Mazé Mourão

Leites e lembranças

Mazé Mourão

mazemanaus@gmail.com


O primeiro leite que tenho lembrança, o materno seria óbvio, é o que meu primo, Nizard Pedrosa Filho buscava no Roadway, em uma vasilha de alumínio. O líquido, que vinha do Careiro, era disputadíssimo. Às vezes, ‘Nizarzinho’ parava no meio do caminho para entrar no cine Pollyteama (ele era aficionado por filmes), chegava tarde na entrega e, para a dona Leonor não perceber a falta, o primo completava com água.

Mas, minha mãe tinha expertise (para usar uma palavra moderna) na textura do líquido branco. O tempo fechava, era um falatório sem fim, até o dia seguinte. Mas, Nizard não queria perder o posto, era uma maneira de se sentir ‘o maioral’ e aguentava a reprimenda em silêncio.

Depois, algo veio do Reino Americano! Chegou um leite em pó, como colaboração para o Colégio São Francisco de Assis, fato comemorado pelos meus pais, pois seria de grande ajuda na alimentação dos internos e semi-internos, entre os quais eram incluídos os cinco filhos do professor Fueth e dona Leonor. Não suportava o aroma, o sabor, a textura. Nada. Coisa mais terrível, sinceramente. Quando colocado na massa do bolo, era um Jesus nos acuda, acabava com o gosto da iguaria.
       
Foto:Reprodução/Shutterstock
 
Aí, veio o dinamarquês Leite Sander (acho que é assim que se escreve), em uma lata azul, linda e era vendido na Booth Line, tempos de Zona Franca, supermercado que, pela primeira vez vi picolé com camisinha e palavras em inglês, em uma grande geladeira horizontal. E o sabor do leite? Mediano. Tinha uma característica: engordava para caramba. Existe, segundo uma querida amiga, uma geração bonita criada a leite Sander! Salve!

Mas, foi quando descobri, ainda bem dizer uma menina pequena, o Leite Ninho. Gente, me apeguei. Total. A lata menor, com abertura em um alumínio fininho brilhante e o melhor, a ‘medida’ era uma panelinha com cabinho e tudo. Apeguei completamente. Tinha várias. Brincava de cozinhar para as bonecas. E o gosto? Gente, até hoje, para me acalmar, vou na cozinha, de madrugada e, em vez de comer um doce ou chocolate, abro o meu Ninho, que não tem mais medidor, mas não importa, coloco na boca uma colher de sopa recheada com o leite...que gruda no céu da boca e, lentamente, vai soltando o pó delicioso. Durmo em paz.

Tudo isso para explicar que vou sair do leite integral para o desnatado. Estou desolada. Jurei ao meu cardiologista que diminuiria a quantidade de Ninho ingerida, não iria mais na calada da noite fazer estripulias na cozinha, mas, não vai ter negociação. Acho que voltei aos tempos do leite que chegava como ajuda para os países em desenvolvimento. Até. 

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O primeiro leite que tenho lembrança, o materno seria óbvio, é o que meu primo, Nizard Pedrosa Filho buscava no Roadway, em uma vasilha de alumínio. O líquido, que vinha do Careiro, era disputadíssimo. Às vezes, ‘Nizarzinho’ parava no meio do caminho para entrar no cine Pollyteama (ele era aficionado por filmes), chegava tarde na entrega e, para a dona Leonor não perceber a falta, o primo completava com água.

Mas, minha mãe tinha expertise (para usar uma palavra moderna) na textura do líquido branco. O tempo fechava, era um falatório sem fim, até o dia seguinte. Mas, Nizard não queria perder o posto, era uma maneira de se sentir ‘o maioral’ e aguentava a reprimenda em silêncio.

Depois, algo veio do Reino Americano! Chegou um leite em pó, como colaboração para o Colégio São Francisco de Assis, fato comemorado pelos meus pais, pois seria de grande ajuda na alimentação dos internos e semi-internos, entre os quais eram incluídos os cinco filhos do professor Fueth e dona Leonor. Não suportava o aroma, o sabor, a textura. Nada. Coisa mais terrível, sinceramente. Quando colocado na massa do bolo, era um Jesus nos acuda, acabava com o gosto da iguaria.
       
Foto:Reprodução/Shutterstock
 
Aí, veio o dinamarquês Leite Sander (acho que é assim que se escreve), em uma lata azul, linda e era vendido na Booth Line, tempos de Zona Franca, supermercado que, pela primeira vez vi picolé com camisinha e palavras em inglês, em uma grande geladeira horizontal. E o sabor do leite? Mediano. Tinha uma característica: engordava para caramba. Existe, segundo uma querida amiga, uma geração bonita criada a leite Sander! Salve!

Mas, foi quando descobri, ainda bem dizer uma menina pequena, o Leite Ninho. Gente, me apeguei. Total. A lata menor, com abertura em um alumínio fininho brilhante e o melhor, a ‘medida’ era uma panelinha com cabinho e tudo. Apeguei completamente. Tinha várias. Brincava de cozinhar para as bonecas. E o gosto? Gente, até hoje, para me acalmar, vou na cozinha, de madrugada e, em vez de comer um doce ou chocolate, abro o meu Ninho, que não tem mais medidor, mas não importa, coloco na boca uma colher de sopa recheada com o leite...que gruda no céu da boca e, lentamente, vai soltando o pó delicioso. Durmo em paz.

Tudo isso para explicar que vou sair do leite integral para o desnatado. Estou desolada. Jurei ao meu cardiologista que diminuiria a quantidade de Ninho ingerida, não iria mais na calada da noite fazer estripulias na cozinha, mas, não vai ter negociação. Acho que voltei aos tempos do leite que chegava como ajuda para os países em desenvolvimento. Até. 

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