Flávio Lauria

Divagação

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmai.com


 
Foto:Reprodução/Shutterstock
 
Dói-me profundamente assistir a atores se digladiando numa arena onde não se vê circo algum montado. A sociedade rui sem que as pessoas se posicionem em favor de padrões humanos. O Brasil ocupa um lugar de destaque nessa decadência avantajada. O cinismo é a palavra do dia, o fanatismo também. Fala-se com o intuito de blefar, blefar, blefar...

As cartas do jogo de pôquer estão entregues a jogadores habilidosos e maledicentes. Correrei atrás dos campos de girassóis, dessa beleza autônoma que independe da vontade dos homens ou dos seus mecanismos ilusionistas. Afagarei as pétalas, cultivarei as sementes, quero embrenhar-me nas folhas com a finalidade de reabastecer o enorme vácuo que em mim habita. A caminhada é longa. E estou cansado.

Luzes se apagam. Acendo velas para perceber o choro da cera, não me apraz alumiar o ambiente. As palavras perderam o valor da significação. Ouço o que não quero, pululam hipocrisias, os rostos se definem: massa uniforme, desfibrada, espectro de gente. A humanidade se escondeu? Envergonho-me das vozes que se levantam para desvirtuar a verdade em nome de uma saga indigna – os incautos se enredam em eufemismos astutamente construídos.

A letra reduziu-se a um instrumento banalizado, volátil em meio ao estrondo de uma tempestade sem fim. O mar revolto serve para iludir aqueles que não são capazes de compreender a dinâmica dos farsantes. E entre tantos desatinos, a soberba e o autoritarismo alcançam paroxismos.

A vida é tão curta – dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe – que merece a melhor das reverências. Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará? Essa ficará. Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa.

Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial.

Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor. As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu lugar.

Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.

Flávio Lauria

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Divagação

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmai.com


 
Foto:Reprodução/Shutterstock
 
Dói-me profundamente assistir a atores se digladiando numa arena onde não se vê circo algum montado. A sociedade rui sem que as pessoas se posicionem em favor de padrões humanos. O Brasil ocupa um lugar de destaque nessa decadência avantajada. O cinismo é a palavra do dia, o fanatismo também. Fala-se com o intuito de blefar, blefar, blefar...

As cartas do jogo de pôquer estão entregues a jogadores habilidosos e maledicentes. Correrei atrás dos campos de girassóis, dessa beleza autônoma que independe da vontade dos homens ou dos seus mecanismos ilusionistas. Afagarei as pétalas, cultivarei as sementes, quero embrenhar-me nas folhas com a finalidade de reabastecer o enorme vácuo que em mim habita. A caminhada é longa. E estou cansado.

Luzes se apagam. Acendo velas para perceber o choro da cera, não me apraz alumiar o ambiente. As palavras perderam o valor da significação. Ouço o que não quero, pululam hipocrisias, os rostos se definem: massa uniforme, desfibrada, espectro de gente. A humanidade se escondeu? Envergonho-me das vozes que se levantam para desvirtuar a verdade em nome de uma saga indigna – os incautos se enredam em eufemismos astutamente construídos.

A letra reduziu-se a um instrumento banalizado, volátil em meio ao estrondo de uma tempestade sem fim. O mar revolto serve para iludir aqueles que não são capazes de compreender a dinâmica dos farsantes. E entre tantos desatinos, a soberba e o autoritarismo alcançam paroxismos.

A vida é tão curta – dura o espaço de uma manhã, diria Malherbe – que merece a melhor das reverências. Por que deixá-la sob o domínio dos ímprobos, esquecendo que a biografia dos homens ficará? Essa ficará. Não pretendo mudar o jeito de ser, seria o mesmo que rejeitar-me na essência contemplativa.

Atraem-me a solidão do quarto fechado e, sobretudo, a distância que desejo manter das truculentas exterioridades. Fortalece-me o ato de convivência comigo mesmo, embora não seja fácil alimentar o elo existencial.

Ando devagar, não tenho pressa, minhas mãos carregam gestos de amor. As pálpebras se fecham entre o escuro de fora e o escuro de dentro. O quarto não é pequeno, mas eu o reduzo ao tamanho que me agrada, tão minúsculo me sinto que não careço de grandes espaços. O aconchego do lugar avigora-me, gosto de aninhar-me em livros e objetos que um dia comprei em esquinas desconhecidas, em outros lugares que não eram o meu lugar.

Agora, sim, tudo que me rodeia já se semelha aos meus quereres, as coisas ganham a alma que nelas depositei e nunca falharam no diálogo mudo, sabem preservar o lacre da antiguidade. Estou tão solto no mundo que o quarto representa o epicentro de mim mesmo. Juntei palavras sem nenhuma ordenação. Não sei como hierarquizá-las no caos vigente. Sei apenas que nesse momento estou só e não me livrei do medo do mundo.

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