Flávio Lauria

Desarme-se


 
Foto:Reprodução/Shutterstock
 
Vamos nos desarmar, não apenas das armas de fogo, mas em todos os sentidos. Por inteiro. Desde os primórdios o ser humano inventou armas para caçar, para se defender do inimigo, mas passou a usá-las também para dar vazão ao inconfessado gosto agressivo e destrutivo que lhe habita.

Diria que Freud, de certo modo, foi surpreendido com esse lado humano. A principio ele pensava nas pulsões de vida, mas ao observar o panorama de guerras e violências procedentes do convívio humano, teorizou também sobre as pulsões de morte que convivem conosco.

Somos assim: seres agressivos embora também bondosos. Violência e bondade procedem do mesmo material humano. O lado agressivo teve de ser controlado pela cultura. Por isso foram criadas leis e sanções para administrar os excessos daí procedentes, porque como dizia Freud em "O Mal Estar na Civilização" se o homem for entregue aos seus próprios impulsos, poderá destruir a civilização que, a tanto custo, construiu.

Pelo visto nosso atrativo por armas não é apenas uma questão de defesa, mas também de gosto inconfessado pelo ataque. Quando nos armamos não apenas portamos uma arma, também nos endurecemos para poder dela fazer uso.

Não se mata em sã consciência, mas em condições endurecidas, e transtornadas. Aí reside o risco. O sujeito armado interiormente é a pior das armas. Razão porque não nos basta o desarmamento externo.

É preciso que gestos novos nasçam em cada um com a deposição das armas, para que de fato, desarmamento seja o novo nome da paz. Humanamente falando penso que a evoluída sofisticação das armas é um retrocesso. Do ponto de vista social o raciocínio deve ser outro.

Mas, é no mínimo vexatório, que tenhamos de nutrir tão elevado grau de medo e desconfiança em relação aos outros! Envergonha-me sentir medo de meu semelhante, andar de carro travado, fechado, se possível blindado. Envergonha-me não poder dar carona quando passo nos pontos de ônibus lotados.

O que nos terá levado a tanta desconfiança para com os outros? Questiono o que estamos fazendo à nossa humanidade na medida em que nos armamos cada vez mais. Quando não mais nos amamos, nos armamos.

Proponho que nos desarmemos de nossas intolerâncias, de nossas arrogâncias, de nossos lugares de vítima, de nossas relações de poder, de nossas mágoas, de nossas palavras (mal)ditas, de nossos desafetos, das banalizações que mantemos em relação ao outro e à vida. Receio que estejamos trocando amor por endurecimento e chamemos isso de evolução.

O amor, a ternura, bem poderiam ser paradigmas para a convivência humana. Isso sem falar que o perigo das armas está entrando pela porta da frente das escolas brasileiras, levando medo e insegurança a alunos, professores, diretores e funcionários.

Flávio Lauria

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Desarme-se

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


 
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Vamos nos desarmar, não apenas das armas de fogo, mas em todos os sentidos. Por inteiro. Desde os primórdios o ser humano inventou armas para caçar, para se defender do inimigo, mas passou a usá-las também para dar vazão ao inconfessado gosto agressivo e destrutivo que lhe habita.

Diria que Freud, de certo modo, foi surpreendido com esse lado humano. A principio ele pensava nas pulsões de vida, mas ao observar o panorama de guerras e violências procedentes do convívio humano, teorizou também sobre as pulsões de morte que convivem conosco.

Somos assim: seres agressivos embora também bondosos. Violência e bondade procedem do mesmo material humano. O lado agressivo teve de ser controlado pela cultura. Por isso foram criadas leis e sanções para administrar os excessos daí procedentes, porque como dizia Freud em "O Mal Estar na Civilização" se o homem for entregue aos seus próprios impulsos, poderá destruir a civilização que, a tanto custo, construiu.

Pelo visto nosso atrativo por armas não é apenas uma questão de defesa, mas também de gosto inconfessado pelo ataque. Quando nos armamos não apenas portamos uma arma, também nos endurecemos para poder dela fazer uso.

Não se mata em sã consciência, mas em condições endurecidas, e transtornadas. Aí reside o risco. O sujeito armado interiormente é a pior das armas. Razão porque não nos basta o desarmamento externo.

É preciso que gestos novos nasçam em cada um com a deposição das armas, para que de fato, desarmamento seja o novo nome da paz. Humanamente falando penso que a evoluída sofisticação das armas é um retrocesso. Do ponto de vista social o raciocínio deve ser outro.

Mas, é no mínimo vexatório, que tenhamos de nutrir tão elevado grau de medo e desconfiança em relação aos outros! Envergonha-me sentir medo de meu semelhante, andar de carro travado, fechado, se possível blindado. Envergonha-me não poder dar carona quando passo nos pontos de ônibus lotados.

O que nos terá levado a tanta desconfiança para com os outros? Questiono o que estamos fazendo à nossa humanidade na medida em que nos armamos cada vez mais. Quando não mais nos amamos, nos armamos.

Proponho que nos desarmemos de nossas intolerâncias, de nossas arrogâncias, de nossos lugares de vítima, de nossas relações de poder, de nossas mágoas, de nossas palavras (mal)ditas, de nossos desafetos, das banalizações que mantemos em relação ao outro e à vida. Receio que estejamos trocando amor por endurecimento e chamemos isso de evolução.

O amor, a ternura, bem poderiam ser paradigmas para a convivência humana. Isso sem falar que o perigo das armas está entrando pela porta da frente das escolas brasileiras, levando medo e insegurança a alunos, professores, diretores e funcionários.

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