senhora não gosta de cerveja. Eu sei! Só gosta de uísque e 12 anos. Já tomou na minha casa!”. Dei uma gargalhada (naquele tempo, gargalhar não era falta de respeito) e, para salvar a pele de quem tinha pedido a ‘loura gelada’, confirmei: “Juro, professor, peço desculpas, não faço mais isso. E seo Pires, obrigada, o senhor sabe, realmente, a minha predileção por bebidas secas”!

Assim era seo Pires. Um homem correto, ético, digno e amigo. As minhas homenagens e saudade. Beijo e meus sentimentos, querida Maria José Pires. Até.

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Recordando o 'Seo' Pires

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Quando cheguei no jornal – é assim em todos os lugares em que as pessoas são novatas -  fui logo avisada: “O seo Pires é fogo na roupa. Tudo tem que falar com ele. Nada aqui pode fazer sem o seu consentimento...”. E por aí foram as recomendações. Claro que, como não seria diferente, fiquei curiosíssima para conhecer o tão famoso Pires que, segundo as línguas experientes, ai de quem ousasse sair do riscado, a reprimenda era para valer, podia acreditar.

Até que uma semana depois surgiu uma viagem e eu teria que solicitar diária. Tinha que ir na sala do seo Pires e solicitar a tal quantia. E veio aquela voz do final da redação: “Coragem. Te benze, colega”.  Respirei fundo e fui enfrentar o responsável por todos aqueles comentários.

Quando entrei, dei de cara com um senhor de estatura mediana, usando uma camisa ‘Polo’ e sorriso tímido. Ele foi dizendo: “Tu sabes com quem eu sou casado?” E, antes que eu respondesse, revelou: “Sou marido da Maria José de Macedo Mendes”. Pronto. A Maria José é irmã da Maria do Perpétuo Socorro de Macedo Mendes, minha primeira professora, quem me alfabetizou no Colégio São Francisco de Assis.

O papo fluiu para idos tempos, entremeado de gargalhadas, boas e inesquecíveis lembranças. E aquele homem, que pintaram o escambau, se tornou um amigo querido, entendendo as necessidades da minha editoria. Fez um jantar em sua residência para que eu pudesse rever a família Macedo Mendes. Foi maravilhoso! Pires passou a conhecer as minhas predileções gastronômicas e, claro, meu gosto por bebidas destiladas. Se tornou meu protetor, também.

Naquele tempo, a redação elegeu a ‘Quinta-Feira do Poste’. Dia de fechamento tarde e era no poste onde que, quem saia daquela parafernália de cadernos, parava para tomar uma bem gelada e, vez por outra, descer a ladeira para o forró.

Abre parêntese: depois conto a história do poste, calma, não vou citar nomes. Fecha parêntese. Em uma dessas noitadas, eu completamente atrasada, não conseguia chegar na reunião jornalística fora do trabalho. Foi quando, na sexta-feira fui chamada na sala do diretor João Bosco Araújo. Lá chegando, encontrei seo Pires.

João Bosco abriu o verbo: “O segurança registrou que subiu uma cerveja para você, Mazé, lá pela meia-noite. Você confirma?”. Antes que eu dissesse um ‘a’, Pires, com sua voz rouca, grave, fez a minha defesa inconteste: “Já falei para o professor! A senhora não gosta de cerveja. Eu sei! Só gosta de uísque e 12 anos. Já tomou na minha casa!”. Dei uma gargalhada (naquele tempo, gargalhar não era falta de respeito) e, para salvar a pele de quem tinha pedido a ‘loura gelada’, confirmei: “Juro, professor, peço desculpas, não faço mais isso. E seo Pires, obrigada, o senhor sabe, realmente, a minha predileção por bebidas secas”!

Assim era seo Pires. Um homem correto, ético, digno e amigo. As minhas homenagens e saudade. Beijo e meus sentimentos, querida Maria José Pires. Até.

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