Flávio Lauria

Automatismo da vida


 

 

Foto:Reprodução/Shutterstock

 

É difícil você encontrar em Manaus, uma pessoa que ainda não tenha sido assaltada, seja por violência para levar bolsa e celular, seja por violência acrescida de arma de fogo. Do furto, pouco mais do que ocasional, ao caco de vidro na mão. Deste, à arma em punho. Em seguida, ao dedo no gatilho.

Em tão curto espaço de tempo social, um salto gigantesco foi dado: de trombadinha a latrocida. No automatismo do ato, o automatismo da vida. Não se encontrando, esta, presa a quase nada, exceto a um tênue fio social que tem se revelado inútil. Corpos esquálidos hiperinflados de si mesmos, sem noção de limites e possuídos por um misto de alucinação e vertigem, saem à cata das suas vítimas pelas ruas e avenidas das cidades. São os meninos-caranguejos, os adolescentes-guabirus, e os adultos jovens-guarás, sempre à espreita da próxima presa, em cada esquina. Uma abordagem repentina, várias ordens de comando, alguns gritos, e escutam-se estampidos.

Vidas estão sendo ceifadas a céu aberto. O clamor é geral. Nem poderia ser diferente. A perda e o luto dilaceram a carne e roem os ossos de quem fica. A sangria afetiva revela-se sem fim. E deixa a todos em estado de estupor permanente, acuados, aterrorizados e perplexos. Exigem-se respostas imediatas e ações efetivas no combate a criminalidade, o que é de se esperar em qualquer sociedade minimamente civilizada.

Todavia, a vida em sua dimensão única é seccionada em duas partes distintas: a dos que matam alucinadamente e a dos que se mantêm ainda vivos a prantear os seus mortos. Tudo se torna muito simples e fácil de explicar. O medo embota a consciência, é sabido. E o pensamento binário se constitui em sua lógica imediata. E igualmente perversa.

De um lado, vidas produtivas embaladas em berço esplêndido ou forjadas pelo esforço próprio. Do outro, dejetos humanos prontos para serem lançados nos esgotos, os seus possíveis lugares de origem. Mas, de lá, eles teimam em voltar. Espalhando medo e gerando pânico. Criaturas desnaturadas, abortos da vida, comenta-se à boca miúda e graúda – verdadeiros monstros, também dizem. Há, ainda, quem abra bem os olhos para um dos lados da questão, é quando falam em inversão de valores, assim como há, também, quem os feche, na mesma proporção, no que concerne ao outro lado da mesma – para esses, a inversão de valores não passa de um arraigado preconceito de classe. O que não remove, nem uns nem outros, do pensamento binário. Mas tão-somente os coloca num beco social e político sem saída.

Para pôr fim a tal binarismo, cujos efeitos são socialmente desastrosos, é preciso que nós nos olhemos mais de perto no espelho. Sem medo e sem pejo do que o mesmo poderá vir a refletir ou a nos dizer: a vida é sempre única, embora existam múltiplas formas de expressão da vida. Em sendo única, todos nós somos coparticipes do que dela fazemos de melhor e de pior, em termos da sociedade que construímos para nós mesmos. O que exige muito mais do que um simples ater-se à esperança quanto ao futuro, imediato ou longínquo. E um bom começo para tal é romper com o pensamento binário e os sentimentos dele decorrentes – quer sejam de amor ou de ódio.


Flávio Lauria

Automatismo da vida

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


 

 

Foto:Reprodução/Shutterstock

 

É difícil você encontrar em Manaus, uma pessoa que ainda não tenha sido assaltada, seja por violência para levar bolsa e celular, seja por violência acrescida de arma de fogo. Do furto, pouco mais do que ocasional, ao caco de vidro na mão. Deste, à arma em punho. Em seguida, ao dedo no gatilho.

Em tão curto espaço de tempo social, um salto gigantesco foi dado: de trombadinha a latrocida. No automatismo do ato, o automatismo da vida. Não se encontrando, esta, presa a quase nada, exceto a um tênue fio social que tem se revelado inútil. Corpos esquálidos hiperinflados de si mesmos, sem noção de limites e possuídos por um misto de alucinação e vertigem, saem à cata das suas vítimas pelas ruas e avenidas das cidades. São os meninos-caranguejos, os adolescentes-guabirus, e os adultos jovens-guarás, sempre à espreita da próxima presa, em cada esquina. Uma abordagem repentina, várias ordens de comando, alguns gritos, e escutam-se estampidos.

Vidas estão sendo ceifadas a céu aberto. O clamor é geral. Nem poderia ser diferente. A perda e o luto dilaceram a carne e roem os ossos de quem fica. A sangria afetiva revela-se sem fim. E deixa a todos em estado de estupor permanente, acuados, aterrorizados e perplexos. Exigem-se respostas imediatas e ações efetivas no combate a criminalidade, o que é de se esperar em qualquer sociedade minimamente civilizada.

Todavia, a vida em sua dimensão única é seccionada em duas partes distintas: a dos que matam alucinadamente e a dos que se mantêm ainda vivos a prantear os seus mortos. Tudo se torna muito simples e fácil de explicar. O medo embota a consciência, é sabido. E o pensamento binário se constitui em sua lógica imediata. E igualmente perversa.

De um lado, vidas produtivas embaladas em berço esplêndido ou forjadas pelo esforço próprio. Do outro, dejetos humanos prontos para serem lançados nos esgotos, os seus possíveis lugares de origem. Mas, de lá, eles teimam em voltar. Espalhando medo e gerando pânico. Criaturas desnaturadas, abortos da vida, comenta-se à boca miúda e graúda – verdadeiros monstros, também dizem. Há, ainda, quem abra bem os olhos para um dos lados da questão, é quando falam em inversão de valores, assim como há, também, quem os feche, na mesma proporção, no que concerne ao outro lado da mesma – para esses, a inversão de valores não passa de um arraigado preconceito de classe. O que não remove, nem uns nem outros, do pensamento binário. Mas tão-somente os coloca num beco social e político sem saída.

Para pôr fim a tal binarismo, cujos efeitos são socialmente desastrosos, é preciso que nós nos olhemos mais de perto no espelho. Sem medo e sem pejo do que o mesmo poderá vir a refletir ou a nos dizer: a vida é sempre única, embora existam múltiplas formas de expressão da vida. Em sendo única, todos nós somos coparticipes do que dela fazemos de melhor e de pior, em termos da sociedade que construímos para nós mesmos. O que exige muito mais do que um simples ater-se à esperança quanto ao futuro, imediato ou longínquo. E um bom começo para tal é romper com o pensamento binário e os sentimentos dele decorrentes – quer sejam de amor ou de ódio.

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