Abrahim Baze

Um olhar através da história e da geográfia

O espaço urbano de Manaus e Braga em Portugal


Se a arquitetura é o símbolo mais visível de uma sociedade, a fisionomia urbana de Manaus reflete bem o espírito da sociedade que nasceu aqui em 1669. Não se trata de uma frase, ou de simples generalização sociológica, posso garantir. Na verdade, a nossa arquitetura mais antiga exprime uma atitude emocional e consequentemente estética de um período muito importante da forte presença de portugueses que imigraram para Manaus em busca da economia e exportação do látex.

Manaus que há muito despertou a admiração de tantos imigrantes estrangeiros, cuja primeira década de 1900 marcou uma época. É verdade,de uma aldeota dos índios Manaus, o antigo Lugar da Barra transformou–se em um dos mais importante centro de atividade comercial do mundo tropical que por meio de seu comércio nas ultimas décadas do século XIX se fez presente na nossa economia com a exportação de pele de animais silvestres e principalmente o látex.

 

 

 

 

 

 

Manaus nos anos 20. Foto:Divulgação

 


Manaus daquele período veio conhecer o gosto e a experiência de países europeus especialmente Portugal, onde nossa burguesia buscava inspirações. As viagens à Europa era ocorrência de rotina por alguns exportadores de látex que viviam aqui. Era uma sociedade buscando o conhecimento firmando-se como força civilizadora, que hoje não é diferente Portugal continua fascinar como bem destaca a cidade de Braga o professor Miguel Sopas de Melo Bandeira.

Cidade de colinas suaves, a capital do Estado do Amazonas desdobrava-se em visões múltiplas para o visitante que cruza avenidas de seu lúcido urbanismo. E não deixa de impressionar a obra antes do governo de Eduardo Ribeiro, vislumbrando-se cortes hidrográficos de vários igarapés que serpenteavam a cidade, tais como: Do Salgado, do Espírito Santo, de Manaus, da Cachoeirinha, do São Raimundo e Educandos, hoje lamentavelmente alguns desapareceram.

O professor Miguel Sopas de Melo Bandeira assim destaca na sua obra: “O espaço urbano de Braga em meados do século XVIII”.


“O tipo de estruturas selecionadas procura, antes de tudo, refletir o plano urbano da cidade. Porém, a melhor compreensão de sua integridade e articulação exige perscrutar das dinâmicas humanas que o organizam.”¹ Página 140.

Os imigrantes portugueses tiveram ainda importante função da modelagem da sociedade da economia amazônica, tanto nas cidades como no interior. Naturalmente como classe politica dominante e com o surgimento das atividades agrícolas e florestais extrativistas, tornaramse agentes decisivos, suprindo essas atividades de liderança empresarial necessária, como produtores, mercadores, exportadores e comerciantes alcançando posição oligopolista, que se manteve do ápice da atividade socioeconômica baseada no látex até o advento de novas correntes e grupos culturais mais dinâmicos e inovadores.

Durante a fase áurea do látex, no fim do século XIX e a primeira década do século XX, milhares de imigrantes Lusos, atraídos pela fortuna conquistada por meio do trabalho, foram pioneiros na organização do sistema mercantilista de intercambio, cuja maior atuação era em Manaus e Belém, transformaram essas cidades em entrepostos comerciais e, por algumas décadas estabeleceram as linhas lógicas do suprimento rio acima de mercadores a base de crédito pessoal com os seringalistas recebendo em contrapartida, rio abaixo, mediante compra e venda dos gêneros e produtos extrativos destinados a exportação.

 

 

 

 

 

 

 

Palácio do Raio pertenceu a Miguel José Raio que fez fortuna em Belém do Pará e regressou para Braga, em Portugal. Foto: Reprodução/Misericórdia de Braga

 

 


Na sua grande maioria os imigrantes portugueses proviam da região dos minifúndios do médio e do norte de Portugal. Deixaram suas aldeias, freguesias, quintas ao longo do Rio Douro, Minho e Tejo: Vila Real, Povoa de Varzim, Viana do Castelo, Vila Nova de Gaia, Porto, Caldas da Rainha, Guarda, Albergaria – A – Velha, Alcabaça.


