Flávio Lauria

A temida prova


Estão vivos em nossa memória os absurdos que, em outros tempos, se cometiam nas provas de concursos públicos, em nosso país. Nelas, nada havia o que pudéssemos definir como politicamente correto, pois, na verdade, eram arapucas apelidadas de provas.

Muitos candidatos, coitados, preparavam-se à exaustão para a maratona de Português e Matemática, davam-se bem nas duas disciplinas, e depois morriam na praia. É que um bicho-papão, assustador e indomável, já os espreitava de longe, pronto para sugar-lhes os pescoços. Era a temida prova de datilografia, capaz de humilhar o mais competente dos candidatos, dado o natural nervosismo do momento.

   
Foto:Reprodução
 
É fácil avaliar a estupidez do esquema então em voga. Ora, se o concorrente vencera etapas difíceis nas duas provas consideradas pesos pesados, é porque possuía razoável bagagem de conhecimento específicos. Além disso, como exigir datilografia como prova eliminatória, se uma percentagem ínfima dos aprovados seria escalada para esse setor?

Mas ninguém reclamava, ninguém protestava; alguns até achavam aquela trapalhada um charme... Já imaginaram quantos talentos tiveram sufocados seus projetos de vida profissional por obra e graça desse desqualificado sistema? E quantas boas cabeças o serviço público terá perdido?

Quanto à prova de Língua Portuguesa, propunham-se questões que hoje soariam como verdadeiras piadas. Ficaram para a posteridade algumas charadas de pontuação, lúdicas e chamativas, a exemplo do hilariante um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro , ou do não menos terrível Maria sua mãe grita ela traga-me a toalha.

Extravagâncias desse calibre, aliadas à pífia exigência de se saber o gentílico de Quebec, Beirute, Jerusalém etc., costumavam pregar uma peça em excelentes candidatos e jogá-los na rua da amargura. Nem tudo estava perdido. Depois, o barco singrou águas serenas até certo tempo, pois nasceu uma lógica para a elaboração das provas. Eis que, desgraçadamente, surgiram as ondas revoltas do contra-senso.

Os conhecimentos linguísticos ficaram à deriva ou foram sumariamente arremessados à praia como excrescências. Instalou-se o império da interpretação/intelecção (êta palavra bonita!) de textos. Examinando gabaritos de concursos, tenho encontrado coisas do arco-da-velha. Nas questões relativas ao texto, não são raras as perguntas capciosas, aquelas que sugerem até três opções corretas.

Também é possível flagrar sandices como: Em que estaria pensando o autor quando, no parágrafo tal, ele afirma que... Vejam só: em que estaria pensando o autor ! Pode haver incoerência maior num teste em que estão empenhados a competência e os conhecimentos de um candidato? E o desentrosamento das unidades exigidas pelo programa das provas? E as agressões ao português... no programa de Português?...

Flávio Lauria

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A temida prova

Flávio Lauria

lauriaferreira@hotmail.com


Estão vivos em nossa memória os absurdos que, em outros tempos, se cometiam nas provas de concursos públicos, em nosso país. Nelas, nada havia o que pudéssemos definir como politicamente correto, pois, na verdade, eram arapucas apelidadas de provas.

Muitos candidatos, coitados, preparavam-se à exaustão para a maratona de Português e Matemática, davam-se bem nas duas disciplinas, e depois morriam na praia. É que um bicho-papão, assustador e indomável, já os espreitava de longe, pronto para sugar-lhes os pescoços. Era a temida prova de datilografia, capaz de humilhar o mais competente dos candidatos, dado o natural nervosismo do momento.

   
Foto:Reprodução
 
É fácil avaliar a estupidez do esquema então em voga. Ora, se o concorrente vencera etapas difíceis nas duas provas consideradas pesos pesados, é porque possuía razoável bagagem de conhecimento específicos. Além disso, como exigir datilografia como prova eliminatória, se uma percentagem ínfima dos aprovados seria escalada para esse setor?

Mas ninguém reclamava, ninguém protestava; alguns até achavam aquela trapalhada um charme... Já imaginaram quantos talentos tiveram sufocados seus projetos de vida profissional por obra e graça desse desqualificado sistema? E quantas boas cabeças o serviço público terá perdido?

Quanto à prova de Língua Portuguesa, propunham-se questões que hoje soariam como verdadeiras piadas. Ficaram para a posteridade algumas charadas de pontuação, lúdicas e chamativas, a exemplo do hilariante um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro , ou do não menos terrível Maria sua mãe grita ela traga-me a toalha.

Extravagâncias desse calibre, aliadas à pífia exigência de se saber o gentílico de Quebec, Beirute, Jerusalém etc., costumavam pregar uma peça em excelentes candidatos e jogá-los na rua da amargura. Nem tudo estava perdido. Depois, o barco singrou águas serenas até certo tempo, pois nasceu uma lógica para a elaboração das provas. Eis que, desgraçadamente, surgiram as ondas revoltas do contra-senso.

Os conhecimentos linguísticos ficaram à deriva ou foram sumariamente arremessados à praia como excrescências. Instalou-se o império da interpretação/intelecção (êta palavra bonita!) de textos. Examinando gabaritos de concursos, tenho encontrado coisas do arco-da-velha. Nas questões relativas ao texto, não são raras as perguntas capciosas, aquelas que sugerem até três opções corretas.

Também é possível flagrar sandices como: Em que estaria pensando o autor quando, no parágrafo tal, ele afirma que... Vejam só: em que estaria pensando o autor ! Pode haver incoerência maior num teste em que estão empenhados a competência e os conhecimentos de um candidato? E o desentrosamento das unidades exigidas pelo programa das provas? E as agressões ao português... no programa de Português?...

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