Flávio Lauria

Ode ao papel


 

 

Foto:Reprodução/Shutterstock

 

Se eu fosse poeta escreveria uma ode ao papel para homenagear esse humilíssimo suporte de toda a sabedoria do mundo. Ninguém se lembra, nunca, de agradecê-lo virtualmente pelos serviços que vem prestando há pelo menos 500 anos, desde a invenção da imprensa, que permitiu a multiplicação de exemplares. Perecível, mas resistente ao tempo e ao maltrato, ele veio se especializando à medida que foi preciso estender mais o seu emprego na evolução de artes e ofícios.

Todas as ideias, as descobertas, as invenções, os acontecimentos históricos e as necessidades emocionais que levam o homem a externar suas paixões e seus sentimentos estão lá, repousando nas superfícies silenciosas de páginas inseridas nos milhões de livros que já foram produzidos no mundo. E nos documentos de toda espécie e tamanho, desde os privados até os públicos, usando os mais variados processos de escrita e reprodução de imagens.

Glorioso. Glorioso papel, inerte e obediente que, até ontem, supria todas as necessidades de registro a serem guardadas na nossa memória ou enviadas para memórias distantes. Glorioso papel, cuja morte iminente foi preconizada com o surgimento da fabulosa mágica da informática, cujos poderes e dinâmica despachariam o inocente neto do papiro para a idade da pedra.

Mas, por enquanto não aconteceu quase nada disso. Digo quase porque a produção de impressos sobre papel se vale bastante, hoje, dos recursos comandados pelos teclados dos computadores e pela transferência de imagens. Mas o humilde e centenário papel continua silencioso e, ao que parece, usado agora em maior quantidade, dando conta das nossas exigências. Até quando? Talvez até o dia – pode-se esperar de tudo da criatividade humana – em que não haverá mais necessidade de ler e escrever. Uma comunicação direta entre neurônios dispensará qualquer outro sistema de comunicação. E os papéis com assinaturas e carimbos, que conviveram com a história inicial da comunicação eletrônica já serão peças de museu (virtual, obviamente).

Por enquanto você precisa ainda de um pedaço de papel que diga que você nasceu e, outro, que você morreu, senão você não existiu na face da Terra. Glorioso papel, que já foi um dos primeiros recursos para a criação do veículo chamado jornal. Um tímido suporte que se prestou, desde a fase embrionária, a gravar em suas superfícies as informações e as opiniões que alimentaram e eram alimentadas pela sucessão de fatos e ideias que desenharam a história do mundo.

Um veículo que resistiu a todas as ameaças de extinção. Talvez porque tenha o charme irresistível de uma bela mulher, que não envelhece e nunca perde seus encantos. Mas todos nós sabemos – eu, você leitor, e um monte de gente que nos circunda – que somos viciados, dependentes do nosso exemplar matutino, que nos predispõe para atravessar o dia. Se, por ventura, você estiver lendo esta crônica, cujo berço é um pedaço de papel, talvez fique curioso por saber como ela se ajeitou neste espaço.

É muito simples (ou milagroso?): eu escrevi o texto digitando em um computador, daí, pelo éter, com a velocidade do pensamento, foi transferido para um computador dos blogs, do face e do Em Tempo, entrando no processo de produção que imprimiu o exemplar que está na sua mão.


Flávio Lauria

Ode ao papel

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


 

 

Foto:Reprodução/Shutterstock

 

Se eu fosse poeta escreveria uma ode ao papel para homenagear esse humilíssimo suporte de toda a sabedoria do mundo. Ninguém se lembra, nunca, de agradecê-lo virtualmente pelos serviços que vem prestando há pelo menos 500 anos, desde a invenção da imprensa, que permitiu a multiplicação de exemplares. Perecível, mas resistente ao tempo e ao maltrato, ele veio se especializando à medida que foi preciso estender mais o seu emprego na evolução de artes e ofícios.

Todas as ideias, as descobertas, as invenções, os acontecimentos históricos e as necessidades emocionais que levam o homem a externar suas paixões e seus sentimentos estão lá, repousando nas superfícies silenciosas de páginas inseridas nos milhões de livros que já foram produzidos no mundo. E nos documentos de toda espécie e tamanho, desde os privados até os públicos, usando os mais variados processos de escrita e reprodução de imagens.

Glorioso. Glorioso papel, inerte e obediente que, até ontem, supria todas as necessidades de registro a serem guardadas na nossa memória ou enviadas para memórias distantes. Glorioso papel, cuja morte iminente foi preconizada com o surgimento da fabulosa mágica da informática, cujos poderes e dinâmica despachariam o inocente neto do papiro para a idade da pedra.

Mas, por enquanto não aconteceu quase nada disso. Digo quase porque a produção de impressos sobre papel se vale bastante, hoje, dos recursos comandados pelos teclados dos computadores e pela transferência de imagens. Mas o humilde e centenário papel continua silencioso e, ao que parece, usado agora em maior quantidade, dando conta das nossas exigências. Até quando? Talvez até o dia – pode-se esperar de tudo da criatividade humana – em que não haverá mais necessidade de ler e escrever. Uma comunicação direta entre neurônios dispensará qualquer outro sistema de comunicação. E os papéis com assinaturas e carimbos, que conviveram com a história inicial da comunicação eletrônica já serão peças de museu (virtual, obviamente).

Por enquanto você precisa ainda de um pedaço de papel que diga que você nasceu e, outro, que você morreu, senão você não existiu na face da Terra. Glorioso papel, que já foi um dos primeiros recursos para a criação do veículo chamado jornal. Um tímido suporte que se prestou, desde a fase embrionária, a gravar em suas superfícies as informações e as opiniões que alimentaram e eram alimentadas pela sucessão de fatos e ideias que desenharam a história do mundo.

Um veículo que resistiu a todas as ameaças de extinção. Talvez porque tenha o charme irresistível de uma bela mulher, que não envelhece e nunca perde seus encantos. Mas todos nós sabemos – eu, você leitor, e um monte de gente que nos circunda – que somos viciados, dependentes do nosso exemplar matutino, que nos predispõe para atravessar o dia. Se, por ventura, você estiver lendo esta crônica, cujo berço é um pedaço de papel, talvez fique curioso por saber como ela se ajeitou neste espaço.

É muito simples (ou milagroso?): eu escrevi o texto digitando em um computador, daí, pelo éter, com a velocidade do pensamento, foi transferido para um computador dos blogs, do face e do Em Tempo, entrando no processo de produção que imprimiu o exemplar que está na sua mão.

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