Flávio Lauria

Jazigos

Passado do Dia de Finados, ouso comentar alguns escritos em túmulos, mesmo que não vá ao cemitério.


Passado do Dia de Finados, ouso comentar alguns escritos em túmulos, mesmo que não vá ao cemitério. Alguns diálogos, entre médicos e pacientes, acabaram famosos. Como aquele, registrado por Manuel Bandeira (Pneumotórax), em que um doente com “febre, hemoptíase, dispnéia e suores noturnos” pergunta: “Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?”, ouvindo, como resposta: “Não.

A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Outro desses diálogos aconteceu agora, com o querido amigo Joaquim. Francamente, Joaquim não é modelo de vida saudável. Até criou uma dissidência nos Alcoólicos Anônimos – em que ele, e seu grupo, se consideram liberados para consumir Bacardi com Coca-Cola, em dias de festas.

O problema é que, para Joaquim, todo dia é uma festa. E assim viveu a vida até quando sua santa mulher, Leticia, conseguiu lhe levar a um médico. Com os exames na mão. Finda a leitura do mapa de seus lipídios e colesteróis (muitos), disse o doutor: “Posso lhe fazer uma pergunta?” Ao que Joaquim, educado como sempre, respondeu: “Estou aqui para isso.”

E o médico: “Dr. Joaquim, o senhor por acaso já comprou um jazigo no cemitério?” Esse problema não tenho. Temos o hábito em reuniões de confraria, perguntarmos perante todos quem irá primeiro, e aí surgem a apostas, eu digo sempre que irei a missa de sétimo dia de alguns. Não vou a cemitério, uma vez fui ao enterro de minha tia e passei mal, acho que é porque está longe o dia em que irei ser enterrado. Saudade grande dos que foram como meu pai e alguns amigos, mas já ouvi algumas inscrições que levam para os túmulos, e acabo anotando porque tem algumas curiosas.

Dentre outras: “Coragem, adversidade, honradez nos compromissos, aversão às maledicências. Foram os ensinamentos que o teu exemplo ofereceu aos filhos, que por ti foram ilimitadamente amados.” “A saudade que dela sentimos seja suavizada pela esperança de um dia nos encontrarmos no céu.” “As virtudes e os exemplos dos que aqui estão servem de consolo aos que choram a sua ausência.” “Que os nossos descendentes se ajoelhem sempre neste túmulo que guarda os despojos de uma vida que foi a nossa vida.” “Tudo que fiz foi em nome da liberdade.” “Aqui também mora o amor.” “Viver no coração dos que ficam, não é partir.” “Deus nos deu. Deus a tomou. Bendito seja o nome do senhor.” “Tombe dos teus lábios sob o que passou, cantando-te a beleza efêmera e o misterioso gênio.” “Os preceitos acalmei-os as vãs, grandezas renunciei-as, a piedade foi o meu punhal.” “Fui altivo, fui bom e fui modesto.”

Mas nenhuma inscrição intrigou tanto quanto uma do início do século passado, próxima ao jazigo de meu pai, que diz: “Aqui descansa Euphrosina ..., assassinada aos 12 anos. Lembrança do Foro e admiradores.” Esse “Foro”, provavelmente, deva a ser o tabelião seu pai. “Senhorita” também estranha, na lousa fria. Talvez se escreveu assim porque, apesar de sua tenra idade, já teria no corpo os primeiros sinais de mulher. Tanto que tinha “admiradores”, e não amigos. Mas não é comum assassinar pessoas tão jovens, com só 12 anos. Vingança ou paixão, imagino. Dinheiro ou algum amor perdido, apesar de tão jovem. Morrendo, a pobre criança, sem sequer conhecer as alegrias, as dores e os mistérios do amor e da vida. Descanse em paz.

P.S. Se algum leitor amigo tiver lembrança de antepassado com esse nome tão pouco comum – Euphrosina, por favor dê notícias.