Chaves, Soure, Viseu, Melgaço, Braga, Barcelos, Santarém, Alenquer, Bragança, Faro, Óbidos, Aveiro, Almada, Cintra, Oeiras, Setúbal, Arganil, Tabuaço, Matosinhos, Esparreja, Esposente, Coimbra, Pinheu, Mortusa, Armama, Amores, Leiria, Ovar, Vila Flor, Mirandela, Covinlhã, Conselhos de onde se originaria a maioria dos portugueses que imigraram para o Brasil e estabeleceram-se em Manaus e Belém.
² Página 45.

No Amazonas e Pará alguns desses nomes de cidades portuguesas se tornaram muito familiares em nossa região, pois foram adotadas por ocasião de fundação de vilas e cidades da Amazônia. Os imigrantes portugueses na sua maioria eram jovens descendentes de famílias pobres, normalmente filhos de agricultores e proprietário de quintas e sítios, naturalmente de numerosa família patriarcal, com rígida educação domestica e extremamente obediente à tradição, valores familiares e devotos de santa ou santo padroeiro da comunidade em especial a Nossa Senhora de Fátima.

Portugal no final do século passado enfrentava uma crise econômica. As terras agrícolas dos minifúndios pertencentes a proprietário que possuíam famílias numerosas, sem terem como encaminhar seus filhos para a lavoura, uma vez que as parcelas de terra como a subdivisão da herança, se tornaram tão pequenas que eram incapazes de sustentar uma família.

Uma das formas encontradas para sobreviver era buscar novos horizontes. O jeito encontrado fora imigrar para as colônias de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Goa, Diu, Damão, Macau, remanescentes do antigo Império. No limiar de suas juventudes migravam para essas colônias e para o Brasil, Venezuela e Estados Unidos, em busca de trabalho e dias melhores.

As numerosas famílias que sobreviveram de uma agricultura quase de sobrevivência, cuidando das vinhas, das oliveiras, do azeite, da cortiça e de outros tantos produtos, incentivaram seus filhos a imigrar para o além-mar. Em muitas ocasiões eram trazidas por parentes próximos a até amigos da família que, no Brasil, haviam conseguido um pequeno comércio e procuraram pessoas de confiança para ajudar administrar os mesmos. Normalmente a fama desses estabelecimentos era: mercearias, padarias, talhos, bares, botequins, feira, quitandas, lojas e comércio em geral.

No decorrer do tempo, esses parentes e amigos se tornaram sócios e parceiros no empreendimento comercial em que trabalhavam. Ou até se desligavam para formar novas parceiras ou começar os próprios negócios. Dessa forma começava sua ascensão socioeconômica. No caso da Amazônia, além desses estabelecimentos varejistas, os portugueses dominavam as casas aviadoras e o comércio do látex e gêneros regionais, propiciou-se a chegada de muitos imigrantes portugueses para aprender o ofício de caixeiros, balconistas, vendedores internos e externos, viajantes e propostos dos patrões como pessoas de confiança.

Com o distanciamento das famílias que ficavam em Portugal eles passavam anos sem notícias dos seus descendentes, quando conseguiam amealhar recursos visitavam suas famílias em Portugal. Vale ressaltar que muitos imigrantes portugueses que imigraram para o Brasil e especialmente para Amazônia, com destaque para as cidades de Manaus e Belém alguns retornaram para Portugal fazendo fortuna na Amazônia construíram grandes palacetes entre tantos destaco o imóvel adquirido por Miguel José Raio que nasceu em 1814 e faleceu em 1875 tendo imortalizado seu nome no palacete.

Nascido na cidade de Braga fez fortuna na cidade de Belém do Pará regressando a Portugal expandiu seus negócios fundando o Banco do Minho, juntamente com outros sócios. Com destacada influência na sociedade local deu grandes contribuições a várias instituições de assistência, cuja generosidade permitiu com que as autoridades locais lhe dessem o título nobre em 1870 de Visconde São Lázaro. São esses fatos que não devem ser esquecidos nem por nós da Amazônia e principalmente pelos portugueses estudiosos do assunto de além-mar. Destaco aqui o interesse nesta investigação do professor Miguel Sopas de Melo Bandeira.

BANDEIRA, Miguel Sopas de Melo. O espaço urbano de Braga em meados do século XVIII. Edições Afrontamento. Porto, Portugal, 2000.
BENCHIMOL, Samuel. Manaus – do – Amazonas: Memória empresarial 1994. Edição Governo do Estado do Amazonas/Universidade do Estado do Amazonas/Associação Comercial do Amazonas.
Memórias da Misericórdia de Braga. Centro Interpretativo.


