Flávio Lauria

Diálogo

"Somos, ao contrário, um povo habituado, o mais das vezes, a transformar as coisas mais graves em jocosidade, o que se acredita ser virtude"


Janeiro é mês importante para que se faça a programação do ano. Para início de conversa, vale lembrar que já para o exercício da cidadania em geral, há um preparo que poderia ser desenvolvido pela população. Refiro-me à prática do diálogo intencional (isto é, não do ‘‘papo furado’’ ou da ‘‘conversa de mesa de bar’’), da reflexão sobre processos de disputa de poder nos mais diversos ambientes, da prática da assertividade.

Somos, ao contrário, um povo habituado, o mais das vezes, a transformar as coisas mais graves em jocosidade, o que se acredita ser virtude, sinal de bom humor e de saber viver. Se o riso é um dos mecanismos mais efetivos para corroer práticas autoritárias, manifestando-se, por exemplo, em humor refinado ou ironia elegante, o uso exacerbado e sem critério leva a atitudes que a tudo vulgarizam, banalizando o que é nobre e digno, muitas vezes ridicularizando-o, ou menosprezando conquistas importantes, inviabilizando-as.

Ou, o que é pior, a exposição se faz pela incompreensão, acarretando constrangimento, fazendo com que o alvo da banalização do momento (como gente valorosa demais, que acaba sendo chamada de ‘‘uma gracinha’’) até sinta desejo profundo de sumir, invisibilizando-se. Gente que leva as coisas a sério pode ser chamada de mal-humorado, soturno, enquanto quem faz o tipo ‘‘alegria da festa’’ pode ter a popularidade máxima — ainda que na ética seja lamentável, mas pelo menos ‘‘como é divertido’’.

Vale relembrar aspectos menos encantadores do louvado jeitinho brasileiro (também responsável pela burla a leis, em nome do ‘‘jogo de cintura’’) para buscar compreender as cenas grotescas a que assistimos, no ano que passou, entre membros do Poder Legislativo, nas diversas esferas, em diferentes pontos do território nacional, em diferentes momentos.

É certo que também assistimos a processos inéditos, que levaram à retirada, da cena oficial, de figuras que anteriormente ocuparam lugares destacados, tudo provocado por comportamentos inaceitáveis, antirregimentais, ilegais. Discussão franca e abertura pública dos procedimentos — facilitada em boa parte pela presença correta da mídia — propiciaram o início de novos ares para a democracia tenra que se constrói no Brasil.

Lamentavelmente, não deixaram de continuar havendo sopapos e troca de insultos entre outros representantes eleitos pelo povo para representá-lo na defesa da cidadania e não na cópia das características que mais o fragilizam, porém o início de transformação é evidente. É por isso que vale a pena que as autoridades, por exemplo, do Poder Legislativo, pensem alternativas para a formação dos políticos, que haverá de redundar em benefícios para a população como um todo, tanto em termos de ser mais bem representados quanto em relação à possibilidade de transformação de mentalidade.

Processo característico do tempo de longa duração, é evidente que o Brasil tem, dentro de si, a convivência de vários brasis, não só na óbvia diversidade étnica, racial, cultural, religiosa — e já é difícil adjetivar, tão diversa é — como também na multiplicidade de modos de mentalidades, que se combinam com a diversidade.

Não se trata de refletir sobre a heterogeneidade de, por exemplo, posições políticas que convivem no interior de cada uma das diferentes manifestações da diversidade. Trata-se de algo diferente, que torna o quadro mais complexo, impossibilitando previsões. Assim como não se pode falar de ‘‘identidade nacional’’ sem referir à construção cotidiana do Brasil que se compõe e recompõe na diversidade, não se pode falar de ‘‘mentalidade nacional sem encarar uma miríade de interseções e desdobramentos.

Flávio Lauria

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Diálogo

"Somos, ao contrário, um povo habituado, o mais das vezes, a transformar as coisas mais graves em jocosidade, o que se acredita ser virtude"

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Janeiro é mês importante para que se faça a programação do ano. Para início de conversa, vale lembrar que já para o exercício da cidadania em geral, há um preparo que poderia ser desenvolvido pela população. Refiro-me à prática do diálogo intencional (isto é, não do ‘‘papo furado’’ ou da ‘‘conversa de mesa de bar’’), da reflexão sobre processos de disputa de poder nos mais diversos ambientes, da prática da assertividade.

Somos, ao contrário, um povo habituado, o mais das vezes, a transformar as coisas mais graves em jocosidade, o que se acredita ser virtude, sinal de bom humor e de saber viver. Se o riso é um dos mecanismos mais efetivos para corroer práticas autoritárias, manifestando-se, por exemplo, em humor refinado ou ironia elegante, o uso exacerbado e sem critério leva a atitudes que a tudo vulgarizam, banalizando o que é nobre e digno, muitas vezes ridicularizando-o, ou menosprezando conquistas importantes, inviabilizando-as.

Ou, o que é pior, a exposição se faz pela incompreensão, acarretando constrangimento, fazendo com que o alvo da banalização do momento (como gente valorosa demais, que acaba sendo chamada de ‘‘uma gracinha’’) até sinta desejo profundo de sumir, invisibilizando-se. Gente que leva as coisas a sério pode ser chamada de mal-humorado, soturno, enquanto quem faz o tipo ‘‘alegria da festa’’ pode ter a popularidade máxima — ainda que na ética seja lamentável, mas pelo menos ‘‘como é divertido’’.

Vale relembrar aspectos menos encantadores do louvado jeitinho brasileiro (também responsável pela burla a leis, em nome do ‘‘jogo de cintura’’) para buscar compreender as cenas grotescas a que assistimos, no ano que passou, entre membros do Poder Legislativo, nas diversas esferas, em diferentes pontos do território nacional, em diferentes momentos.

É certo que também assistimos a processos inéditos, que levaram à retirada, da cena oficial, de figuras que anteriormente ocuparam lugares destacados, tudo provocado por comportamentos inaceitáveis, antirregimentais, ilegais. Discussão franca e abertura pública dos procedimentos — facilitada em boa parte pela presença correta da mídia — propiciaram o início de novos ares para a democracia tenra que se constrói no Brasil.

Lamentavelmente, não deixaram de continuar havendo sopapos e troca de insultos entre outros representantes eleitos pelo povo para representá-lo na defesa da cidadania e não na cópia das características que mais o fragilizam, porém o início de transformação é evidente. É por isso que vale a pena que as autoridades, por exemplo, do Poder Legislativo, pensem alternativas para a formação dos políticos, que haverá de redundar em benefícios para a população como um todo, tanto em termos de ser mais bem representados quanto em relação à possibilidade de transformação de mentalidade.

Processo característico do tempo de longa duração, é evidente que o Brasil tem, dentro de si, a convivência de vários brasis, não só na óbvia diversidade étnica, racial, cultural, religiosa — e já é difícil adjetivar, tão diversa é — como também na multiplicidade de modos de mentalidades, que se combinam com a diversidade.

Não se trata de refletir sobre a heterogeneidade de, por exemplo, posições políticas que convivem no interior de cada uma das diferentes manifestações da diversidade. Trata-se de algo diferente, que torna o quadro mais complexo, impossibilitando previsões. Assim como não se pode falar de ‘‘identidade nacional’’ sem referir à construção cotidiana do Brasil que se compõe e recompõe na diversidade, não se pode falar de ‘‘mentalidade nacional sem encarar uma miríade de interseções e desdobramentos.

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