Flávio Lauria

Carnaval

Não deixem a sensibilidade virar indústria, não permitam que a negociação e a demagogia política infelicitem a felicidade popular


Estamos na semana do Carnaval, na verdade existem carnavais e carnavais. No Brasil, o carnaval costuma vir antes e sair depois com os seus estridores peculiares. Os ensaios pré-carnavalescos funcionam como clarinada de convocação e experimento das passarelas, dos equipamentos de som e das próprias fantasias em avant-première. Músicos e bandas ajustam os instrumentos ao timbre conveniente das ruas e salões. As autoridades vivem o seu carnaval particular de vigilantes e sagazes olheiras do que poderá acontecer a tanta multidão reunida por tanto tempo. 

Noutras plagas, passa o carnaval despercebido. Em inúmeros lugares do mundo exterior ao Brasil, olha-se o calendário por mero hábito ou desfastio e certo enfado. É carnaval, mas ninguém se mexe. Noutros, a movimentação corre por conta de uma tradição já esmaecida, uma como que herança dos derradeiros momentos de uma Idade Média onde um papa, inspirado pela ciência do comportamento, veio de sugerir, não, a proibição do entrudo de fezes, mas, a respectiva substituição pelo entrudo de rosas com que passaram a saudar-se os foliões. Noutros ainda, a animação da festa tem ultimamente ficado por conta de uns quantos brasileiros saudosos dos seus passados carnavais do Rio, Pernambuco e Bahia, principalmente.
 

 

 

Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

 


Na pátria dos negócios, onde tudo pode ser negociado ao sabor da vantagem econômica, como na Roma dos césares, foliões brasileiros de New York viraram carnavalescos e os carnavalescos, homens de negócio interessados mais no empresar o passista, a baiana e a mulata do que em exibir o samba-enredo e o frevo autêntico na pista de rua. Todavia, são tudo, menos carnaval, porque o barulho, por maior que seja, não substitui a harmonia, o compasso não é a mesma coisa que o ritmo, a exuberância do vestuário rico não vence a graça, as luzes não superam as cores, o entusiasmo vendido e comprado fica longe do calor humano. É tudo muito frio, em terras frígidas, tudo muito distante, em terras longínquas. 

Aqui, ainda os entrados na idade provecta brincam, também a sua maneira condigna. Velhinhos solfejam e cantarolam, plenos de compostura e siso, as marchinhas de antigamente. Mencionam os blocos de estimação, lembram o nome dos monstros sagrados que faziam brilharem e afamarem os típicos carnavais manauaras, recordam inspirações que parece não voltam mais. Ainda hoje, até jovens, em coro com os idosos, enchem a atmosfera de entusiasmo com a invocação de um passado que nem foi deles, cantando marchinhas que não deixam cair no esquecimento. 

Não deixem a sensibilidade virar indústria, não permitam que a negociação e a demagogia política infelicitem a felicidade popular. A alma dos nossos carnavais é a espontaneidade, a naturalidade com que exprime a desinibição do seu feitio natural um povo inteiro. Se, todavia, queremos matar a inspiração, tolher o entusiasmo dessa gente descontraída, proclamemos regras, escrevamos éditos, lancemos portarias e regulamentos para os futuros e certamente tristes carnavais.


Flávio Lauria

Carnaval

Não deixem a sensibilidade virar indústria, não permitam que a negociação e a demagogia política infelicitem a felicidade popular

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Estamos na semana do Carnaval, na verdade existem carnavais e carnavais. No Brasil, o carnaval costuma vir antes e sair depois com os seus estridores peculiares. Os ensaios pré-carnavalescos funcionam como clarinada de convocação e experimento das passarelas, dos equipamentos de som e das próprias fantasias em avant-première. Músicos e bandas ajustam os instrumentos ao timbre conveniente das ruas e salões. As autoridades vivem o seu carnaval particular de vigilantes e sagazes olheiras do que poderá acontecer a tanta multidão reunida por tanto tempo. 

Noutras plagas, passa o carnaval despercebido. Em inúmeros lugares do mundo exterior ao Brasil, olha-se o calendário por mero hábito ou desfastio e certo enfado. É carnaval, mas ninguém se mexe. Noutros, a movimentação corre por conta de uma tradição já esmaecida, uma como que herança dos derradeiros momentos de uma Idade Média onde um papa, inspirado pela ciência do comportamento, veio de sugerir, não, a proibição do entrudo de fezes, mas, a respectiva substituição pelo entrudo de rosas com que passaram a saudar-se os foliões. Noutros ainda, a animação da festa tem ultimamente ficado por conta de uns quantos brasileiros saudosos dos seus passados carnavais do Rio, Pernambuco e Bahia, principalmente.
 

 

 

Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

 


Na pátria dos negócios, onde tudo pode ser negociado ao sabor da vantagem econômica, como na Roma dos césares, foliões brasileiros de New York viraram carnavalescos e os carnavalescos, homens de negócio interessados mais no empresar o passista, a baiana e a mulata do que em exibir o samba-enredo e o frevo autêntico na pista de rua. Todavia, são tudo, menos carnaval, porque o barulho, por maior que seja, não substitui a harmonia, o compasso não é a mesma coisa que o ritmo, a exuberância do vestuário rico não vence a graça, as luzes não superam as cores, o entusiasmo vendido e comprado fica longe do calor humano. É tudo muito frio, em terras frígidas, tudo muito distante, em terras longínquas. 

Aqui, ainda os entrados na idade provecta brincam, também a sua maneira condigna. Velhinhos solfejam e cantarolam, plenos de compostura e siso, as marchinhas de antigamente. Mencionam os blocos de estimação, lembram o nome dos monstros sagrados que faziam brilharem e afamarem os típicos carnavais manauaras, recordam inspirações que parece não voltam mais. Ainda hoje, até jovens, em coro com os idosos, enchem a atmosfera de entusiasmo com a invocação de um passado que nem foi deles, cantando marchinhas que não deixam cair no esquecimento. 

Não deixem a sensibilidade virar indústria, não permitam que a negociação e a demagogia política infelicitem a felicidade popular. A alma dos nossos carnavais é a espontaneidade, a naturalidade com que exprime a desinibição do seu feitio natural um povo inteiro. Se, todavia, queremos matar a inspiração, tolher o entusiasmo dessa gente descontraída, proclamemos regras, escrevamos éditos, lancemos portarias e regulamentos para os futuros e certamente tristes carnavais.

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