Flávio Lauria

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Jazigos

Passado do Dia de Finados, ouso comentar alguns escritos em túmulos, mesmo que não vá ao cemitério.

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Passado do Dia de Finados, ouso comentar alguns escritos em túmulos, mesmo que não vá ao cemitério. Alguns diálogos, entre médicos e pacientes, acabaram famosos. Como aquele, registrado por Manuel Bandeira (Pneumotórax), em que um doente com “febre, hemoptíase, dispnéia e suores noturnos” pergunta: “Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?”, ouvindo, como resposta: “Não.

A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Outro desses diálogos aconteceu agora, com o querido amigo Joaquim. Francamente, Joaquim não é modelo de vida saudável. Até criou uma dissidência nos Alcoólicos Anônimos – em que ele, e seu grupo, se consideram liberados para consumir Bacardi com Coca-Cola, em dias de festas.

O problema é que, para Joaquim, todo dia é uma festa. E assim viveu a vida até quando sua santa mulher, Leticia, conseguiu lhe levar a um médico. Com os exames na mão. Finda a leitura do mapa de seus lipídios e colesteróis (muitos), disse o doutor: “Posso lhe fazer uma pergunta?” Ao que Joaquim, educado como sempre, respondeu: “Estou aqui para isso.”

E o médico: “Dr. Joaquim, o senhor por acaso já comprou um jazigo no cemitério?” Esse problema não tenho. Temos o hábito em reuniões de confraria, perguntarmos perante todos quem irá primeiro, e aí surgem a apostas, eu digo sempre que irei a missa de sétimo dia de alguns. Não vou a cemitério, uma vez fui ao enterro de minha tia e passei mal, acho que é porque está longe o dia em que irei ser enterrado. Saudade grande dos que foram como meu pai e alguns amigos, mas já ouvi algumas inscrições que levam para os túmulos, e acabo anotando porque tem algumas curiosas.

Dentre outras: “Coragem, adversidade, honradez nos compromissos, aversão às maledicências. Foram os ensinamentos que o teu exemplo ofereceu aos filhos, que por ti foram ilimitadamente amados.” “A saudade que dela sentimos seja suavizada pela esperança de um dia nos encontrarmos no céu.” “As virtudes e os exemplos dos que aqui estão servem de consolo aos que choram a sua ausência.” “Que os nossos descendentes se ajoelhem sempre neste túmulo que guarda os despojos de uma vida que foi a nossa vida.” “Tudo que fiz foi em nome da liberdade.” “Aqui também mora o amor.” “Viver no coração dos que ficam, não é partir.” “Deus nos deu. Deus a tomou. Bendito seja o nome do senhor.” “Tombe dos teus lábios sob o que passou, cantando-te a beleza efêmera e o misterioso gênio.” “Os preceitos acalmei-os as vãs, grandezas renunciei-as, a piedade foi o meu punhal.” “Fui altivo, fui bom e fui modesto.”

Mas nenhuma inscrição intrigou tanto quanto uma do início do século passado, próxima ao jazigo de meu pai, que diz: “Aqui descansa Euphrosina ..., assassinada aos 12 anos. Lembrança do Foro e admiradores.” Esse “Foro”, provavelmente, deva a ser o tabelião seu pai. “Senhorita” também estranha, na lousa fria. Talvez se escreveu assim porque, apesar de sua tenra idade, já teria no corpo os primeiros sinais de mulher. Tanto que tinha “admiradores”, e não amigos. Mas não é comum assassinar pessoas tão jovens, com só 12 anos. Vingança ou paixão, imagino. Dinheiro ou algum amor perdido, apesar de tão jovem. Morrendo, a pobre criança, sem sequer conhecer as alegrias, as dores e os mistérios do amor e da vida. Descanse em paz.

P.S. Se algum leitor amigo tiver lembrança de antepassado com esse nome tão pouco comum – Euphrosina, por favor dê notícias.

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