Flávio Lauria

Manaus da Mentira

O Estado do Amazonas daqueles tempos, a parte do resto do Brasil desde 1621, diga-se, era a Sibéria do Reino Lusitano.


Consta que numa das tantas lendas que correm sobre o Diabo, lembrada pelo padre Vieira, aquele, saindo dos infernos, teria desabado por sobre a Europa. Partiu-se, porém, em pedaços que se espalharam por todos os lados.

A cabeça, chifre e tudo, caiu na Espanha, daí os espanhóis terem os miolos quentes, os seus pés caprinos foram parar na França, entendendo-se assim lá gostarem de dançar e de se agitar, enquanto que o ventre satânico foi dar na Alemanha, o que aclarava o porquê da gula daquele povo, sempre embeiçado atrás das partes do porco, cozidas ou assadas, tanto faz. E a língua do demo, indagou o padre Vieira, onde teria ela ido parar? Supôs que em Portugal.

Por isso, da Vila do Castelo à Vilamoura, aquela mania do falatório, da maledicência, do fuxico e da intriga. Tão prodigiosa era a fartura de palavras ruins em português que um tal de Drexelio, com elas, preparou um Abecedário dos Vícios da Língua. E o que encontraríamos nele se consultássemos, por exemplo, o verbete dedicado à letra “M”, o M de Manaus? Ora, respondeu o padre categórico: “M de murmurar, M de motejar, M de maldizer, M de malsinar, M de mexerico” e, sobretudo, concluiu o pregador, “M de mentir”.

Bastou estar um pouco mais de um ano naquela parte do Novo Mundo, saído um tanto desterrado de Portugal, para que o padre Vieira entendesse que a costa de Manaus era um refúgio da mentira. Em 1652, seus inimigos, afastando-o das proximidades do trono português, conseguiram empurrá-lo para dentro de uma nau despachando-o para o outro lado do Atlântico, para os quadrantes da vila de São José da Barra.

O Estado do Amazonas daqueles tempos, a parte do resto do Brasil desde 1621, diga-se, era a Sibéria do Reino Lusitano. Um litoral imenso, pouco desbravado, que se estendia do Ceará à bocarra do Rio Amazonas, cheio de areia, mato fechado e desolação. Pouquíssima gente branca o habitava, mas muito nativo cor de cobre andava por aqueles sertões. Vieira desembarcou num caldeirão. O lugar era um vespeiro no qual os jesuítas enfrentavam diariamente os colonos.

O padre Vieira logo constatou que os chamados “forasteiros”, isto é, os brancos que vinham da metrópole tentar a vida por aqueles lados não queriam saber de converter ao cristianismo a boa alma de ninguém. Muito menos a dos tapuias. Que ficassem pagãos. Queriam, isso sim, era o corpo dos índios.

Estando eles, os reinóis que governavam a província, bem longe das vistas do rei, tudo sujeitavam e em tudo botavam a mão, pois não faltavam ofícios onde se podia furtar. A hora do padre – furioso, magoado com as rixas constantes – de acertar-se com aquela gente deu-se na Quinta Dominga da Quaresma, em abril do ano de 1654, momento quando, no final da missa, o grande homem, subindo ao púlpito, reservou-lhes um sermão purgativo.

Manaus, para ele, tornara-se “o reino da mentira”, com corte estabelecida na própria cidade. Como no fundo dos mares, ali não havia solidariedade nenhuma. Tal como entre os crustáceos e os peixes, imperava o canibalismo. Lá os olhos mentiam de dia, quanto mais à noite. Mas por que era assim? Vieira disse que era o clima. A inconstância de tudo era tamanha, que o litoral de Manaus era o único no mundo inteiro onde até o sol, tão certeiro em outras latitudes, enganava os pilotos. Olhando o astrolábio, ora ele indicava um grau, ora dois, o resultado era que muitos barcos encalhavam por lá.

O que o fez concluir que “até o céu mentia em Manaus!” Muito sol, além de quebrar os laços de solidariedade, gerava preguiça e o ócio. Este, ao prostrar as gentes, excitava-lhes a imaginação, mãe da mentira. Entre eles, mesmo que pelas duas orelhas escutassem uma verdade, perdida está no caracol do ouvido, terminavam expelindo uma mentira pela boca.

Tudo bem que em outras partes também se mentia. Lisboa, por exemplo. Mas ela era capital de um império, podendo exportar suas mentiras para outros cantos do mundo, para Veneza ou para Calicute. Manaus, por ser pequenina, não. Naquela vila, a mentira não tendo para onde ir alimentava ainda mais outras inverdades. Lá a mentira dançava de roda. Nesta campanha eleitoral o que mais vimos foram mentiras, promessas vãs e improváveis.

Caros leitores isso é uma lenda na verdade nem sei se Padre Vieira passou por essas terras, mas que vale uma reflexão vale.