Abrahim Baze

Um olhar através da história e da geográfia

O espaço urbano de Manaus e Braga em Portugal

Abrahim Baze

jornalismo@portalamazonia.com


Se a arquitetura é o símbolo mais visível de uma sociedade, a fisionomia urbana de Manaus reflete bem o espírito da sociedade que nasceu aqui em 1669. Não se trata de uma frase, ou de simples generalização sociológica, posso garantir. Na verdade, a nossa arquitetura mais antiga exprime uma atitude emocional e consequentemente estética de um período muito importante da forte presença de portugueses que imigraram para Manaus em busca da economia e exportação do látex.

Manaus que há muito despertou a admiração de tantos imigrantes estrangeiros, cuja primeira década de 1900 marcou uma época. É verdade,de uma aldeota dos índios Manaus, o antigo Lugar da Barra transformou–se em um dos mais importante centro de atividade comercial do mundo tropical que por meio de seu comércio nas ultimas décadas do século XIX se fez presente na nossa economia com a exportação de pele de animais silvestres e principalmente o látex.

 

 

 

 

 

 

Manaus nos anos 20. Foto:Divulgação

 


Manaus daquele período veio conhecer o gosto e a experiência de países europeus especialmente Portugal, onde nossa burguesia buscava inspirações. As viagens à Europa era ocorrência de rotina por alguns exportadores de látex que viviam aqui. Era uma sociedade buscando o conhecimento firmando-se como força civilizadora, que hoje não é diferente Portugal continua fascinar como bem destaca a cidade de Braga o professor Miguel Sopas de Melo Bandeira.

Cidade de colinas suaves, a capital do Estado do Amazonas desdobrava-se em visões múltiplas para o visitante que cruza avenidas de seu lúcido urbanismo. E não deixa de impressionar a obra antes do governo de Eduardo Ribeiro, vislumbrando-se cortes hidrográficos de vários igarapés que serpenteavam a cidade, tais como: Do Salgado, do Espírito Santo, de Manaus, da Cachoeirinha, do São Raimundo e Educandos, hoje lamentavelmente alguns desapareceram.

O professor Miguel Sopas de Melo Bandeira assim destaca na sua obra: “O espaço urbano de Braga em meados do século XVIII”.


“O tipo de estruturas selecionadas procura, antes de tudo, refletir o plano urbano da cidade. Porém, a melhor compreensão de sua integridade e articulação exige perscrutar das dinâmicas humanas que o organizam.”¹ Página 140.

Os imigrantes portugueses tiveram ainda importante função da modelagem da sociedade da economia amazônica, tanto nas cidades como no interior. Naturalmente como classe politica dominante e com o surgimento das atividades agrícolas e florestais extrativistas, tornaramse agentes decisivos, suprindo essas atividades de liderança empresarial necessária, como produtores, mercadores, exportadores e comerciantes alcançando posição oligopolista, que se manteve do ápice da atividade socioeconômica baseada no látex até o advento de novas correntes e grupos culturais mais dinâmicos e inovadores.

Durante a fase áurea do látex, no fim do século XIX e a primeira década do século XX, milhares de imigrantes Lusos, atraídos pela fortuna conquistada por meio do trabalho, foram pioneiros na organização do sistema mercantilista de intercambio, cuja maior atuação era em Manaus e Belém, transformaram essas cidades em entrepostos comerciais e, por algumas décadas estabeleceram as linhas lógicas do suprimento rio acima de mercadores a base de crédito pessoal com os seringalistas recebendo em contrapartida, rio abaixo, mediante compra e venda dos gêneros e produtos extrativos destinados a exportação.

 

 

 

 

 

 

 

Palácio do Raio pertenceu a Miguel José Raio que fez fortuna em Belém do Pará e regressou para Braga, em Portugal. Foto: Reprodução/Misericórdia de Braga

 

 


Na sua grande maioria os imigrantes portugueses proviam da região dos minifúndios do médio e do norte de Portugal. Deixaram suas aldeias, freguesias, quintas ao longo do Rio Douro, Minho e Tejo: Vila Real, Povoa de Varzim, Viana do Castelo, Vila Nova de Gaia, Porto, Caldas da Rainha, Guarda, Albergaria – A – Velha, Alcabaça.


