Flávio Lauria

Belo sonho de vida


 
Foto:Reprodução/Shutterstock
 
Posto que a morte é inevitável, como deveria ser a vida, para o homem comum?

Do ponto de vista financeiro, não, claro, a obsessão pela acumulação de bens e riquezas, luxo e ostentações, que ninguém levará consigo quando o dia fatal chegar.Sim, alguma base material para viver uma vida digna e com um recatado conforto, sem grandes atropelos, até com uma pequena folga para se permitir, de vez em quando, um modesto passeio pelas belezas deste mundo.

Do ponto de vista profissional, sobretudo a integridade do comportamento, qualquer que seja a atividade exercida: que ela seja praticada de forma reta, altiva, honesta, sem subserviências desmoralizantes, sem falsidades, sem precisar se vender, sem se corromper, sem “mensalões” ou “mensalinhos”.

Quanto à duração, que a existência fosse longeva, avançasse pelos anos, mesmo o corpo ficando encanecido e brancos, os cabelos. E visse, em derredor, a família bem constituída, nutrida de sólidas afeições recíprocas.

Tropeços, decepções, quedas, deslizes, atritos, que existência humana poderá se declarar completamente preservada dessas turbulências? Essencial terá sido a certeza, a cada crise renovada, de que o que os unia era muitíssimo mais forte do que tudo quanto conspirasse para desagregá-los.

E ver a fecundidade da vida, não só os filhos brotando, crescendo na alegria e na abnegação de um lar bem estruturado, mas também brotando os filhos dos filhos, e até filhos dos filhos dos filhos, todos com alguma segurança, não só a relativa, material e financeira, mas sobretudo a fundamental, emocional e afetiva, pela presença e apoio de uniões igualmente consistentes e entrosadas.

E chegar a tal idade avançada, com os achaques inevitáveis, é claro, mas com razoável lucidez, com a capacidade de ainda discernir, em torno, o generalizado júbilo, e sentir, em todos, a gratidão e o carinho – tais e tantos e tamanhos que seria competição absolutamente impossível querer identificar entre os netos – todos já integralmente criados, quase senhores absolutos dos próprios narizes – qual o mais presente ou qual o que mais o amava.

A noite, dormindo, sem nenhum aviso prévio, exatamente como ele mesmo desejava, e integralmente realizado o sonho da vida longeva e vivida com simplicidade e retidão, respeitado e amado pelos filhos, idolatrado pelos netos e bisnetos, – aos sobreviventes que ficarem, por mais desolados que estejam (como não poderia deixar de ser), só restará reconhecer que aquela foi uma vida abençoada, foi uma graça de Deus, graça a poucos, a muito poucos concedida.

E desconfiar, no mínimo, que ganharam no céu mais um intercessor, porque, entre esses familiares felizes, “a separação é impossível”, seja aqui seja além, “o amor é infinito” e “os laços que os unem são indestrutíveis”.

Flávio Lauria

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Belo sonho de vida

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


 
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Posto que a morte é inevitável, como deveria ser a vida, para o homem comum?

Do ponto de vista financeiro, não, claro, a obsessão pela acumulação de bens e riquezas, luxo e ostentações, que ninguém levará consigo quando o dia fatal chegar.Sim, alguma base material para viver uma vida digna e com um recatado conforto, sem grandes atropelos, até com uma pequena folga para se permitir, de vez em quando, um modesto passeio pelas belezas deste mundo.

Do ponto de vista profissional, sobretudo a integridade do comportamento, qualquer que seja a atividade exercida: que ela seja praticada de forma reta, altiva, honesta, sem subserviências desmoralizantes, sem falsidades, sem precisar se vender, sem se corromper, sem “mensalões” ou “mensalinhos”.

Quanto à duração, que a existência fosse longeva, avançasse pelos anos, mesmo o corpo ficando encanecido e brancos, os cabelos. E visse, em derredor, a família bem constituída, nutrida de sólidas afeições recíprocas.

Tropeços, decepções, quedas, deslizes, atritos, que existência humana poderá se declarar completamente preservada dessas turbulências? Essencial terá sido a certeza, a cada crise renovada, de que o que os unia era muitíssimo mais forte do que tudo quanto conspirasse para desagregá-los.

E ver a fecundidade da vida, não só os filhos brotando, crescendo na alegria e na abnegação de um lar bem estruturado, mas também brotando os filhos dos filhos, e até filhos dos filhos dos filhos, todos com alguma segurança, não só a relativa, material e financeira, mas sobretudo a fundamental, emocional e afetiva, pela presença e apoio de uniões igualmente consistentes e entrosadas.

E chegar a tal idade avançada, com os achaques inevitáveis, é claro, mas com razoável lucidez, com a capacidade de ainda discernir, em torno, o generalizado júbilo, e sentir, em todos, a gratidão e o carinho – tais e tantos e tamanhos que seria competição absolutamente impossível querer identificar entre os netos – todos já integralmente criados, quase senhores absolutos dos próprios narizes – qual o mais presente ou qual o que mais o amava.

A noite, dormindo, sem nenhum aviso prévio, exatamente como ele mesmo desejava, e integralmente realizado o sonho da vida longeva e vivida com simplicidade e retidão, respeitado e amado pelos filhos, idolatrado pelos netos e bisnetos, – aos sobreviventes que ficarem, por mais desolados que estejam (como não poderia deixar de ser), só restará reconhecer que aquela foi uma vida abençoada, foi uma graça de Deus, graça a poucos, a muito poucos concedida.

E desconfiar, no mínimo, que ganharam no céu mais um intercessor, porque, entre esses familiares felizes, “a separação é impossível”, seja aqui seja além, “o amor é infinito” e “os laços que os unem são indestrutíveis”.

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