Flávio Lauria

Reflexão sem televisão


Foto:Reprodução/Shutterstock
 
Queria propor às pessoas pelo menos de Manaus e do Brasil, que desliguem as suas televisões por uma semana no ano e tentem refletir sobre a vida ansiosa e apressada que vivem. Uma semana inteira sem notícia, novela, reality show, futebol, propaganda, nada. Esqueçam-se, que a televisão existe e promete colocá-los a par com o Mundo a todo instante durante todo o dia.

Acredito que uma semana sem televisão pode mudar a vida das pessoas, revelando a elas outras formas de viver e, nos casos mais dolorosos, o quanto a vida tornou-se vazia e enfadonha com as tantas horas de televisão que aceitamos, submetidos à ditadura da imediaticidade.

Não estou convencido que poderemos refletir sobre a vida, mas concordo que uma semana sem televisão pode levar as pessoas a uma reflexão sobre o que fazer com o tempo disponível. Há uma pesquisa do professor Jeffrey Johnson, da Universidade de Colúmbia, publicada na Science, em que mostra a acentuada relação entre a programação da televisão e o comportamento violento de quem a assiste, crianças e adultos.

Antes de falar da programação da televisão, ou condenar a televisão como meio de comunicação perverso, manipulador e invasor de privacidades, imaginei que há por trás desse plano de agonizar as mentes e colocá-las merce da propagação de idéias desagregadoras, um componente ideológico, ditado pelo mercado: a audiência.

Tudo é medido pela quantidade de gente que está vendo e pouco se discute sobre o que é visto. Se muita gente está assistindo, então continua, e imagina-se que, justo porque muita gente está assistindo, deve haver uma razão de identificação.

Só me pergunto o que leva um povo, considerado cordial e humilde, a querer ver tanta violência, imersão na privacidade alheia e mergulhar em provas de desafios onde prevalecem o grotesco e a animalidade. A primeira resposta me parece conhecida: estar na mídia implica ser cultuado como celebridade e esta condição leva à riqueza.

Só me pergunto se os produtores populistas, captadores do desejo e dos anseios populares, no uso de suas arbitrárias intuições do que tanto quer ver o povo, não poderiam tentar algo menos próximo das necessidades básicas do ser humano.

Desligar a televisão por uma semana é fazer a audiência cair, é colocar uma chaga de contestação nas programações. Mas, espere aí, por favor: na programação da televisão também há momentos de entendimento do mundo onde vivemos de uma maneira menos caótica.

Talvez não precisemos desligar a televisão, mas escolher o que queremos ou não ver e decidir o quanto necessitamos estar vidrados por dia, colocando em xeque “Madame Audiência”. Quem sabe, desligando por uma semana, dê para arrumar a cabeça.

Flávio Lauria

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Reflexão sem televisão

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


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Queria propor às pessoas pelo menos de Manaus e do Brasil, que desliguem as suas televisões por uma semana no ano e tentem refletir sobre a vida ansiosa e apressada que vivem. Uma semana inteira sem notícia, novela, reality show, futebol, propaganda, nada. Esqueçam-se, que a televisão existe e promete colocá-los a par com o Mundo a todo instante durante todo o dia.

Acredito que uma semana sem televisão pode mudar a vida das pessoas, revelando a elas outras formas de viver e, nos casos mais dolorosos, o quanto a vida tornou-se vazia e enfadonha com as tantas horas de televisão que aceitamos, submetidos à ditadura da imediaticidade.

Não estou convencido que poderemos refletir sobre a vida, mas concordo que uma semana sem televisão pode levar as pessoas a uma reflexão sobre o que fazer com o tempo disponível. Há uma pesquisa do professor Jeffrey Johnson, da Universidade de Colúmbia, publicada na Science, em que mostra a acentuada relação entre a programação da televisão e o comportamento violento de quem a assiste, crianças e adultos.

Antes de falar da programação da televisão, ou condenar a televisão como meio de comunicação perverso, manipulador e invasor de privacidades, imaginei que há por trás desse plano de agonizar as mentes e colocá-las merce da propagação de idéias desagregadoras, um componente ideológico, ditado pelo mercado: a audiência.

Tudo é medido pela quantidade de gente que está vendo e pouco se discute sobre o que é visto. Se muita gente está assistindo, então continua, e imagina-se que, justo porque muita gente está assistindo, deve haver uma razão de identificação.

Só me pergunto o que leva um povo, considerado cordial e humilde, a querer ver tanta violência, imersão na privacidade alheia e mergulhar em provas de desafios onde prevalecem o grotesco e a animalidade. A primeira resposta me parece conhecida: estar na mídia implica ser cultuado como celebridade e esta condição leva à riqueza.

Só me pergunto se os produtores populistas, captadores do desejo e dos anseios populares, no uso de suas arbitrárias intuições do que tanto quer ver o povo, não poderiam tentar algo menos próximo das necessidades básicas do ser humano.

Desligar a televisão por uma semana é fazer a audiência cair, é colocar uma chaga de contestação nas programações. Mas, espere aí, por favor: na programação da televisão também há momentos de entendimento do mundo onde vivemos de uma maneira menos caótica.

Talvez não precisemos desligar a televisão, mas escolher o que queremos ou não ver e decidir o quanto necessitamos estar vidrados por dia, colocando em xeque “Madame Audiência”. Quem sabe, desligando por uma semana, dê para arrumar a cabeça.

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