Flávio Lauria

Descaminhos nacionais

"Neste país desigual, pelo menos 25 milhões de brasileiros esperam ônibus sem saber a hora em que passam por suas paradas"


 

Foto: Reprodução/Shutterstock

 

Um Congresso sem causas a defender só pode percorrer os tortuosos caminhos da preservação dos corruptos, criando imensas cortinas de fumaça para não ser mais duro e asperamente criticado pela sociedade. Existe, no entanto, a imprensa. Cumprindo seu papel social, denunciando escândalos e arranjos inaceitáveis, tem seu trabalho desqualificado por todos aqueles que, perturbados e incomodados em seu ofício de fazer com que as mãos sejam maiores que os bolsos, transporta o fardo de os preços dos bois das excelências não se entenderem contabilmente com os documentos oficiais.

Aceitemos, então, que a culpa seja da imprensa, desde que possa continuar publicando os descaminhos nacionais, entre eles as 400 obras federais paralisadas, depois de centenas de milhões de reais terem sido gastos sem que se saibam exatamente os motivos. Os congressistas deveriam identificar pequenas causas para a construção de um Brasil diferente, com todos os brasileiros tendo a mesma chance na vida. Naturalmente, uns terão mais, outros menos, pelo talento, pela perseverança, pela vocação, mas não pela sorte, pelo apadrinhamento.

Voltemos à mesma chance aos brasileiros. Isso significa a certeza do atendimento médico, a garantia de que a bandidagem foi exorcizada das ruas, a existência de educação de qualidade, transportes públicos eficientes e coisas que, nos países civilizados, há décadas são rotinas do cotidiano. Neste país desigual, pelo menos 25 milhões de brasileiros esperam ônibus sem saber a hora em que passam por suas paradas.

Os congressistas não se lembram – há cortinas de fumaça em toda a vida nacional – de que centenas de milhares de pessoas aguardam, a cada mês, não o avião, mas a cirurgia que pode salvar-lhes a vida e que não é agendada em razão da precariedade da saúde pública. Muito menos querem saber da existência de milhões de crianças que acordam de madrugada e não têm aulas naquele dia. Se não conhecem essa situação, o que dizer do medonho turismo sexual que se pratica nas cidades?

O Congresso fez opção por causas que pouca ou nenhuma intimidade têm com o povo. Os apagões, que ofendem e agridem a população, não se transformam em CPIs, nem fazem a instituição sangrar. Mas o que é um congressista? O povo nele vota, mas não o conhece. Já que sua existência também deve ser culpa da imprensa, tentemos explicar: é alguém que, junto com o governo, tem a mão em nosso bolso, a língua em nosso ouvido e imensa fé em nossa paciência. É desanimadora a hora que se vive. Dá vontade de recolher-se na carapaça, como um caracol, e calar.

Não é de hoje que os descalabros acontecem, não são frutos apenas de administrações atuais, pois resultam do desinteresse, do descaso e da omissão em relação à coisa pública, acumulados há décadas. O tripé educação-saúde-segurança, sobre o qual deve assentar-se a vida social, desmorona-se diante dos nossos olhos, pois nunca foi objeto de verdadeiro interesse administrativo. Segurança é utopia e ironia. Os telejornais tornaram-se uma espécie de coluna policial, estampando crimes de todos os níveis: assassinatos na periferia e corrupção nas altas esferas. 


Flávio Lauria

Descaminhos nacionais

"Neste país desigual, pelo menos 25 milhões de brasileiros esperam ônibus sem saber a hora em que passam por suas paradas"

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


 

Foto: Reprodução/Shutterstock

 

Um Congresso sem causas a defender só pode percorrer os tortuosos caminhos da preservação dos corruptos, criando imensas cortinas de fumaça para não ser mais duro e asperamente criticado pela sociedade. Existe, no entanto, a imprensa. Cumprindo seu papel social, denunciando escândalos e arranjos inaceitáveis, tem seu trabalho desqualificado por todos aqueles que, perturbados e incomodados em seu ofício de fazer com que as mãos sejam maiores que os bolsos, transporta o fardo de os preços dos bois das excelências não se entenderem contabilmente com os documentos oficiais.

Aceitemos, então, que a culpa seja da imprensa, desde que possa continuar publicando os descaminhos nacionais, entre eles as 400 obras federais paralisadas, depois de centenas de milhões de reais terem sido gastos sem que se saibam exatamente os motivos. Os congressistas deveriam identificar pequenas causas para a construção de um Brasil diferente, com todos os brasileiros tendo a mesma chance na vida. Naturalmente, uns terão mais, outros menos, pelo talento, pela perseverança, pela vocação, mas não pela sorte, pelo apadrinhamento.

Voltemos à mesma chance aos brasileiros. Isso significa a certeza do atendimento médico, a garantia de que a bandidagem foi exorcizada das ruas, a existência de educação de qualidade, transportes públicos eficientes e coisas que, nos países civilizados, há décadas são rotinas do cotidiano. Neste país desigual, pelo menos 25 milhões de brasileiros esperam ônibus sem saber a hora em que passam por suas paradas.

Os congressistas não se lembram – há cortinas de fumaça em toda a vida nacional – de que centenas de milhares de pessoas aguardam, a cada mês, não o avião, mas a cirurgia que pode salvar-lhes a vida e que não é agendada em razão da precariedade da saúde pública. Muito menos querem saber da existência de milhões de crianças que acordam de madrugada e não têm aulas naquele dia. Se não conhecem essa situação, o que dizer do medonho turismo sexual que se pratica nas cidades?

O Congresso fez opção por causas que pouca ou nenhuma intimidade têm com o povo. Os apagões, que ofendem e agridem a população, não se transformam em CPIs, nem fazem a instituição sangrar. Mas o que é um congressista? O povo nele vota, mas não o conhece. Já que sua existência também deve ser culpa da imprensa, tentemos explicar: é alguém que, junto com o governo, tem a mão em nosso bolso, a língua em nosso ouvido e imensa fé em nossa paciência. É desanimadora a hora que se vive. Dá vontade de recolher-se na carapaça, como um caracol, e calar.

Não é de hoje que os descalabros acontecem, não são frutos apenas de administrações atuais, pois resultam do desinteresse, do descaso e da omissão em relação à coisa pública, acumulados há décadas. O tripé educação-saúde-segurança, sobre o qual deve assentar-se a vida social, desmorona-se diante dos nossos olhos, pois nunca foi objeto de verdadeiro interesse administrativo. Segurança é utopia e ironia. Os telejornais tornaram-se uma espécie de coluna policial, estampando crimes de todos os níveis: assassinatos na periferia e corrupção nas altas esferas. 

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