Flávio Lauria

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Manaus da Mentira

O Estado do Amazonas daqueles tempos, a parte do resto do Brasil desde 1621, diga-se, era a Sibéria do Reino Lusitano.

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Consta que numa das tantas lendas que correm sobre o Diabo, lembrada pelo padre Vieira, aquele, saindo dos infernos, teria desabado por sobre a Europa. Partiu-se, porém, em pedaços que se espalharam por todos os lados.

A cabeça, chifre e tudo, caiu na Espanha, daí os espanhóis terem os miolos quentes, os seus pés caprinos foram parar na França, entendendo-se assim lá gostarem de dançar e de se agitar, enquanto que o ventre satânico foi dar na Alemanha, o que aclarava o porquê da gula daquele povo, sempre embeiçado atrás das partes do porco, cozidas ou assadas, tanto faz. E a língua do demo, indagou o padre Vieira, onde teria ela ido parar? Supôs que em Portugal.

Por isso, da Vila do Castelo à Vilamoura, aquela mania do falatório, da maledicência, do fuxico e da intriga. Tão prodigiosa era a fartura de palavras ruins em português que um tal de Drexelio, com elas, preparou um Abecedário dos Vícios da Língua. E o que encontraríamos nele se consultássemos, por exemplo, o verbete dedicado à letra “M”, o M de Manaus? Ora, respondeu o padre categórico: “M de murmurar, M de motejar, M de maldizer, M de malsinar, M de mexerico” e, sobretudo, concluiu o pregador, “M de mentir”.

Bastou estar um pouco mais de um ano naquela parte do Novo Mundo, saído um tanto desterrado de Portugal, para que o padre Vieira entendesse que a costa de Manaus era um refúgio da mentira. Em 1652, seus inimigos, afastando-o das proximidades do trono português, conseguiram empurrá-lo para dentro de uma nau despachando-o para o outro lado do Atlântico, para os quadrantes da vila de São José da Barra.

O Estado do Amazonas daqueles tempos, a parte do resto do Brasil desde 1621, diga-se, era a Sibéria do Reino Lusitano. Um litoral imenso, pouco desbravado, que se estendia do Ceará à bocarra do Rio Amazonas, cheio de areia, mato fechado e desolação. Pouquíssima gente branca o habitava, mas muito nativo cor de cobre andava por aqueles sertões. Vieira desembarcou num caldeirão. O lugar era um vespeiro no qual os jesuítas enfrentavam diariamente os colonos.

O padre Vieira logo constatou que os chamados “forasteiros”, isto é, os brancos que vinham da metrópole tentar a vida por aqueles lados não queriam saber de converter ao cristianismo a boa alma de ninguém. Muito menos a dos tapuias. Que ficassem pagãos. Queriam, isso sim, era o corpo dos índios.

Estando eles, os reinóis que governavam a província, bem longe das vistas do rei, tudo sujeitavam e em tudo botavam a mão, pois não faltavam ofícios onde se podia furtar. A hora do padre – furioso, magoado com as rixas constantes – de acertar-se com aquela gente deu-se na Quinta Dominga da Quaresma, em abril do ano de 1654, momento quando, no final da missa, o grande homem, subindo ao púlpito, reservou-lhes um sermão purgativo.

Manaus, para ele, tornara-se “o reino da mentira”, com corte estabelecida na própria cidade. Como no fundo dos mares, ali não havia solidariedade nenhuma. Tal como entre os crustáceos e os peixes, imperava o canibalismo. Lá os olhos mentiam de dia, quanto mais à noite. Mas por que era assim? Vieira disse que era o clima. A inconstância de tudo era tamanha, que o litoral de Manaus era o único no mundo inteiro onde até o sol, tão certeiro em outras latitudes, enganava os pilotos. Olhando o astrolábio, ora ele indicava um grau, ora dois, o resultado era que muitos barcos encalhavam por lá.

O que o fez concluir que “até o céu mentia em Manaus!” Muito sol, além de quebrar os laços de solidariedade, gerava preguiça e o ócio. Este, ao prostrar as gentes, excitava-lhes a imaginação, mãe da mentira. Entre eles, mesmo que pelas duas orelhas escutassem uma verdade, perdida está no caracol do ouvido, terminavam expelindo uma mentira pela boca.

Tudo bem que em outras partes também se mentia. Lisboa, por exemplo. Mas ela era capital de um império, podendo exportar suas mentiras para outros cantos do mundo, para Veneza ou para Calicute. Manaus, por ser pequenina, não. Naquela vila, a mentira não tendo para onde ir alimentava ainda mais outras inverdades. Lá a mentira dançava de roda. Nesta campanha eleitoral o que mais vimos foram mentiras, promessas vãs e improváveis.

Caros leitores isso é uma lenda na verdade nem sei se Padre Vieira passou por essas terras, mas que vale uma reflexão vale.

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