Flávio Lauria

O medo


Foto:Reprodução/Shutterstock
    O medo, transformado em pânico, ajudou a destruir Cartago. O medo, transformado em pânico, pode acabar com o que resta de civilização.

Se o medo não for derrotado, os terroristas, mesmo que tenham morrido todos, já terão vencido a guerra. Ao tratar, em um de seus ensaios, do medo que se apossou de Cartago, Montaigne o descreve como "une merveilleuse desolation", uma desolação sobrenatural.

Diante do medo, destaca o grande pensador, até a morte é mais suave: para dele fugir, os homens enforcam-se, envenenam-se, afogam-se.

Ou buscam o abismo, como, no desespero, acossados pelo fogo, muitos saltaram do alto das torres de Nova York. Atribuem a César (e o que não lhe atribuem?) a frase forte contra o medo, quando o advertiram dos sinais aziagos de seu último dia: o homem de coragem morre uma só vez; o covarde, muitas vezes.

No Brasil, especificamente, a nova fase de modernização capitalista teve impactos consideráveis sobre a vulnerabilidade social urbana.

O tráfico territorializado de drogas avançou, criando localidades praticamente fora do controle do Estado.

O aumento das desigualdades sociais configurou uma crise de grande envergadura que contribuiu para a deterioração das relações de sociabilidade e de confiança, ampliando a segregação e o medo. A nós, brasileiros, bastam-nos os nossos próprios e bem instalados medos.

Há muitos anos que convivemos com o medo das ruas, o medo da noite, o medo das esquinas, o medo até mesmo de nossos guardiães, oficiais ou privados - além do medo do desemprego, que apavora mais do que a morte (muitos são os desempregados que se suicidam), o medo da fome, o medo da miséria. Em alguma coisa, no entanto, o medo é justo: ele atinge ricos e pobres, embora atinja mais os pobres do que os ricos.

Os pobres não podem pagar seguranças nem erguer altas muralhas em torno de seus barracos; estão impedidos de blindar seus carrinhos, quando os têm; devem enfrentar a viagem nos ônibus sujeitos aos assaltos todos os dias, a caminho do trabalho e de volta a casa. No trabalho dependem do humor de seus capatazes, e amanhecem, a cada dia, sob o medo de receber o aviso prévio de dispensa.

Mas os ricos também se apavoram: sua fortuna, sua opulência, sua soberba são também orgulhosas torres, alvos visíveis e atraentes. O presidente da República ao decretar intervenção federal na área de segurança do Rio de Janeiro, fez mais uma bravata, não será o exercito com tempo determinado que irá acabar com a bandidagem do Rio e consequentemente com o medo da população.

Em Manaus, não há um dia sequer em que não haja pelo menos dois homicídios e um numero incalculável de assaltos em ônibus e ruas. Hoje não há quem saia de casa com o medo de não retornar.

Flávio Lauria

Home > Articulistas > Flavio-lauria

O medo

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Foto:Reprodução/Shutterstock
    O medo, transformado em pânico, ajudou a destruir Cartago. O medo, transformado em pânico, pode acabar com o que resta de civilização.

Se o medo não for derrotado, os terroristas, mesmo que tenham morrido todos, já terão vencido a guerra. Ao tratar, em um de seus ensaios, do medo que se apossou de Cartago, Montaigne o descreve como "une merveilleuse desolation", uma desolação sobrenatural.

Diante do medo, destaca o grande pensador, até a morte é mais suave: para dele fugir, os homens enforcam-se, envenenam-se, afogam-se.

Ou buscam o abismo, como, no desespero, acossados pelo fogo, muitos saltaram do alto das torres de Nova York. Atribuem a César (e o que não lhe atribuem?) a frase forte contra o medo, quando o advertiram dos sinais aziagos de seu último dia: o homem de coragem morre uma só vez; o covarde, muitas vezes.

No Brasil, especificamente, a nova fase de modernização capitalista teve impactos consideráveis sobre a vulnerabilidade social urbana.

O tráfico territorializado de drogas avançou, criando localidades praticamente fora do controle do Estado.

O aumento das desigualdades sociais configurou uma crise de grande envergadura que contribuiu para a deterioração das relações de sociabilidade e de confiança, ampliando a segregação e o medo. A nós, brasileiros, bastam-nos os nossos próprios e bem instalados medos.

Há muitos anos que convivemos com o medo das ruas, o medo da noite, o medo das esquinas, o medo até mesmo de nossos guardiães, oficiais ou privados - além do medo do desemprego, que apavora mais do que a morte (muitos são os desempregados que se suicidam), o medo da fome, o medo da miséria. Em alguma coisa, no entanto, o medo é justo: ele atinge ricos e pobres, embora atinja mais os pobres do que os ricos.

Os pobres não podem pagar seguranças nem erguer altas muralhas em torno de seus barracos; estão impedidos de blindar seus carrinhos, quando os têm; devem enfrentar a viagem nos ônibus sujeitos aos assaltos todos os dias, a caminho do trabalho e de volta a casa. No trabalho dependem do humor de seus capatazes, e amanhecem, a cada dia, sob o medo de receber o aviso prévio de dispensa.

Mas os ricos também se apavoram: sua fortuna, sua opulência, sua soberba são também orgulhosas torres, alvos visíveis e atraentes. O presidente da República ao decretar intervenção federal na área de segurança do Rio de Janeiro, fez mais uma bravata, não será o exercito com tempo determinado que irá acabar com a bandidagem do Rio e consequentemente com o medo da população.

Em Manaus, não há um dia sequer em que não haja pelo menos dois homicídios e um numero incalculável de assaltos em ônibus e ruas. Hoje não há quem saia de casa com o medo de não retornar.

TAG violenciacidadeartigoarticulistaFlavio Lauria

ÚLTIMAS NOTÍCIAS
VOCÊ VIU ?
TV