Flávio Lauria

Mãos

Quantas vezes escutamos a velha frase: quero ver e olhar as suas mãos. Em cada uma das mãos encontramos algo original no tipo, no formato e nos fins que têm em vista


Os símbolos criam o contraste poético na história dos homens. Dessa vez as mãos assumem um protagonismo especial. Quando D. Pedro desembainhou sua espada com suas mãos e gritou “Independência ou Morte!”, estava sendo protagonista da revolta pelo desgaste do sistema econômico, com restrições e altos impostos, exercido pela Coroa Portuguesa no Brasil.

Quantas vezes escutamos a velha frase: quero ver e olhar as suas mãos. Em cada uma das mãos encontramos algo original no tipo, no formato e nos fins que têm em vista: há mãos carregadas de um lirismo ingênuo, há mãos que serpenteiam, gesticulam, criam e falam, há mãos verdadeiras, acolhedoras e reflexivas. Mas há também mãos cruéis, dominadoras e assassinas fazendo o contraponto com as mãos calejadas pelo trabalho e demasiado sujas com as dores ou desgraças do mundo. Todas as mãos deveriam ser profundamente assépticas.

Exatamente como as mãos de um cirurgião no instante em que apanha o bisturi para salvar uma vida. Afirmou certa vez Charles Péguy que Kant só possuía mãos limpas porque era privado de mãos. Estava errado o poeta. Até porque as mãos assumiram um significado importante na história. Elas servem, por exemplo, para barrar os escândalos, a corrupção ou o nepotismo. Como imaginar um governo com mãos autoritárias, ou, inversamente, com mãos frouxas.

A lassidão permite sentir a vertiginosa sensação de queda e de vazio no poder que acabará por converter a sociedade numa babel. Não a Babel do filme de Alejandro Iñárritu, tão rico quanto a vida nas suas complexas teias, na sua tensão entre o que não interessa, mas a que se dá relevância, entre aquilo que tem natureza de salvação e redenção e o que se perde no discurso, entre a situação limite das diferentes personagens e a imprevisibilidade do nexo causal que não sendo juridicamente adequado é ontologicamente. Falo aqui de outra Babel igualmente complexa que se faz perceber no levantar coletivo de uma multiplicidade de mãos numa espécie de coreografia de massa.

É como se observássemos um espetáculo de balé de sombras. Nessa representação real, as mãos são de todas as cores, idades e formatos. Agora fechadas – numa situação de protesto – elas exigem direitos constitucionalmente assegurados e reclamam a segurança pelo menos no uso do transporte coletivo sem serem violentadas.

Esperam justiça no ressarcimento das suas perdas e a não humilhação que se evidencia numa simples frase: resistir é perigoso e denunciar é inútil. Novamente as mãos. Mãos agora sitiadas. Mãos que recusam as leis ditadas pelos homens porque eles não representam os verdadeiros interesses e necessidades daqueles que os elegeram. Mãos inoperantes, e esses exemplos de inoperância se fazem ver, por exemplo, na instituição parlamentar, que abre horizontes a cada legislatura sob o signo da mesmice, dando a entender que a representação política nada aprendeu a respeito dos sismos que devastaram a réstia de crença nos que detêm mandato popular.


Flávio Lauria

Mãos

Quantas vezes escutamos a velha frase: quero ver e olhar as suas mãos. Em cada uma das mãos encontramos algo original no tipo, no formato e nos fins que têm em vista

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Os símbolos criam o contraste poético na história dos homens. Dessa vez as mãos assumem um protagonismo especial. Quando D. Pedro desembainhou sua espada com suas mãos e gritou “Independência ou Morte!”, estava sendo protagonista da revolta pelo desgaste do sistema econômico, com restrições e altos impostos, exercido pela Coroa Portuguesa no Brasil.

Quantas vezes escutamos a velha frase: quero ver e olhar as suas mãos. Em cada uma das mãos encontramos algo original no tipo, no formato e nos fins que têm em vista: há mãos carregadas de um lirismo ingênuo, há mãos que serpenteiam, gesticulam, criam e falam, há mãos verdadeiras, acolhedoras e reflexivas. Mas há também mãos cruéis, dominadoras e assassinas fazendo o contraponto com as mãos calejadas pelo trabalho e demasiado sujas com as dores ou desgraças do mundo. Todas as mãos deveriam ser profundamente assépticas.

Exatamente como as mãos de um cirurgião no instante em que apanha o bisturi para salvar uma vida. Afirmou certa vez Charles Péguy que Kant só possuía mãos limpas porque era privado de mãos. Estava errado o poeta. Até porque as mãos assumiram um significado importante na história. Elas servem, por exemplo, para barrar os escândalos, a corrupção ou o nepotismo. Como imaginar um governo com mãos autoritárias, ou, inversamente, com mãos frouxas.

A lassidão permite sentir a vertiginosa sensação de queda e de vazio no poder que acabará por converter a sociedade numa babel. Não a Babel do filme de Alejandro Iñárritu, tão rico quanto a vida nas suas complexas teias, na sua tensão entre o que não interessa, mas a que se dá relevância, entre aquilo que tem natureza de salvação e redenção e o que se perde no discurso, entre a situação limite das diferentes personagens e a imprevisibilidade do nexo causal que não sendo juridicamente adequado é ontologicamente. Falo aqui de outra Babel igualmente complexa que se faz perceber no levantar coletivo de uma multiplicidade de mãos numa espécie de coreografia de massa.

É como se observássemos um espetáculo de balé de sombras. Nessa representação real, as mãos são de todas as cores, idades e formatos. Agora fechadas – numa situação de protesto – elas exigem direitos constitucionalmente assegurados e reclamam a segurança pelo menos no uso do transporte coletivo sem serem violentadas.

Esperam justiça no ressarcimento das suas perdas e a não humilhação que se evidencia numa simples frase: resistir é perigoso e denunciar é inútil. Novamente as mãos. Mãos agora sitiadas. Mãos que recusam as leis ditadas pelos homens porque eles não representam os verdadeiros interesses e necessidades daqueles que os elegeram. Mãos inoperantes, e esses exemplos de inoperância se fazem ver, por exemplo, na instituição parlamentar, que abre horizontes a cada legislatura sob o signo da mesmice, dando a entender que a representação política nada aprendeu a respeito dos sismos que devastaram a réstia de crença nos que detêm mandato popular.

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