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Flávio Lauria

Divagações

Exaurido da procura, refugio-me no claustro, lendo, escutando música erudita, meditando sobre as razões que me tornam cada vez mais frágil


Caros leitores, novamente me pego escrevendo divagações. É fácil escrever sobre o que acontece no dia a dia, mormente quando o nosso Estado e o Brasil mudam de governantes e a perspectiva é grande, mas frustrante também. Mas a vida é tão curta – dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe – que merece a melhor das reverências.

Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará? Essa ficará. Há pouco o que fazer num palco de enunciados apócrifos. É hora de levantar os braços e pedir clemência.

Talvez reste apenas a prece da súplica. Em silêncio absoluto, com a vela acesa, chorando pingos de parafina, flambando as poucas esperanças que sobram, peço paz para os homens de boa-vontade. Não encontro os campos de girassóis. Que direção tomar?

Exaurido da procura, refugio-me no claustro, lendo, escutando música erudita, meditando sobre as razões que me tornam cada vez mais frágil, cada vez mais impaciente, cada vez mais vulnerável... Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa.

Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial. Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor.

Acabo sempre em fuga, aceitando a condição de monge. E regalo-me com a escolha. As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu-lugar.

Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.

Flávio Lauria

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Divagações

Exaurido da procura, refugio-me no claustro, lendo, escutando música erudita, meditando sobre as razões que me tornam cada vez mais frágil

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Caros leitores, novamente me pego escrevendo divagações. É fácil escrever sobre o que acontece no dia a dia, mormente quando o nosso Estado e o Brasil mudam de governantes e a perspectiva é grande, mas frustrante também. Mas a vida é tão curta – dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe – que merece a melhor das reverências.

Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará? Essa ficará. Há pouco o que fazer num palco de enunciados apócrifos. É hora de levantar os braços e pedir clemência.

Talvez reste apenas a prece da súplica. Em silêncio absoluto, com a vela acesa, chorando pingos de parafina, flambando as poucas esperanças que sobram, peço paz para os homens de boa-vontade. Não encontro os campos de girassóis. Que direção tomar?

Exaurido da procura, refugio-me no claustro, lendo, escutando música erudita, meditando sobre as razões que me tornam cada vez mais frágil, cada vez mais impaciente, cada vez mais vulnerável... Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa.

Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial. Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor.

Acabo sempre em fuga, aceitando a condição de monge. E regalo-me com a escolha. As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu-lugar.

Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.

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