Chaves, Soure, Viseu, Melgaço, Braga, Barcelos, Santarém, Alenquer, Bragança, Faro, Óbidos, Aveiro, Almada, Cintra, Oeiras, Setúbal, Arganil, Tabuaço, Matosinhos, Esparreja, Esposente, Coimbra, Pinheu, Mortusa, Armama, Amores, Leiria, Ovar, Vila Flor, Mirandela, Covinlhã, Conselhos de onde se originaria a maioria dos portugueses que imigraram para o Brasil e estabeleceram-se em Manaus e Belém.
² Página 45.

No Amazonas e Pará alguns desses nomes de cidades portuguesas se tornaram muito familiares em nossa região, pois foram adotadas por ocasião de fundação de vilas e cidades da Amazônia. Os imigrantes portugueses na sua maioria eram jovens descendentes de famílias pobres, normalmente filhos de agricultores e proprietário de quintas e sítios, naturalmente de numerosa família patriarcal, com rígida educação domestica e extremamente obediente à tradição, valores familiares e devotos de santa ou santo padroeiro da comunidade em especial a Nossa Senhora de Fátima.

Portugal no final do século passado enfrentava uma crise econômica. As terras agrícolas dos minifúndios pertencentes a proprietário que possuíam famílias numerosas, sem terem como encaminhar seus filhos para a lavoura, uma vez que as parcelas de terra como a subdivisão da herança, se tornaram tão pequenas que eram incapazes de sustentar uma família.

Uma das formas encontradas para sobreviver era buscar novos horizontes. O jeito encontrado fora imigrar para as colônias de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Goa, Diu, Damão, Macau, remanescentes do antigo Império. No limiar de suas juventudes migravam para essas colônias e para o Brasil, Venezuela e Estados Unidos, em busca de trabalho e dias melhores.

As numerosas famílias que sobreviveram de uma agricultura quase de sobrevivência, cuidando das vinhas, das oliveiras, do azeite, da cortiça e de outros tantos produtos, incentivaram seus filhos a imigrar para o além-mar. Em muitas ocasiões eram trazidas por parentes próximos a até amigos da família que, no Brasil, haviam conseguido um pequeno comércio e procuraram pessoas de confiança para ajudar administrar os mesmos. Normalmente a fama desses estabelecimentos era: mercearias, padarias, talhos, bares, botequins, feira, quitandas, lojas e comércio em geral.

No decorrer do tempo, esses parentes e amigos se tornaram sócios e parceiros no empreendimento comercial em que trabalhavam. Ou até se desligavam para formar novas parceiras ou começar os próprios negócios. Dessa forma começava sua ascensão socioeconômica. No caso da Amazônia, além desses estabelecimentos varejistas, os portugueses dominavam as casas aviadoras e o comércio do látex e gêneros regionais, propiciou-se a chegada de muitos imigrantes portugueses para aprender o ofício de caixeiros, balconistas, vendedores internos e externos, viajantes e propostos dos patrões como pessoas de confiança.

Com o distanciamento das famílias que ficavam em Portugal eles passavam anos sem notícias dos seus descendentes, quando conseguiam amealhar recursos visitavam suas famílias em Portugal. Vale ressaltar que muitos imigrantes portugueses que imigraram para o Brasil e especialmente para Amazônia, com destaque para as cidades de Manaus e Belém alguns retornaram para Portugal fazendo fortuna na Amazônia construíram grandes palacetes entre tantos destaco o imóvel adquirido por Miguel José Raio que nasceu em 1814 e faleceu em 1875 tendo imortalizado seu nome no palacete.

Nascido na cidade de Braga fez fortuna na cidade de Belém do Pará regressando a Portugal expandiu seus negócios fundando o Banco do Minho, juntamente com outros sócios. Com destacada influência na sociedade local deu grandes contribuições a várias instituições de assistência, cuja generosidade permitiu com que as autoridades locais lhe dessem o título nobre em 1870 de Visconde São Lázaro. São esses fatos que não devem ser esquecidos nem por nós da Amazônia e principalmente pelos portugueses estudiosos do assunto de além-mar. Destaco aqui o interesse nesta investigação do professor Miguel Sopas de Melo Bandeira.

BANDEIRA, Miguel Sopas de Melo. O espaço urbano de Braga em meados do século XVIII. Edições Afrontamento. Porto, Portugal, 2000.
BENCHIMOL, Samuel. Manaus – do – Amazonas: Memória empresarial 1994. Edição Governo do Estado do Amazonas/Universidade do Estado do Amazonas/Associação Comercial do Amazonas.
Memórias da Misericórdia de Braga. Centro Interpretativo.

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